
Por Juscelino Taketomi
No Amazonas, dificuldade para memorizar o número dos candidatos pode transformar intenção de voto em voto nulo e exige das campanhas uma comunicação muito mais simples e repetitiva.
Há um problema eleitoral que pode estar passando despercebido pelas campanhas no Amazonas: o eleitor pode saber perfeitamente em quem pretende votar e, ainda assim, não conseguir transformar essa preferência em voto válido porque não consegue lembrar o número do candidato na hora de apertar a tecla da urna eletrônica.
A questão ganhou dimensão nacional depois que uma pesquisa do Datafolha, citada pelo jornalista José Roberto de Toledo, mostrou que uma parcela dos eleitores não consegue informar corretamente o número do candidato em que pretende votar.
O dado levanta uma questão particularmente relevante para o Amazonas: qual é o tamanho desse problema num Estado marcado por profundas desigualdades educacionais, grande extensão territorial e dificuldades de acesso à informação em parte de sua população?
Não se trata de dizer que o eleitor amazonense não sabe votar. Tampouco de confundir analfabetismo absoluto com analfabetismo funcional. O ponto é outro: quanto mais difícil for para o eleitor ler, interpretar, memorizar e reproduzir uma sequência numérica, maior pode ser a dificuldade de converter uma preferência política em um voto corretamente digitado.
Analfabetismo funcional
O Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) 2024 mostra que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos se encontram na condição de analfabetos funcionais.
O indicador considera dificuldades em tarefas cotidianas que envolvem leitura, escrita e matemática. É uma fotografia nacional, não um retrato específico do Amazonas, e por isso mesmo abre uma questão que merece ser investigada no Estado.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por sua vez, registrou taxa de analfabetismo absoluto de 4,8% entre a população amazonense de 15 anos ou mais em 2024. O número também não mede alfabetismo funcional, mas ajuda a dimensionar que ainda existe no Estado uma parcela da população que sequer domina a leitura e a escrita.
Distância que pesa
No Amazonas, a discussão geográfica ganha uma característica que não pode ser ignorada.
São 62 municípios, incluindo Manaus, espalhados por um território gigantesco, com comunidades rurais, ribeirinhas e localidades cujo acesso à informação política pode ser muito diferente daquele existente nos bairros mais conectados da capital.
Nas eleições de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) anunciou a instalação de 420 antenas para transmissão via satélite em locais de votação considerados de difícil acesso. A própria necessidade dessa estrutura expõe o desafio logístico de levar a operação eleitoral a todas as regiões do Estado.
Se chegar até a urna é um desafio logístico em determinadas regiões, chegar até o eleitor com uma mensagem eleitoral clara, simples e repetida também deveria ser uma preocupação estratégica das campanhas.
Observe-se aqui uma questão que os candidatos à Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM), sobretudo os menos conhecidos, talvez precisem relevar com mais atenção.
Não basta apresentar o candidato. É preciso fixar o número. Uma campanha pode apresentar propostas, fazer reuniões, produzir vídeos, distribuir material e realizar caminhadas. Mas, se o eleitor não guardar o número, todo esse esforço pode encontrar um obstáculo sério no momento decisivo.
Para deputado estadual, a situação pode ser ainda mais delicada diante da quantidade de candidatos disputando as vagas da “ALEAM”.
O eleitor pode conhecer o rosto, reconhecer o nome, gostar das propostas e até declarar sua intenção de voto. Mas, diante da urna, precisará transformar aquela escolha em uma sequência numérica. E, então, a comunicação eleitoral deixa de ser apenas persuasão e passa a ser também memorização.

WhatsApp e a “cartilha do número”
Entendemos que as campanhas amazonenses poderiam explorar melhor uma ferramenta que já faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros: o WhatsApp.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mantém um canal oficial no aplicativo para divulgar informações eleitorais, orientações e conteúdos verificados, enfatizando a força da plataforma como instrumento de comunicação direta com o eleitor.
Para as campanhas, o desafio seria transformar o número do candidato em uma informação visual e verbal de fácil retenção. Em vez de depender exclusivamente de textos longos, uma campanha poderia trabalhar peças extremamente simples: nome do candidato + foto + número, em letras grandes; áudios curtos repetindo o número; vídeos de poucos segundos mostrando a sequência numérica; cards preparados para compartilhamento em grupos e mensagens destinadas às redes de apoiadores para que a informação seja repetida ao longo da campanha.
A lógica dessa eficiente ação digital é elementar: se o problema é lembrar, a comunicação precisa ser construída para facilitar a lembrança.
Não basta bombardear o eleitor com propaganda chata, modorrenta e indiscriminadamente. Vale mais compreender que, numa eleição proporcional, o número é parte essencial da identidade eleitoral do candidato.

Campanha na urna antes do eleitor
Imagine um eleitor de um bairro da periferia de Manaus que tenha escolhido determinado candidato há semanas. Ele sabe o nome, conhece o rosto e pretende votar nele. Mas não lembra se o número termina em 25, 52 ou 55.
Outro eleitor pode conhecer perfeitamente o candidato de sua preferência, mas ter dificuldade para reproduzir uma sequência de cinco dígitos. São situações hipotéticas, mas ajudam a compreender a dimensão do problema.
Existe ainda um aspecto social importante: não se deve tratar essas dificuldades com preconceito ou constrangimento.
A comunicação eleitoral precisa considerar que diferentes eleitores têm diferentes níveis de escolaridade, diferentes hábitos de consumo de informação e diferentes capacidades de retenção de números e textos.
Uma campanha que compreende isso pode produzir uma comunicação mais acessível para todos, inclusive para quem não enfrenta nenhuma dificuldade de leitura.
Número melhor que propaganda
O sistema eleitoral brasileiro exige que o eleitor digite o número correspondente ao candidato escolhido. Para deputado estadual, a votação é proporcional, e as cadeiras são distribuídas entre partidos e federações conforme a votação obtida, sendo preenchidas pelos candidatos mais votados dentro das respectivas legendas.
Isso torna especialmente importante a capacidade de cada candidatura de transformar reconhecimento em voto efetivamente válido.
Uma preferência que não chega corretamente à urna não produz o mesmo resultado que uma preferência convertida em voto válido.
Desse modo, a discussão sobre o conhecimento dos números não deveria ser tratada apenas como uma curiosidade das pesquisas eleitorais. É uma questão de comunicação política, de acessibilidade da informação e de funcionamento efetivo da escolha do eleitor.
Quantos eleitores amazonenses sabem hoje o número do candidato em quem pretendem votar? A resposta talvez surpreenda e seria ainda mais importante saber quantos sabem o nome e o número, quantos sabem apenas o nome e quantos ainda não conseguem associar o candidato à sequência numérica que precisarão digitar na urna.
Essa é uma pesquisa que as próprias campanhas poderiam fazer internamente. A poucos dias da eleição, talvez não seja suficiente indagar se o eleitor conhece seu candidato, mas se esse eleitor sabe o número dele.
No Amazonas, onde a campanha eleitoral precisa atravessar bairros densamente povoados de Manaus, municípios do interior e comunidades de acesso complexo, essa diferença pode ser particularmente relevante.
A preferência política precisa sobreviver até o último momento da votação. E, na urna eletrônica, ela passa fundamentalmente pelo número.










