
A pergunta sobre como imaginar o futuro de um corpo travesti impulsiona a dramaturgia do espetáculo “Senhora Travesti”. A nova montagem chega ao palco do Teatro Gebes Medeiros, em Manaus, nos dias 22 e 30 de julho de 2026, às 19h30, com entrada gratuita e classificação indicativa de 16 anos.
A produção é a mais recente criação da Companhia Transversal de Artes Integradas, coletivo artístico independente formado por pessoas trans na capital amazonense. Fundada em 2022 pela atriz, diretora e produtora Nicka durante seu processo de transição de gênero, a companhia surgiu da busca por um espaço onde artistas trans pudessem pesquisar, criar e ocupar a cena com autonomia, protagonismo e liberdade.
O trabalho do grupo articula teatro e audiovisual a partir de narrativas LGBTQIAPN+, com foco nas experiências vividas por pessoas trans na Amazônia. No portfólio da companhia destacam-se a peça “Viper Paradise”, reconhecida com prêmios nacionais, o curta-metragem “O Extraordinário Evanescer”, vencedor do Júri Popular no CLOSE – Festival de Cinema LGBTQIAPN+ de Manaus, e agora a obra “Senhora Travesti”, que inicia uma nova fase de investigação artística do coletivo.
Inquietações sobre o envelhecer
O espetáculo tem origem em uma provocação que atravessa a vida da população trans no Brasil sobre o direito ao envelhecimento. Diante de cenários de violência e exclusão social, entidades como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) utilizam há anos o dado estimado de 35 anos para ilustrar o impacto da transfobia na longevidade dessa população, ressaltando que o número deve ser entendido como um indicador de desigualdade social, e não como uma estatística oficial de expectativa de vida.
Foi a partir desse cenário que a dramaturgia começou a ser desenhada.
“Senhora Travesti nasce da necessidade de imaginar um futuro para corpos travestis. Em um país onde a violência insiste em interromper tantas vidas, e em Manaus, cidade que também carrega profundas marcas de exclusão sobre corpos trans”, afirma Nicka, que assina a direção, a dramaturgia e a atuação do espetáculo.
Apesar de dialogar com memórias da artista, a personagem não possui caráter autobiográfico. Em cena, a atuação reúne lembranças individuais e coletivas, afetos, perdas, espiritualidade, humor, desejo, violência e resistência. A narrativa traz questionamentos sobre o que significa sobreviver, o cuidado com as travestis, a autorização social para o envelhecimento e o que resta após a interrupção de tantas histórias.
Significado e linguagem cênica
O título “Senhora Travesti” busca criar um deslocamento simbólico na cena cultural. A palavra “senhora” rompe com construções que costumam associar as travestis exclusivamente à juventude ou à violência, apresentando uma existência pautada pela memória, pelo tempo e pelo afeto.
“Colocar uma senhora travesti em cena é afirmar uma existência que historicamente foi negada. É romper com a ideia de que pessoas travestis estão destinadas apenas à marginalização, à violência ou à morte precoce”, explica a artista Nicka.
A estrutura do espetáculo abandona a narrativa linear e entrelaça recordações, relações de família, espiritualidade, encontros e ausências por meio de uma linguagem performativa. Palavra, corpo, música, silêncio e presença física sobre o palco constroem diferentes camadas de imaginação, convidando o público a refletir sobre quais vidas têm autorização para existir e quais futuros ainda precisam ser pensados coletivamente.
Ficha técnica da produção
A montagem reúne diversos profissionais na equipe criativa e técnica:
- Direção, dramaturgia e atuação: NICKA
- Provocação artística: Ana Júlia Bertrand e Iris Oliveira
- Musicalidade: Agnes Morgana
- Interpretação de Libras: Ainã Palheta
- Audiodescrição: Iris Oliveira
- Mediação: Maria Fernanda Carmim
- Técnica de iluminação: Emily Danali
- Mídias digitais: Leandra Cristine
- Ilustração: Daniel Esteves
- Apoio cultural: Vale das Pedrinhas – Cazuá de Criação
Serviço do espetáculo
- Espetáculo: Senhora Travesti
- Datas: 22 e 30 de julho de 2026
- Horário: 19h30
- Local: Teatro Gebes Medeiros, Avenida Eduardo Ribeiro, número 937, Centro de Manaus, antigo Ideal Clube
- Entrada: Gratuita
- Classificação indicativa: 16 anos
ASCOM: Maria Fernanda Carmim










