
Há mais de quatro décadas, a pesquisadora Sonia Sena Alfaia trabalha para responder a um dos maiores desafios da Região Norte, que é gerar renda, fortalecer a agricultura familiar e melhorar a qualidade de vida das populações locais garantindo a conservação da floresta.
Por conta dessa trajetória, a pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) foi a laureada do Prêmio Fundação Bunge 2026, na categoria Vida e Obra do tema “Inovação em processos de transferência de tecnologias e conhecimentos para a agricultura familiar”.
A cientista é reconhecida nacionalmente por sua atuação em agricultura familiar, agricultura indígena, sistemas agroflorestais e manejo sustentável dos solos amazônicos.
Sonia dedicou a carreira à construção de soluções científicas em conjunto com agricultores familiares, povos originários e comunidades tradicionais, além de atuar na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
“Receber o prêmio foi uma surpresa muito grande. Eu realmente não esperava. É um prêmio que dá visibilidade ao trabalho que fazemos e nos incentiva a continuar atuando em uma área tão importante para a Amazônia”, afirma Sonia.
Trajetória e formação acadêmica
Natural de Codajás, município localizado às margens do Rio Solimões no Amazonas, Sonia cresceu em uma família que enxergava a educação como ferramenta de transformação social. Filha de um produtor rural, vivenciou desde a infância a realidade da agricultura amazônica e aprendeu a importância do trabalho na terra para a subsistência das famílias regionais.
A busca por oportunidades educacionais motivou a mudança da família para Manaus ainda na infância da pesquisadora.
“Ele sempre teve a visão de que a educação era fundamental para o nosso futuro”, lembra a pesquisadora sobre o incentivo do pai.
A jornada acadêmica da cientista inclui marcos de destaque:
- Graduação em Agronomia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM);
- Mestrado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA);
- Doutorado em Ciências Agronômicas no Institut National Polytechnique de Lorraine, na França.
Após concluir a formação no exterior, retornou ao estado para consolidar sua carreira no INPA, tornando-se uma das principais referências científicas do país no uso sustentável dos recursos naturais.
Atuação em políticas públicas
Um dos momentos mais marcantes da trajetória da pesquisadora ocorreu na Secretaria de Estado da Produção Rural do Amazonas (SEPROR), onde atuou de 2010 a 2014 como Secretária Executiva Adjunta de Planejamento e Projetos.
“Foi quando fui para o olho do furacão. Era o momento em que os produtores chegavam até nós para apresentar seus problemas e demandas”, recorda a pesquisadora.
A vivência com as demandas do interior do estado resultou na idealização do Programa de Agricultura Indígena da SEPROR.
A iniciativa foi desenhada para fortalecer a produção agrícola dos povos originários por meio de capacitação, assistência técnica, organização produtiva e facilitação de acesso a mercados.
Atualmente, a estrutura atende as comunidades por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA Indígena), impulsionando a segurança alimentar e a geração de renda nas aldeias.
Produção aliada à conservação
As pesquisas coordenadas por Sonia buscam demonstrar que é viável expandir a produção agrícola sem recorrer ao desmatamento.
“A agricultura aqui precisa se aproximar mais da floresta, e não se afastar dela”, afirma a pesquisadora do INPA.
Essa premissa orienta os trabalhos voltados a sistemas agroflorestais e cadeias produtivas estratégicas para a bioeconomia regional, com foco nas seguintes culturas:
- Açaí;
- Castanha;
- Pupunha;
- Guaraná;
Entre os projetos de destaque está a parceria com o povo indígena Sateré-Mawé. O trabalho realiza a recuperação de antigos guaranazais por meio de práticas agroecológicas e fortalece cadeias sustentáveis complementares, como o cultivo sustentável do pau-rosa, espécie de alto valor para a indústria de cosméticos.
“Temos muito respeito pelos conhecimentos e pela cultura dessas comunidades. O nosso papel é construir soluções junto com elas”, destaca a cientista.
Formação de novos cientistas
Além do trabalho de campo e da formulação de políticas públicas, Sonia atua na pós-graduação do INPA, onde orientou dezenas de mestres e doutores que hoje lideram projetos de desenvolvimento sustentável. A pesquisadora tem incentivado que os cientistas mais jovens assumam a frente das pesquisas regionais.
“Estou passando o bastão porque eles são o futuro da pesquisa na Amazônia”, enfatiza.
Para a agrônoma, a premiação representa uma vitória coletiva dos profissionais e comunidades envolvidas ao longo das décadas.
“É o trabalho de uma vida inteira. Fazer pesquisa na Amazônia não é fácil, mas é muito gratificante quando vemos que aquilo que construímos ajuda, de fato, a melhorar a vida das pessoas”, finaliza Sonia.
Sobre o prêmio Bunge
Criado em 1955 e inspirado na dinâmica do Prêmio Nobel, o Prêmio Fundação Bunge homenageia cientistas que trazem contribuições para o desenvolvimento do país e para a resolução de desafios estratégicos. Mais de 200 personalidades já foram agraciadas na história da premiação, cujas indicações partem de universidades e instituições científicas brasileiras, com avaliação feita por comissões independentes de especialistas.
Na edição de 2026, o prêmio reconheceu quatro pesquisadores brasileiros por contribuições à agricultura tropical sustentável e inovação no campo:
- Sonia Sena Alfaia: Laureada na categoria Vida e Obra no tema “Inovação em processos de transferência de tecnologias e conhecimentos para a agricultura familiar”.
- Raul Victor Magalhães Sousa: Estudante de 16 anos e bolsista de Iniciação Científica Júnior (PIBIC Jr.) do CNPq, orientado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), premiado na categoria Juventude no mesmo tema por desenvolver um sistema de inteligência artificial aliado a saberes tradicionais para prever chuvas no semiárido cearense.
- Alexandre Lima Nepomuceno: Chefe-Geral da Embrapa Soja, premiado na categoria Vida e Obra no tema “Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresse térmico e hídrico” por estudos em fisiologia vegetal, biologia molecular e tolerância à seca.
- Paulo Eduardo Teodoro: Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), reconhecido na categoria Juventude no tema de estresse térmico por pesquisas em tecnologias para agricultura sustentável e Fenotipagem de Alto Rendimento.
Sobre a Fundação Bunge
A Fundação Bunge, entidade social da Bunge no Brasil, há 70 anos atua para gerar impactos positivos na sociedade em territórios e setores estratégicos para a Bunge, fomentando a diversidade com promoção dos direitos humanos por meio da inclusão produtiva e do estímulo à economia de baixo carbono, estimulando a ciência e a preservação da memória. A Fundação é o pilar social da Bunge, líder mundial no processamento de sementes oleaginosas e na produção e fornecimento de óleos e gorduras vegetais especiais, que tem como propósito conectar agricultores a consumidores para fornecer alimentos, nutrição animal e combustíveis essenciais para o mundo. Site: fundacaobunge.org.br
GBR Comunicação










