
A realização de grandes eventos em áreas tombadas impõe um dilema constante entre a promoção da cultura e a salvaguarda da memória arquitetônica. A poucos dias da abertura do festival “#SouManaus Passo a Paço 2026”, programado para o período de 4 a 13 de setembro sob a temática “Origens, Águas e Manaus”, a Prefeitura de Manaus deu início às operações técnicas na região central da capital.
A ação é coordenada pelo Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), por meio da Gerência de Patrimônio Histórico (GPH), que estabeleceu um plano de acompanhamento preventivo nos locais que receberão os palcos, as feiras gastronômicas e as intervenções artísticas.
A articulação antecipada busca mitigar os impactos da sobrecarga de público no perímetro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A equipe técnica do Implurb realizou vistorias ao lado da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult) para definir os pontos de bloqueio viário necessários para o início da montagem das estruturas.
O trabalho envolveu orientações diretas aos comerciantes sobre normas de segurança, logística de abastecimento de mercadorias e faixas horárias para circulação de veículos de serviço antes do fechamento total dos acessos.
Estratégias de preservação
A intervenção prévia tenta equacionar os interesses econômicos locais com a rotina dos moradores e a proteção das edificações históricas. A arquiteta e urbanista Landa Bernardo, gerente da GPH, enfatizou a prioridade educativa da fiscalização municipal antes que o fluxo de visitantes tome o centro antigo.
“É um trabalho preventivo e de orientação, para que todos possam se preparar para o evento. O nosso objetivo é garantir a preservação do patrimônio e, ao mesmo tempo, contribuir para que comerciantes, moradores, trabalhadores e público tenham seus acessos e atividades organizados durante a programação”, declarou Landa Bernardo, gerente da GPH.
Para cobrir a extensão da área festiva entre 4 e 13 de setembro, o Implurb escalou 24 voluntários que atuarão em escala de revezamento. Essa equipe monitorará os espaços públicos para inibir atos de vandalismo, sobrecarga em estruturas antigas ou situações de risco aos frequentadores e aos imóveis centenários.
Diretrizes de proteção
As diretrizes operacionais estabelecidas pelo órgão municipal para o perímetro festivo abrangem ações específicas:
- Monitoramento ostensivo das fachada de prédios centenários e monumentos.
- Orientação sobre o limite de ruído e vibração nas proximidades de áreas sensíveis.
- Restrição de circulação e estacionamento de veículos pesados em vias de paralelepípedo.
- Fiscalização de acessos exclusivos para moradores e serviços de emergência.
- Agendamento obrigatório para o abastecimento de estabelecimentos comerciais antes dos bloqueios.
Memória tombada
O Centro Histórico de Manaus possui proteção federal concedida pelo Iphan desde 2012, abrangendo o trecho entre a orla do rio Negro e as imediações do Teatro Amazonas.
O conjunto arquitetônico preserva a memória da expansão urbana impulsionada pelo ciclo econômico da borracha, exigindo rigor no manejo de eventos que reúnem milhares de pessoas em vias estreitas e espaço urbano fragilizado.
A preservação desses elementos exige articulação contínua entre o Implurb e a superintendência do Iphan no Amazonas. A fiscalização preventiva tenta impedir acidentes com instalações elétricas temporárias, danos a praças e degradação de monumentos públicos.
Desafios e responsabilidade
A montagem do festival “#SouManaus Passo a Paço 2026” demonstra avanço na organização prévia da infraestrutura urbana. A escala de voluntários e os alertas aos comerciantes apontam para um esforço em evitar o caos logístico no centro antigo. Contudo, a efetividade dessa operação só poderá ser mensurada no decorrer dos dez dias de evento.
O uso contínuo do patrimônio histórico para festivais de massa traz riscos intrínsecos. O volume de resíduos, a pressão sobre calçadas antigas e o desgaste gerado por estruturas pesadas exigem mais do que orientações verbais.
É indispensável que a fiscalização atue com firmeza diante de eventuais descumprimentos de regras por parte de produtores e frequentadores. A capital amazonense precisa provar que consegue impulsionar sua economia criativa sem sacrificar os bens materiais que contam a história da região.
Fonte: ASCOM | Cláudia do Valle/ Implurb










