Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho Quando pais e tios partem e os netos chegam: ficar para testemunhar

Quando pais e tios partem e os netos chegam: ficar para testemunhar

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

Há um momento na vida em que se percebe, sem que ninguém precise avisar, que se chegou ao topo da montanha.

Não se trata de uma chegada triunfal. Trata-se de uma chegada silenciosa, quase sussurrada pelo tempo.

Ela acontece quando a pessoa se torna o primo ou a prima mais velhos dos dois lados da família, vendo os pais e os últimos tios e as últimas tias partirem para a eternidade sem fim, e quando os amigos com quem se cresceu passam a falar, com uma naturalidade que antes assustaria, sobre exames, sobre perdas, sobre finitude.

Olha-se para trás e vê-se uma longa estrada. Olha-se para a frente e vê-se uma estrada mais curta, mas nem por isso menos luminosa.

É nesse lugar, entre a memória e a esperança, entre quem partiu e quem chegou, que nasce esta reflexão, não como teoria sobre a velhice, mas como testemunho de quem está nela, ao lado dos coevos, e tenta nomeá-la com honestidade e com fé.

A colheita e a sementeira do tempo

A cultura contemporânea ensinou a ler a velhice como declínio, como perda de força, de beleza e de utilidade, como uma descida inevitável e melancólica.

Simone de Beauvoir, em A Velhice, já denunciava essa crueldade, pois a sociedade trata a pessoa idosa como um outro, como alguém que já não conta, que já não produz, que já não deseja, como se, ao envelhecer, a pessoa deixasse de ser sujeito e passasse a ser problema.

No entanto, há outra leitura, mais antiga e mais verdadeira, guardada como um tesouro na Escritura.

O Eclesiastes não fala da velhice como castigo, mas do tempo como colheita: “Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou” (Ec 3,2).

Assim, plantar é o ofício da juventude, colher é o ofício da maturidade e tornar-se sementeira é o ofício da velhice.

Na juventude, planta-se. Na maturidade, colhe-se. Na velhice, torna-se a própria semente, não porque se produza mais, mas porque se passa a viver na vida dos outros, como a árvore que se prolonga em outras árvores.

Três netos, e entre eles uma neta já no limiar em que a sorte se lança, alea jacta est, já diante do lance que não volta atrás, não são apenas fruto.

São a prova delicada de que a árvore continua viva em outras árvores, de que o amor encontrou outros ramos para florescer, de que a partida dos pais e dos tios não interrompeu a vida, apenas a entregou a outras mãos.

O perfume da resina e a força das raízes

As velhas árvores ainda brotam.

Delas, mesmo quando o tronco já parece morto, ainda nascem rebentos, como diz Jó: “Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova” (Jó 14,7-9).

E das seixas, dessas árvores antigas, retorcidas pelo tempo, vencedoras da idade e das procelas, como cantou Olavo Bilac, ainda escorre o betume, aquela resina espessa que, ao ser ferida, não apodrece, perfuma.

É o incenso da velhice: não mais a flor que se mostra, mas a resina que se oferece, como o olíbano que escorre em lágrima e, queimado, sobe como oração.

A árvore velha já não precisa provar que é verde. Basta-lhe ser raiz, ser sombra, ser perfume.

Basta-lhe ficar, e deixar que dos seus galhos nasçam outros galhos, e do seu tronco rachado suba, como fumaça mansa, a oração de uma vida inteira.

Por isso o Salmo pode dizer, sem ironia: “Na velhice ainda darão fruto, cheios de seiva e verdejantes” (Sl 92,14).

Generatividade e o cuidado com o futuro

Dessa forma, Erik Erikson, ao descrever o desenvolvimento humano, chamou esse momento de generatividade em oposição à estagnação.

Generatividade não é ter filhos. É cuidar do que vai continuar depois de si. É transmitir, é orientar, é abençoar.

Quem consegue viver a generatividade não fica preso em si mesmo. Quem não consegue, estagna, torna-se amargo, preso ao que perdeu, prisioneiro do próprio espelho.

Por isso, a colheita não é o fim do ciclo.

É a celebração do que foi plantado e a entrega serena do que ainda pode nascer, como quem abre as mãos e deixa o vento levar a semente para onde ainda há terra boa.

Ser testemunha e arquivo vivo

Além disso, ser a pessoa mais velha tem um peso que só quem é a pessoa mais velha entende, um peso feito de ternura e de saudade.

Quando pais e tios se vão, não vai apenas uma pessoa. Vai um arquivo inteiro.

Vai quem lembrava como era a casa da avó, quem sabia por que aquele primo brigou com o outro em 1978, quem guardava a receita, a piada, o nome do cachorro, a história do primeiro emprego.

Carl Gustav Jung afirmava que a segunda metade da vida tem uma tarefa diferente da primeira.

Na primeira, constrói-se o ego: carreira, casa, nome, posição.

Na segunda, é-se chamado a construir o sentido: quem se é quando já não se é o que se fazia, o que fica quando o cargo, a força e a pressa vão embora, como a maré que recua e revela o que é essencial na praia.

