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Cardeal Robert Sarah defende missa em latim e critica decisão que atingiu Bento XVI

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O debate sobre a restauração e preservação das tradições litúrgicas ganhou um tom inflamado no Vaticano. O antigo prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cardeal Robert Sarah, concedeu declarações ao jornal italiano Il Giornale no dia 27 de agosto, lançando duras críticas às restrições impostas à celebração da missa em latim. A manifestação do religioso expõe as fissuras internas na Igreja Católica e contesta as decisões recentes do Papa Francisco em relação à herança do Papa Bento XVI.

Ataque à tradição

Para o clérigo guineense, a perseguição aos fiéis apegados às formas clássicas representa uma falha de julgamento da cúpula romana.

“Nós, como Igreja, não podemos declarar guerra àqueles que frequentam devotamente a missa simplesmente porque preferem uma forma em vez de outra; esta é uma postura míope e inteiramente ideológica e, portanto, nem pastoral nem cristã”, disse o cardeal Robert Sarah.

Ele reforçou a gravidade do cenário afirmando que a medida se revela “prejudicial e destrutiva para a Igreja.”

O rito antigo remonta ao pontificado do Papa Gregório Magno e a séculos anteriores, mantendo-se como padrão universal até o Concílio Vaticano II, ocorrido entre 1962 e 1965. Com as reformas conciliares, o formato tradicional acabou abandonado pela quase totalidade do clero.

Contudo, o arcebispo de Dacar, no Senegal, Marcel Lefebvre, recusou as mudanças e fundou a Sociedade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) para assegurar a permanência da missa em latim. A FSSPX acabou caindo em cisma em duas ocasiões, com registro mantido em 2026, e teve seus bispos excomungados.

O recuo papal

A flexibilização do veto começou em meados dos anos 1980 pela Santa Sé. O movimento atingiu o auge em 2007, quando o Papa Bento XVI promulgou o motu proprio “Summorum Pontificum”, autorizando os sacerdotes a celebrarem a liturgia antiga por considerar que o rito jamais fora extinto. Na ocasião, o pontífice categorizou a missa em latim como forma extraordinária e a celebração pós-conciliar como forma ordinária.

O cenário mudou em 2021, quando o Papa Francisco promulgou o decreto “Traditionis Custodes”, revogando as permissões de seu antecessor e impondo fortes restrições à celebração clássica. O cardeal Robert Sarah argumenta que o convívio das duas formas trazia equilíbrio às paróquias.

“Entre os efeitos da liberalização da forma extraordinária estava a influência positiva, eu diria até a correção, em relação a possíveis abusos na celebração da forma ordinária”, disse o cardeal Robert Sarah, ressaltando que eventuais excessos não devem ser associados à estrutura da missa em si.

O cardeal acrescentou que diversos padres relatam melhora no exercício do sacerdócio após descobrirem o rito antigo.

Tensões no Vaticano

O cardeal direcionou críticas ao desgaste provocado nas relações internas da Santa Sé durante os anos de aposentadoria de Bento XVI.

“Acho que Bento XVI também demonstrou naquela ocasião uma atitude profundamente humilde e democrática”, disse o cardeal Robert Sarah ao recordar a liberação feita em 2007.

“Ele queria garantir a mais ampla disseminação possível, para que o povo de Deus pudesse decidir por si mesmo, ao longo das décadas, qual forma de viver a fé melhor lhes convinha. Tudo isso, no entanto, foi anulado por Traditionis Custodes, enquanto o papa emérito ainda estava vivo”, pontuou o religioso.

A revogação do decreto gerou desconforto pela forma como atingiu o papa emérito.

“Isso não me pareceu uma decisão sensata ou respeitosa”, disse o cardeal Robert Sarah.

O clérigo declarou também que:

“Bento XVI, um homem tão gentil quanto um cordeiro, permitiu-se ser humilhado e assim offered seu sofrimento a Deus em silêncio e oração, para melhor se identificar com a dor de Cristo por sua Igreja e purificá-la.”

Liberdade de culto

O cardeal sustentou que medidas restritivas vindas de decretos pontifícios ferem a vitalidade da fé comunitária.

“O acesso a formas rituais que foram reconhecidas e existem há séculos nunca deve ser artificialmente restringido por meio de decretos. Se um rito não servisse à fé, desapareceria por si só; se, ao contrário, preserva e promove a fé, não devemos de forma alguma restringi-lo, pois ao fazê-lo estaríamos restringindo a própria preservação e disseminação da fé”, concluiu o cardeal Robert Sarah.

O conteúdo com os relatos do cardeal foi veiculado inicialmente pela ACI Digital, serviço em língua portuguesa da rede EWTN News, e traduzido para a divisão em inglês do grupo.

Desafios da unidade

As declarações de Robert Sarah deixam evidente que a disputa litúrgica na Igreja Católica está distante de um consenso. Se por um lado a gestão de Francisco busca consolidar a unidade do rito ordinário e evitar dispersões doutrinárias, por outro lado a ala conservadora enxerga na proibição uma sobrecarga ideológica e um desrespeito à história secular da instituição.

O desgaste gerado pelas restrições demonstra que a tentativa de silenciar a missa tradicional acabou por amplificar as vozes dissonantes dentro da própria hierarquia romana.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/cardeal-sarah-condena-guerra-da-igreja-contra-fieis-da-missa-tradicional/

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