
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como midterms e realizadas nesta terça-feira, 3/11, trouxeram um recado claro da população sobre os rumos da política americana. O resultado final funcionou como um verdadeiro termômetro da insatisfação popular, resultando em uma derrota expressiva para o Partido Republicano e garantindo à oposição democrata o controle das duas casas do Congresso americano.
A virada histórica ocorreu inclusive em territórios considerados verdadeiros bastiões conservadores da legenda do presidente Donald Trump.
De acordo com um levantamento detalhado divulgado pela agência Associated Press, na disputa para a Câmara dos Representantes, os democratas conseguiram virar mais de 20 cadeiras.
O dado que chama mais atenção é que parte dessas vagas representava distritos eleitorais onde Donald Trump havia conquistado vitórias confortáveis, com margens de dois dígitos, na eleição presidencial de 2024.
Viradas em redutos conservadores
O impacto das urnas foi ainda mais profundo no Senado, onde a oposição democrata garantiu a virada em sete estados. O feito ganha relevância pelo fato de cinco desses locais serem tradicionais redutos onde os republicanos costumam vencer as eleições presidenciais com facilidade, sendo eles Iowa, Ohio, Kansas, Carolina do Sul e Texas.
No estado do Texas, o atual governador republicano Greg Abbott, que buscava a reeleição, acabou derrotado pela candidata democrata Gina Hinojosa.
O resultado encerrou uma hegemonia histórica, já que os republicanos venciam todas as disputas para o Poder Executivo texano desde 1994.
Já na corrida para o Senado no mesmo estado, James Talarico superou o republicano Ken Paxton, tornando-se o primeiro democrata a vencer uma vaga para a câmara alta do Congresso pelo Texas desde 1988.
Em solo agrícola no Kansas, a quebra de tabu foi ainda maior. O democrata Adam Hamilton venceu o candidato republicano à reeleição Roger Marshall. Essa vitória representou a primeira eleição de um democrata para o Senado dos Estados Unidos representando o estado do Kansas desde o ano de 1932.
Recados internos e críticas
As repercussões no ambiente político interno do Partido Republicano vieram de forma rápida e dura. Na rede social X, a ex-deputada republicana Marjorie Taylor Greene, que no passado figurou como uma das maiores apoiadoras de Donald Trump na Câmara mas rompeu com o presidente, defendeu uma revisão profunda nas diretrizes da legenda após o resultado das urnas.
“Esta noite foi um verdadeiro referendo sobre Trump. Ele pediu às pessoas que votassem como se ele próprio estivesse na cédula, e foi exatamente o que fizeram. Mas são os demais republicanos que precisam aprender a lição e mudar drasticamente de rumo. E não tenho certeza se eles são capazes disso”, afirmou a ex-deputada Marjorie Taylor Greene.
Reações de Donald Trump
Diante da perda de maioria no Congresso para a oposição, o presidente Donald Trump demonstrou reações ambíguas e buscou afastar a responsabilidade de seus ombros. Em entrevista concedida ao jornal The New York Times, o mandatário declarou estar disposto a aceitar o veredito popular e a dialogar com os adversários políticos.
“Esperamos poder trabalhar com eles. Provavelmente chegaremos a algum acordo”, declarou o presidente Donald Trump ao comentar as negociações sobre a tramitação de propostas no Congresso.
Entretanto, as publicações feitas por Donald Trump na rede social Truth Social adotaram um tom bem diferente. O presidente postou a imagem de um boné vermelho estampado com a palavra “VETO”, sugerindo que pretende barrar qualquer projeto aprovado pela maioria democrata que desagrade ao seu governo. Em outras mensagens, o chefe do Executivo culpou colegas do próprio Partido Republicano pelo desempenho ruim.
“Eu não estava na cédula eleitoral e, se estivesse, teríamos vencido COM UMA VITÓRIA ESMAGADORA!”, escreveu o presidente.
Ele também afirmou que pretende se tornar um comentarista político para analisar os acertos e erros dos candidatos que venceram ou perderam nas urnas.
Ameaça de novos vetos
As críticas de Donald Trump atingiram alvos específicos dentro de seu próprio grupo e na imprensa conservadora. O presidente ironizou a derrota de Greg Abbott no governo do Texas, afirmando que o aliado se afastou de suas bases nos momentos finais da campanha.
“Se Greg Abbott, o governador do Texas, não tivesse se tornado um RINO nos últimos seis meses da sua vida política, ele não teria perdido. Ele voltou à sua fórmula original, e o resultado não foi nada bonito!”, disparou Donald Trump ao usar a sigla em inglês para a expressão ‘republicano apenas no nome’.
Além disso, o mandatário responsabilizou a emissora conservadora Fox News por ter concedido espaço em sua programação para entrevistas com nomes da oposição, citando o ex-prefeito democrata de Nova York, Bill de Blasio, qualificado por Trump como o pior prefeito da história da cidade. Segundo o presidente americano, a emissora tem responsabilidade direta pelas derrotas ao dar espaço constante e consistente para a oposição democrata.