E a resposta de Jung é dura e libertadora: fica o que é essencial, fica a alma.

Ser patriarca ou matriarca, nesse sentido, não é ser chefe. É ser testemunha. É ser o arquivo vivo.

É ser aquele para quem os mais jovens vão olhar e perguntar como era antes, como se fez, o que se aprendeu, como se atravessou.

A dignidade e a herança simbólica

Com isso, surge uma vertigem, porque a pessoa mais velha passa a estar na fronteira final do conhecimento familiar, no lugar exato onde os que vieram antes já não estão e onde os netos ainda estão chegando.

Mas também surge uma dignidade que a juventude não tem, uma dignidade quieta, sem alarde: a pessoa idosa não precisa mais provar nada, precisa apenas contar.

Contar como era, contar quem foi, contar o que doeu e o que valeu.

Quem conta, não morre por inteiro.

Rubem Alves dizia que a memória é o que torna a pessoa eterna de um jeito humano, não porque se continue vivo, mas porque se continue contado, como uma história que se conta à beira do fogo e nunca se apaga por completo.

A neta que ouve a história do avô carrega o avô dentro dela, mesmo depois que ele partir.

É isso que se chama, em psicoteologia, de herança simbólica: um modo de ser, uma frase, um valor, um cuidado que permanece no outro como memória viva, como perfume que fica no quarto depois que a flor já foi colhida.

A presença partilhada entre coevos

Há, ainda, uma solidão específica em envelhecer.

Não é a solidão de estar sozinho. É a solidão de ser o único que lembra, o único que ainda escuta, no fundo do coração, as vozes de um mundo que já partiu.

Por isso os amigos coevos são tão importantes.

Coevo não é apenas contemporâneo. É co-testemunha.

É quem viveu o mesmo tempo histórico, ouviu as mesmas músicas, viu as mesmas ruas mudarem, enterrou os mesmos que o viram crescer, riu das mesmas teimosias do corpo.

O sociólogo Maurice Halbwachs, ao tratar da memória coletiva, mostrou que ninguém lembra sozinho.

A memória precisa de outro para se confirmar: lembra-se, estava-se lá, foi assim mesmo.

Sem esse outro, a lembrança vira dúvida. Com esse outro, vira história.

É por isso que conversar com os coevos faz tão bem. Não é preciso explicar tudo.

Basta dizer meia frase e o outro entende.

Basta rir de uma dor no joelho e o outro rir junto, porque sabe exatamente o que é.

Basta silenciar diante de uma notícia triste e o outro silenciar junto, porque sabe que não há palavra que resolva, apenas presença que console.

A consolação e a igreja doméstica

Na linguagem de Paulo, isso é consolação.

Consolação, para Paulo, não é explicação. É presença.

É Deus que se aproxima, e é a comunidade que aprende a aproximar-se do mesmo jeito.

“Chorai com os que choram” (Rm 12,15).

Chorar com, não chorar por. Ficar ao lado, sem corrigir, sem apressar, sem transformar a dor em lição.

Os coevos são, nesse sentido, uma forma de igreja doméstica: um pequeno grupo onde a finitude pode ser dita sem escândalo, onde o medo pode ser nomeado sem vergonha, onde a saudade pode ser chorada sem pressa.

Por isso, não se deve evitar falar sobre a finitude, mas também não se deve fazer dela o único assunto.

É preciso rir juntos, celebrar os netos uns dos outros, apoiar-se nos dias em que o peso dos anos parecer maior.

Ter amigos que entendem o que é ver o mundo antigo desaparecer é um ancoradouro emocional indispensável, um porto seguro no meio do mar do tempo.

A sabedoria de viver o hoje

A sensação de que a finitude se aproxima não é um erro de perspectiva. É a realidade nua e crua da existência humana.

E é justamente por isso que ela pode libertar, como uma janela que se abre para o ar fresco da manhã.

Na juventude, vive-se como se o tempo fosse infinito. Por isso acumulam-se coisas, corre-se, adia-se.

Na velhice, descobre-se que o tempo é finito.

E essa descoberta, se bem acolhida, não torna a pessoa amarga. Torna-a presente, atenta ao que é pequeno e essencial.

O filósofo Martin Heidegger dizia que o ser humano só se torna verdadeiramente si mesmo quando assume o seu ser-para-a-morte.

Não como mórbida obsessão, mas como consciência: morre-se, portanto cada dia conta.

Cada café da manhã conta. Cada abraço conta. Cada tarde silenciosa conta, como um poema breve que se lê devagar.

Não é mais tempo de construir carreira ou acumular bens. É tempo de qualidade.

Qualidade do café, qualidade do abraço, qualidade do silêncio, qualidade da leitura, qualidade da oração.

O tempo agora não é sobre o amanhã. É sobre o hoje.

Que o amanhã cuide de si mesmo. O compromisso é com o dia de hoje, com a luz que ele traz e com a paz que ele pede.

