
O Paraguai viveu uma reviravolta política expressiva nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026. O vice-presidente Pedro Alliana, de 52 anos, assumiu o comando do país após o Senado aprovar por unanimidade o impeachment do presidente Santiago Peña. A queda do governante ocorreu em meio à crise política e financeira provocada pela quebra do banco digital Ueno Bank.
Integrante do Partido Colorado e próximo do ex-presidente Horacio Cartes, Pedro Alliana acumula uma longa trajetória política, com passagens pelo governo estadual, pela Câmara dos Deputados e pela direção da legenda que está no poder no Paraguai desde 2013.
Assim como Santiago Peña, Pedro Alliana também foi alvo de um pedido de impeachment apresentado pela oposição no Parlamento, que o acusou de omissão diante das irregularidades envolvendo a instituição financeira. No entanto, a Câmara dos Deputados rejeitou a acusação contra o vice por 48 votos a 30, abrindo caminho para sua posse na Presidência. Pela Constituição paraguaia, ele deve completar o mandato de Peña, previsto para terminar em 15 de agosto de 2028, sem a necessidade de convocar novas eleições presidenciais.
Queda de Santiago Peña
Santiago Peña se tornou o segundo presidente eleito democraticamente a ser destituído por julgamento político no Paraguai desde a redemocratização em 1989. Poucas horas após perder o cargo no Senado por 44 votos a zero, o agora ex-presidente começou a cumprir prisão domiciliar nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026. A detenção foi determinada pelo Ministério Público (MP) no âmbito da investigação criminal sobre suspeitas de irregularidades no Ueno Bank.
A Polícia Nacional confirmou a presença de agentes na residência de Peña para cumprir a ordem da Procuradoria. O ex-presidente deve permanecer retido até se apresentar perante a equipe de promotores neste sábado, 7/11.
As ordens de detenção foram expedidas por quatro integrantes da equipe responsável pelo caso.
- Christian Manuel Benítez Cáceres
- Elena Fiore Franco
- Silvia Margarita González Vester
- Ruth Karina Benítez
O processo criminal investiga suspeitas de lesão de confiança e outros possíveis delitos ligados ao colapso bancário.
Processos e prisões
O ex-mandatário já enfrentava apurações antes mesmo da destituição. Na quinta-feira, 5/11, o procurador-geral do Paraguai, Emiliano Rolón Fernández, havia determinado a abertura de três processos contra Santiago Peña para apurar suspeitas de irregularidades no Ueno Bank e a aplicação de recursos públicos na instituição. As investigações buscam esclarecer a fiscalização sobre o banco, que recebeu centenas de milhões de dólares de órgãos estatais durante a gestão de Peña, incluindo verbas do Instituto de Previdência Social (IPS).
O ex-presidente manteve participação acionária em uma empresa do Grupo Vázquez, conglomerado responsável pelo Ueno Bank, até março de 2025, mas nega interferência na fiscalização ou envolvimento em atos ilícitos.
O Ministério Público (MP) também ordenou a prisão do ex-presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, que renunciou ao cargo na terça-feira, 3 de novembro de 2026, após a intervenção na instituição. Denúncias questionam se a autoridade monetária adotou as medidas necessárias diante dos problemas operacionais. Nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026, promotores estiveram na sede do Banco Central para recolher documentos. A crise provocou ainda a prisão preventiva de antigos dirigentes da instituição, incluindo seu fundador, Miguel Vázquez, e gerou manifestações populares nas ruas.
Com o impeachment, Santiago Peña perdeu a chance de se tornar senador vitalício, prerrogativa concedida pela Constituição a ex-presidentes eleitos não destituídos, e ficou sem imunidade.
Trajetória de Alliana
Nascido em 19 de fevereiro de 1974, na cidade de Pilar, departamento de Ñeembucú, no sul do país, Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez é conhecido pelo apelido de Mangui. Trabalhou no comércio, integrou a seleção paraguaia de basquete em 1991 e formou-se em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma San Sebastián.
Sua entrada na política ocorreu em um ambiente familiar ligado à oposição. Seus pais foram vereadores departamentais pelo Partido Encuentro Nacional (PEN), legenda que surgiu como alternativa à hegemonia colorada no Paraguai. Em 2000, ingressou no Partido Colorado. Disputou a prefeitura de Pilar em 2006, mas foi derrotado. Em 2008, aos 33 anos, elegeu-se governador de Ñeembucú, permanecendo no posto até 2013, ano em que conquistou um mandato na Câmara dos Deputados, sendo reeleito em 2018 e presidindo a Casa em diferentes períodos entre 2019 e 2022.
Aliança com Cartes
Foi no Parlamento que Alliana consolidou sua aproximação com Horacio Cartes, presidente do Paraguai entre 2013 e 2018 e líder do movimento Honor Colorado. Com o apoio de Cartes, assumiu em 2016 a presidência da Associação Nacional Republicana (ANR), nome oficial do Partido Colorado, permanecendo no comando da legenda até janeiro de 2023, quando foi sucedido por Cartes. Naquele mesmo ano, compôs a chapa vitoriosa com Santiago Peña.
Integrante da ala mais conservadora do partido, defende pautas de proteção à família. Em 2023, como vice-presidente, opôs-se a um acordo de cooperação educacional com a União Europeia (UE) para evitar debates sobre ideologia de gênero nas escolas. Na economia, defende investimentos privados, redução da burocracia e impostos baixos, promessa reafirmada a empresários brasileiros em setembro de 2023 e mantida em novembro deste ano.
A relação com Cartes enfrentou sobressaltos. Em abril deste ano, Alliana anunciou sua pré-candidatura à Presidência para 2028. Em 13 de outubro de 2026, Cartes comunicou que apoiaria o ministro Juan Carlos Baruja. Alliana criticou o descumprimento de acordos e admitiu disputar fora do grupo, afirmando que exerceria a gestão com autonomia. No entanto, em 2 de novembro de 2026, Alliana pausou a pré-candidatura devido à crise do Ueno Bank e, em 5 de novembro de 2026, reuniu-se com Cartes na sede do partido em Assunção, selando a reaproximação.
Polêmicas e diplomacia
Sua carreira traz controvérsias, como a nomeação de sua filha Montserrat, em setembro de 2023, para o cargo de assessora na Câmara dos Deputados. Revelado em janeiro de 2024 pelo jornal ABC Color, o caso mostrou que ela tinha 25 anos, não concluíra o ensino superior e recebia 18,27 milhões de guaranis (aproximadamente R$ 16 mil) mensais por escolha do presidente da Casa, Raúl Latorre. Alliana negou nepotismo alegando tratar-se de cargo de confiança. A Justiça arquivou o processo em julho de 2024 por falta de provas.
Casado com a deputada Fabiana María Souto e pai de quatro filhos, Alliana também atuou na política externa. Em julho deste ano, exercendo interinamente a Presidência, criticou declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864 a 1870).
“As declarações foram inoportunas e atingiram profundamente o sentimento nacional dos paraguaios”, declarou Pedro Alliana ao classificar o conflito histórico como um genocídio contra a população de seu país.
Na ocasião, participou com o chanceler Rubén Ramírez Lezcano da entrega de uma nota de protesto ao embaixador brasileiro em Assunção, acusando o presidente brasileiro de distorcer fatos e solicitando a devolução dos canhões Cristiano e Presidente López, além de documentos mantidos pelo Brasil.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/pena-preso-paraguai-apos-impeachment/










