Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho Relativizar a verdade é mau-caratismo: quando o STF trocou a Justiça pelo...

Relativizar a verdade é mau-caratismo: quando o STF trocou a Justiça pelo grito

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

O Brasil assistiu, em meados de setembro de 2026, a uma das cenas mais graves e constrangedoras da história recente do Supremo Tribunal Federal. Durante o julgamento dos desdobramentos do chamado Caso Master, os ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e André Mendonça protagonizaram um bate-boca com ataques pessoais, gritos e ofensas. Naquele instante, o debate jurídico ficou em segundo plano e o que se viu foi a falta de decoro, de respeito e de urbanidade na mais alta Corte do país.

Tudo começou quando o ministro André Mendonça derrubou o sigilo de relatórios da Polícia Federal (PF) com mensagens retiradas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investigado por supostas irregularidades financeiras. Segundo o que consta nos autos e foi divulgado pela imprensa, as conversas citariam, em tese, gente graúda da República. Haveria menção a supostos pagamentos de R$ 500 mil por mês que teriam como destino o filho do ministro Nunes Marques e referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. É importante frisar que são indícios ainda em apuração, sem denúncia formal nem condenação até agora.

A partir daí, a reação foi dura. Ministros mais próximos de Alexandre de Moraes, que também teve o nome citado no mesmo caso, criticaram Mendonça por expor o material. Em plenário, Gilmar Mendes chegou a dizer, em tom de ironia, que “até a máfia tem ética”, afirmando que era preciso ter decência e não expor colegas dessa forma. Com isso, o foco passou a ser o vexame do vazamento, e não o conteúdo das mensagens. O processo em julgamento era a Petição 16.662, aberta no dia 1º de setembro, e o STF discutia se os casos que envolvem Moraes e Mendonça deveriam andar juntos ou separados.

Momento de tensão

Foi nesse clima que ocorreu o momento mais tenso. Quando Mendonça tentava responder ao procurador-geral Paulo Gonet, Gilmar Mendes o interrompeu, chamou-o de “sujeito” e disse que aquilo era uma “desfaçatez”, expressão que significa cara de pau e atrevimento. Mendonça não aceitou e reagiu em voz alta afirmando “Me respeite! Isso aqui não é brincadeira não!”, ao que Gilmar respondeu “Pode chorar”. A frase se espalhou nas redes sociais como símbolo de desdém.

E é neste ponto que entra a conduta de Flávio Dino, que não pode ser suavizada. Dino foi antiético, deselegante e grosseiro. Desrespeitoso com o colega e com o rito da Corte. Em vez de atuar como bombeiro, como exige a liturgia de um ministro do Supremo, atuou como justiceiro de ocasião. Seu pedido de vista não foi técnico, foi político. Foi um artifício regimental para travar um debate que estava expondo fatos incômodos. Ao dizer que o tribunal usava termos que degradam a imagem da Corte, ele próprio degradava ainda mais, pois se somava ao coro que ataca o mensageiro para proteger a corporação. Faltou-lhe urbanidade, sobrou-lhe arrogância. Faltou-lhe imparcialidade, sobrou-lhe alinhamento.

Sessões canceladas

Diante disso, a situação ficou tão grave que o presidente do STF, ministro Edson Fachin, cancelou as sessões seguintes para tentar acalmar os ânimos. Foi a terceira sessão cancelada em duas semanas. Até a interrupção, o placar estava 4 a 3 para que os casos de Moraes e Mendonça fossem analisados separadamente.

Nesse sentido, juristas e a opinião pública veem dois problemas que se misturam. Primeiro, a cortina de fumaça. Para parte dos analistas, atacar Mendonça e discutir apenas como a prova vazou serve para esconder o principal, que é o conteúdo revelado pelas mensagens. Fala-se muito da forma e pouco do conteúdo, dos indícios graves de corrupção e de tráfico de influência. A intervenção grosseira de Dino se encaixa exatamente aqui, interrompendo para não deixar a verdade avançar. Segundo, a politização. Em nota oficial divulgada no dia 17 de setembro, Mendonça acusou Gilmar Mendes de desrespeitar a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN), de 1979. Essa lei proíbe o juiz de dar opinião pública sobre processo que ainda vai ser julgado e de falar mal do voto de colega. A mesma LOMAN, em seu espírito, exige compostura, e foi rasgada também pela postura desrespeitosa de Dino, que tratou o plenário como palanque.

Exigência de conduta

Por consequência, depois da briga, o próprio Mendonça cobrou urgência na aprovação de um Código de Ética para o Supremo. Hoje o STF tem regimento interno e segue a Constituição, mas não tem uma regra clara de comportamento ético. Isso deixa a Corte vulnerável a atitudes que ferem a dignidade do cargo. A proposta não é nova e já é discutida desde 2023, sobre como ministros devem se comportar em público, em eventos pagos e em casos de conflito de interesse. Com a crise de agora, o assunto voltou com força. A ministra Cármen Lúcia foi indicada para relatar a proposta e disse estar envergonhada com o nível da briga. E tem razão para estar, pois quando um ministro age com grosseria e falta de elegância no plenário, como fez Dino, ele mostra por que o código é urgente.

Busca pela verdade

Chegamos, assim, ao ponto central desta crise, na qual relativizar a verdade é um mau-caratismo inominável, que não tem nome, mas destrói tudo. Quando o Supremo discute mais como a informação vazou do que o que a informação mostra, quando se preocupa mais com a ética da máfia do que com a ética da Justiça, a moral do Direito fica de cabeça para baixo.

A verdade é teimosa, como dizia a pensadora Hannah Arendt. Ela resiste. Pode ser escondida por um tempo, mas uma hora aparece. No Caso Master não estamos falando de opinião, e sim de fatos escritos em relatórios da Polícia Federal, com conversas, valores, nomes e datas. Transformar fato em fofoca, prova em intriga e corrupção em simples vexame é desonestidade pura e cinismo institucionalizado. Rui Barbosa já alertava que justiça que se esconde atrás de palavras bonitas vira cumplicidade. Usar a desculpa de proteger a instituição ou de manter o espírito de corpo para não enfrentar a verdade não é cuidado, é corporativismo. E corporativismo no Supremo não é só contra a República, é contra o povo, porque ensina que quem está no topo pode escolher qual verdade vale.

São Tomás de Aquino dizia que a verdade é a mente de acordo com a realidade. Não há acordo possível quando se prefere bater no mensageiro para não ter que responder à mensagem. Quando um ministro é chamado de sujeito por mostrar algo de interesse público, o que se castiga não é a falta de educação, e sim o excesso de transparência. Esse mau-caratismo é inominável porque não está escrito nos códigos, mas seu efeito é devastador. Ele acaba com a confiança. O povo que assiste ao vivo pela TV Justiça percebe quando o debate deixa de ser jurídico e vira intimidação. E percebe quando a verdade vira moeda de troca na briga política.

Portanto, o cidadão que viu tudo ao vivo fica com a sensação de que a Justiça ficou em segundo plano e que o que valeu foi a vaidade, a blindagem e a briga por poder. Quando juízes da mais alta Corte trocam ofensas em vez de argumentos, toda a democracia perde credibilidade e passa a impressão de que quem deveria dar exemplo de integridade não está dando. O que está em jogo não é só o Caso Master. É a capacidade do Supremo de continuar sendo visto como juiz imparcial num Brasil que clama, acima de tudo, para que a verdade não seja tratada como algo relativo.

E quando a Corte que deveria guardar a Constituição troca a toga pelo grito, a grosseria pela ética e relativiza a verdade, ela não protege a democracia, mas a enterra com as próprias mãos.

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