Moisaniel Filho Oscar Gomes e as histórias de uma Tabatinga que ficou na memória

Oscar Gomes e as histórias de uma Tabatinga que ficou na memória

Por Moisaniel Filho (*)

Olá meus amigos e minha amigas!

Vamos partir para mais uma aventura, através de “Memórias em AM e FM” — Fragmentos de uma vida contada pelas ondas do rádio.

Há pessoas que passam por uma cidade exercendo um cargo. Outras acabam se transformando em personagens dela.

Oscar Gomes da Silva pertenceu a essa segunda categoria.

Baixo, calvo, pele clara, um pouco gordo e dono de uma personalidade que dificilmente passava despercebida, Oscar entrou para as minhas lembranças de Tabatinga não apenas pela vida pública, mas principalmente pelas histórias que ficaram em torno dele.

E eram muitas.

Algumas eu acompanhei mais de perto. Outras chegaram a mim pela narrativa de quem conviveu com ele. Com o passar dos anos, realidade, memória e o exagero próprio dos bons causos foram se misturando.

E talvez esteja justamente aí a graça.

Tabatinga de outros tempos

Estamos falando de uma Tabatinga muito diferente daquela que conhecemos hoje.

1985, a infraestrutura era precária. As ruas sofriam com lama, buracos e dificuldades de toda ordem. Na época das chuvas, determinadas áreas se transformavam num verdadeiro desafio para carros, motos e pedestres.

Administrar uma cidade amazônica naquele período significava enfrentar problemas para os quais nem sempre havia dinheiro, equipamentos ou soluções disponíveis.

Oscar, porém, tinha uma característica particular: diante de um problema, sempre parecia encontrar uma explicação — ou uma saída.

E algumas dessas saídas produziram histórias inesquecíveis.

Planta do município

Uma das histórias mais saborosas atribuídas a Oscar teria acontecido em razão de uma solicitação vinda de Brasília.

O Ministério do Planejamento teria pedido a planta do município.

Para qualquer técnico, tratava-se evidentemente de uma planta, um mapa ou documento técnico representando o município.

Mas, segundo o causo que corria, Oscar teria entendido a palavra em seu sentido mais literal.

Planta?

Pois planta era planta.

E lá teria ido Oscar para Brasília levando uma muda verde, cuidadosamente plantada dentro de uma lata de leite.

Ao chegar diante do funcionário que esperava receber a documentação, apresentou orgulhosamente sua encomenda.

O homem, de terno, teria olhado para aquela muda com absoluto espanto:

— Um pé de jambo?!?

Oscar, naturalmente, estava apenas entregando a “planta” que haviam solicitado.

É difícil saber, tantos anos depois, onde termina o acontecimento e onde começa a criatividade popular. Mas a história sobreviveu justamente porque combinava perfeitamente com a personalidade que as pessoas atribuíam a Oscar.

Lei da gravidade

Outra passagem envolveu a COSAMA e um problema relacionado ao abastecimento de água.

Oscar estava acompanhado do vereador conhecido como Paraíba — homem de aproximadamente 60 anos, muito branco, magro, cabelos castanho-claros e sardas no rosto — quando foram verificar a situação junto com um funcionário da companhia.

O trabalhador da COSAMA, meio gordo e vestido com seu macacão azul, procurava explicar tecnicamente por que não seria possível captar água de determinado morrote.

A explicação veio:

— Não dá pra captar água do morrote por razão da lei da gravidade.

Oscar ouviu aquilo.

Lei?

Se o problema era uma lei, então aquilo entrava num campo que, na lógica dele, poderia ser resolvido politicamente.

E respondeu:

— O presidente da Câmara está aqui para resolver sobre lei.

Paraíba percebeu imediatamente a dimensão da confusão. Assustado, tratou de advertir:

— Camarada, essa lei deve ser federal.

E estava criada mais uma pérola.

A lei em questão, evidentemente, não dependia da Câmara Municipal, do Congresso Nacional nem de qualquer autoridade.

Era a velha e implacável lei da gravidade.

Mas, na memória popular, Oscar quase conseguiu transformá-la em matéria legislativa.

