Especiais ZFM pode liderar industrialização de terras raras no Brasil

ZFM pode liderar industrialização de terras raras no Brasil

Projeto de R$ 400 milhões prevê instalação, até 2030, do primeiro polo de processamento de terras raras do País em Manaus e abre perspectivas para diversificação da matriz industrial amazonense, atração de investimentos e fortalecimento da economia de alta tecnologia

Foto: Gerada por IA

A Zona Franca de Manaus poderá assumir um protagonismo estratégico em uma das mais importantes cadeias industriais e tecnológicas do século XXI: a exploração, o beneficiamento e a industrialização de terras raras.

Um projeto em estudo pela empresa BBX do Brasil, subsidiária da australiana Brazilian Critical Minerals, prevê investimentos iniciais estimados em R$ 400 milhões para implantação, até 2030, de uma unidade de processamento desses minerais em Manaus.

A iniciativa poderá transformar o Amazonas no primeiro grande centro brasileiro de industrialização de terras raras, agregando valor a uma riqueza mineral cada vez mais disputada pelas principais economias do mundo.

O empreendimento está diretamente relacionado às reservas identificadas em Apuí, no sul do Amazonas, onde a empresa pretende iniciar a exploração mineral em 2027, após a obtenção das autorizações ambientais e regulatórias necessárias.

A proposta é que a matéria-prima extraída inicialmente seja submetida a etapas de concentração e posteriormente encaminhada para processamento industrial na capital amazonense.

A instalação da futura planta na Zona Franca representa, portanto, uma oportunidade de integrar a riqueza mineral do interior do Estado à estrutura industrial, logística e tecnológica de Manaus.

Industrialização e agregação de valor

O aspecto mais relevante do projeto está na possibilidade de superar um modelo econômico baseado predominantemente na extração e exportação de recursos naturais. Em vez de simplesmente comercializar a matéria-prima, o Amazonas poderá participar das etapas industriais que transformam os minerais em insumos estratégicos para a fabricação de produtos de elevado valor agregado.

A futura unidade deverá utilizar tecnologias avançadas de separação e purificação, incluindo processos de extração por solventes, capazes de transformar os concentrados minerais em materiais destinados a diferentes segmentos industriais.

Segundo o diretor técnico da BBX, Antônio de Castro, a estrutura poderá receber também matérias-primas provenientes de outros projetos brasileiros, ampliando a capacidade de Manaus para se consolidar como um centro nacional de processamento de terras raras.

É nesse cenário que a Zona Franca de Manaus ganha importância. Sua infraestrutura industrial, experiência acumulada na fabricação de produtos eletroeletrônicos e presença de empresas de tecnologia oferecem condições favoráveis para aproximar a cadeia mineral de segmentos industriais que dependem desses elementos.

A disponibilidade de terras raras processadas em Manaus poderá funcionar como fator de atração de novos empreendimentos, especialmente fabricantes de componentes para motores elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia, automação industrial e outras aplicações tecnológicas.

Trata-se de uma perspectiva que poderá ampliar a diversificação econômica da Zona Franca, criando novas oportunidades de integração entre a indústria já instalada e setores emergentes da economia mundial.

Rumo ao futuro

As terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos fundamentais para diversas tecnologias modernas. São utilizadas na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, celulares, computadores, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.

Embora não sejam necessariamente escassas na natureza, sua separação e purificação exigem conhecimentos técnicos, equipamentos especializados e processos industriais complexos. Por isso, o domínio dessas etapas representa uma vantagem econômica e geopolítica para os países que pretendem ampliar sua participação nas cadeias globais de tecnologia.

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas ainda não dispõe de refinarias em escala industrial para desenvolver plenamente essa cadeia produtiva. A implantação de uma unidade em Manaus poderá representar um passo importante para modificar esse cenário, permitindo que o País avance da condição de fornecedor de matérias-primas para a de produtor de insumos industriais estratégicos.

A importância desse movimento também está relacionada à nova política brasileira para minerais críticos e estratégicos. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos prevê instrumentos de incentivo ao beneficiamento, à transformação mineral e à mineração urbana, incluindo créditos fiscais de até 20% de CSLL para atividades contempladas.

As terras raras também foram incorporadas ao programa, enquanto o Fundo Garantidor da Atividade Mineral poderá contar com aportes de até R$ 2 bilhões da União.

A classificação de nove minerais como prioritários pelo governo federal, entre eles terras raras, lítio, cobre, urânio, grafita, níquel, cobalto, manganês e silício, reforça a intenção de ampliar a participação brasileira em setores considerados fundamentais para a segurança econômica, energética e tecnológica.

Nesse contexto, a instalação de um polo de processamento na Zona Franca poderá colocar o Amazonas em posição privilegiada diante da crescente disputa internacional por matérias-primas essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia.

Novo ciclo de desenvolvimento

Além dos investimentos previstos, o empreendimento poderá gerar entre 60 e 80 empregos diretos e aproximadamente 300 indiretos. Embora se trate de uma operação altamente tecnológica e automatizada, a natureza das atividades deverá exigir profissionais qualificados em engenharia, química, processos industriais, automação e controle de qualidade.

O projeto também poderá estimular a formação de fornecedores locais, serviços especializados, pesquisa científica e parcerias com instituições de ensino e centros de desenvolvimento tecnológico.

Outro aspecto importante é a possibilidade de integração logística entre Apuí, Porto Velho e Manaus, utilizando diferentes alternativas de transporte para o deslocamento dos concentrados minerais. A empresa estuda ainda possibilidades envolvendo Novo Aripuanã e a recuperação da BR-319, dependendo das condições de infraestrutura e viabilidade operacional.

Para avançar, a BBX prepara interlocuções com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e com o governo do Amazonas. O projeto de exploração em Apuí aguarda licença ambiental do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), além da autorização correspondente da Agência Nacional de Mineração (ANM).

A concretização do empreendimento poderá representar muito mais do que a instalação de uma nova unidade industrial. Poderá abrir caminho para uma nova etapa de desenvolvimento econômico do Amazonas, aproveitando a capacidade instalada da Zona Franca para incorporar uma cadeia produtiva estratégica, estimular a inovação e ampliar a presença da indústria amazonense em mercados internacionais de alto valor agregado.

O desafio será transformar o potencial mineral do Estado em conhecimento, tecnologia, empregos qualificados e desenvolvimento industrial.

Se conseguir articular suas vantagens industriais com a exploração responsável dos recursos minerais e os incentivos da política nacional para minerais estratégicos, a Zona Franca de Manaus poderá conquistar um novo espaço na economia brasileira: o de protagonista na industrialização de matérias-primas essenciais para as tecnologias do futuro.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.