A alma desarmada e o memento mori

É o que a tradição cristã chama de memento mori: lembrar-se de que se é mortal.

Não para ter medo, mas para viver com verdade, com a alma desarmada.

Quem sabe que vai morrer, aprende a não desperdiçar a vida com o que não importa.

Paulo viveu isso. Ele conheceu a perda, a perseguição, a solidão e a prisão.

E, mesmo assim, escreveu: “para mim, o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fl 1,21).

Não porque a vida não valha a pena, mas porque nem a vida nem a morte nos separam do amor de Deus (Rm 8,38-39).

A finitude, para Paulo, não é o fim do vínculo.

É a travessia do vínculo para outra forma de presença, como um rio que muda de leito e continua sendo rio.

A beleza dos vasos de barro

O peso dos anos, por sua vez, é real. Dói no corpo. Pesa na saudade de quem já partiu. Pesa na certeza de que o tempo também é limitado.

Mas há uma leveza oculta nisso, uma leveza que só se descobre depois de muito caminhar.

Quem chegou ao topo já passou pelas maiores tempestades da vida.

Já sobreviveu, já amou, já perdeu, já recomeçou, já gerou vida.

Não precisa mais provar que é forte. Pode ser frágil sem vergonha. Pode ser vaso rachado sem fingir que está inteiro.

Paulo diz que trazemos um tesouro em vasos de barro (2Cor 4,7).

Vaso de barro é frágil, racha, quebra. E a pessoa idosa é, muitas vezes, um vaso rachado.

A fé não pede vasos inteiros. Pede vasos honestos, que deixam ver a rachadura, e que, justamente por ela, deixam passar a luz, como a luz que atravessa a fenda de uma janela ao entardecer.

A leveza está aí: não precisar mais ser inteiro, poder ser verdadeiro, poder dizer que se está cansado, que se está com saudade, que se está com medo, e, ao mesmo tempo, poder dizer que se está grato.

Grato por ter visto pais e tios partirem, sim, mas também por ter visto os netos chegarem.

Grato por ter visto a árvore dar fruto e o fruto dar semente.

Grato por ter chegado até aqui, quando tantos que se amou não chegaram.

Chegar ao topo da montanha não é um castigo. É um privilégio concedido a poucos, uma graça que se recebe de joelhos.

O sentido da permanência

Ao fim, fica uma pergunta. Não uma pergunta teórica.

Uma pergunta prática, íntima, quase uma oração sussurrada ao cair da tarde: qual é a história, qual é o valor, qual é o cuidado que se faz questão de transmitir para esses três netos?

Não um bem. Não um conselho genérico. Uma frase, um modo de ser, um cuidado.

Aquilo que, quando já não se estiver aqui em presença, vai continuar morando neles como memória viva.

Conversar sobre o que se deixa pode trazer muita leveza para esse momento, porque tira da ansiedade do fim e devolve ao sentido do presente: hoje, ainda se pode contar, hoje, ainda se pode abençoar, hoje, ainda se pode abraçar.

Ficar, na velhice, não é esperar passivamente pelo fim.

É ficar para testemunhar, ficar para contar, ficar para consolar, ficar para chorar, quando preciso, e para rir, quando possível, como quem aprendeu que a vida se tece de lágrimas e de risos, na mesma trama.

A verdade da travessia

E a quem está fazendo essa travessia agora, fica esta mensagem, dita com serenidade e com carinho, como uma carta deixada sobre a mesa: não é preciso ter pressa, não é preciso ser forte o tempo todo, não é preciso esconder a saudade, nem fingir que não dói.

É permitido cansar, é permitido chorar, é permitido sentir falta de quem partiu e, ao mesmo tempo, sentir gratidão por quem ficou.

A travessia não pede perfeição. Pede verdade.

Pede que se fique, um dia de cada vez, com o coração aberto para o que ainda pode ser contado, abraçado, perdoado e amado.

E se em algum dia o peso parecer grande demais, que se procure um coevo, um amigo, uma comunidade, uma oração, uma mão estendida.

Ninguém precisa atravessar sozinho.

Quem fica, mesmo rachado, mesmo cansado, mesmo com saudade, já está colhendo.

E já está, sem perceber, semeando, como quem lança ao vento a última semente e confia que a terra saberá o que fazer.

A promessa da manhã

O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã (Sl 30,5).

A noite não é negada. Ela é atravessada, passo a passo, como quem caminha no escuro guiado por uma pequena luz.

E a manhã não apaga a noite. Ela a transforma, como o sol que transforma o orvalho em brilho.

Quem aprende a ficar no topo, aprende também a herdar.

Herda o amor que não morreu com a perda. Herda a presença que se tornou memória. Herda a dor que se tornou sabedoria.

E descobre, em linguagem humana, o que a fé anuncia em linguagem de promessa: que Deus “enxugará dos seus olhos toda lágrima” (Ap 21,4).

Não porque a lágrima foi inútil, mas porque ela foi acolhida, guardada, transformada em memória pacificada.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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