Buracos, motoristas e “os detrito”

Outro episódio aconteceu durante uma reunião realizada em um clube para discutir as reivindicações de motoristas e mototaxistas.

Havia uma mesa de honra. Oscar estava ao centro. Também participavam a vice-prefeita, um secretário e eu.

O ambiente começou a esquentar quando um motorista se levantou e reclamou:

— A cidade está cheia de buracos!

Era uma reivindicação bastante objetiva.

O problema foi a reação do secretário.

Contrariado com as críticas, ele elevou a voz e, no calor da discussão, soltou uma frase que acabou roubando a cena:

— Vocês fala do que não sabe. É por isso que gera os detrito!

Por alguns instantes, aquilo pareceu pairar sobre o salão.

Buracos.

Críticas.

Detritos.

Até que alguém, lá no meio da plateia, aproveitou a deixa:

— É, a cidade está cheia de detritos.

Pronto.

A discussão ganhou outro rumo.

Não sei se naquele dia conseguimos resolver todos os problemas dos motoristas e mototaxistas. Mas uma coisa é certa: aquela frase sobreviveu à reunião.

O administrador e suas soluções

Essas histórias ajudam a compreender também o ambiente político e administrativo daquele período.

Governar uma cidade como Tabatinga significava improvisar.

Quando faltava estrutura, buscava-se uma alternativa. Quando a estrada não ajudava, tentava-se torná-la transitável. Quando aparecia um problema aparentemente insolúvel, alguém inventava uma solução.

Às vezes funcionava.

Às vezes não.

E, algumas vezes, a solução era tão extraordinária quanto o próprio problema.

Oscar acabou se tornando personagem perfeito daquele tempo porque carregava consigo essa mistura de autoridade, simplicidade, improvisação e uma lógica muito particular.

Era capaz de discutir administração, estrada, abastecimento de água, legislação e política com a mesma segurança.

Se o problema era uma lei, chamava-se o presidente da Câmara.

Se Brasília pedia uma planta, levava-se uma planta.

E se apareciam os “detrito”, bem… aquilo já era assunto para uma reunião inteira.

Quando a memória transforma pessoas em personagens

Ao escrever estas lembranças, não pretendo transformar cada causo em documento histórico nem assegurar que cada palavra tenha sido pronunciada exatamente da maneira como chegou até nós.

Histórias transmitidas oralmente ganham cores.

As pessoas acrescentam detalhes, retiram outros, exageram uma expressão e aperfeiçoam uma resposta.

É assim que nascem os personagens populares.

Oscar foi um deles.

O que permanece importante é aquilo que essas histórias revelam sobre uma época e sobre a maneira como nós vivíamos naquela Tabatinga.

Uma cidade distante dos grandes centros, cheia de dificuldades, mas também povoada por figuras extraordinárias.

Hoje podemos rir da “lei da gravidade”, dos “detrito” ou da muda carregada numa lata de leite até Brasília.

Mas, por trás do riso, existe memória.

Existe uma cidade.

Existem pessoas que fizeram parte dela.

E existe um tempo que não volta mais.

Talvez por isso eu goste tanto de recuperar estas histórias.

Porque memória não é apenas lembrar o que aconteceu.

É trazer de volta, ainda que por alguns minutos, as vozes, os lugares, os personagens e até as gargalhadas que um dia fizeram parte da nossa vida.

E Oscar Gomes da Silva, com suas histórias, certamente conquistou um lugar nesse meu dial imaginário.

Um dial onde passado e presente continuam se encontrando.

Meus amigos, minhas amigas!

Ficamos por aqui com mais um fragmento das nossas “Memórias em AM e FM”, relembrando personagens e acontecimentos de uma Amazônia que tive o privilégio de conhecer através do rádio, da política, das viagens e, sobretudo, das pessoas.

No próximo encontro, outras lembranças certamente voltarão a ocupar esta frequência.

Até lá, acompanhe nossas histórias pelo portal O Povo Amazonense. E, se esta memória também lhe trouxe alguma lembrança, compartilhe, comente e participe.

Porque uma história contada pode até pertencer a alguém.

Mas, quando é compartilhada, passa a fazer parte da memória de todos.

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

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