Cultura Espetáculo inédito “Matrioska” transforma vivência transmasculina em dança e teatro no Amazonas

Espetáculo inédito “Matrioska” transforma vivência transmasculina em dança e teatro no Amazonas

Foto: Divulgação/ ASCOM

Embora a visibilidade de pessoas trans tenha crescido nos últimos anos, as narrativas transmasculinas ainda permanecem pouco representadas na cena artística amazonense. É desse contexto que nasce “Matrioska”, novo espetáculo da Companhia Transversal de Artes Integradas, que estreia no dia 15 de agosto, no Teatro da Instalação, em Manaus, com entrada gratuita.

Criado e interpretado por Daniel Esteves, com direção compartilhada entre o artista e a diretora Nicka, o monólogo transforma a experiência autobiográfica em uma investigação sobre as múltiplas camadas que constituem um corpo transmasculino. A dança surge não apenas como coreografia, mas como movimento e pulsão do corpo que conta uma história de forma sensorial.

O projeto foi contemplado pelo “Edital de Chamamento Público nº 08/2024 – Fomento à Execução de Ações Culturais do Segmento Trans”, integrando o primeiro ciclo de editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), realizado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC).

Simbolismo e arte

O nome do espetáculo faz referência à tradicional boneca russa formada por diversas peças encaixadas umas dentro das outras, em cuja lenda a última peça representa um menino. Na obra, essa imagem torna-se metáfora das diferentes camadas que compõem a construção da identidade e do processo de transição, revelando um corpo que se descobre, se transforma e ressignifica a própria história.

“Essa criação surge a partir da necessidade de fazer presentes narrativas transmasculinas, entendendo a arte como um espaço de possibilidade para corpos historicamente invisibilizados. Durante o processo, fui percebendo que a transfobia atravessa o cotidiano nos mínimos detalhes, desde uma consulta médica até as relações mais simples. O espetáculo nasce justamente desse mapeamento do meu próprio corpo e das inquietações que me acompanham”, declara o artista Daniel Esteves.

Múltiplas camadas em cena

Embora tenha origem em uma experiência autobiográfica, “Matrioska” ultrapassa o relato individual para dialogar com questões coletivas relacionadas à identidade, pertencimento e masculinidades. Dançarino e pesquisador do corpo, Daniel Esteves busca compreender o que move esse corpo e quais narrativas emergem desse processo de criação.

Para a co-diretora Nicka, a montagem parte do entendimento de que todo corpo carrega marcas, memórias e formas próprias de existir.

“Buscamos compreender essa vivência como algo múltiplo, mas profundamente singular. Gosto de pensar ‘Matrioska’ como um iceberg: começamos pela superfície e, pouco a pouco, mergulhamos nas camadas mais íntimas de um corpo que aprendeu a sobreviver cercado por mecanismos de proteção”, afirma a diretora Nicka.

Nicka explica que a dramaturgia foi construída a partir do próprio corpo em cena, aproximando-se de procedimentos autoetnográficos e de referências da dança-teatro.

“Daniel é, ao mesmo tempo, intérprete, documento e território da obra. Não nos interessava apenas representar acontecimentos, mas investigar como as violências, os afetos e as memórias permanecem inscritos no corpo. Em ‘Matrioska’, a ação física não ilustra a dramaturgia: ela é a própria dramaturgia”, destaca a diretora Nicka.

Circulação nas escolas

Após a estreia em Manaus, o espetáculo inicia uma circulação por escolas públicas, acompanhada por rodas de conversa com estudantes. Para Daniel Esteves, esse encontro amplia a potência da obra.

“Espero provocar um olhar mais sensível sobre corpos trans e mostrar que homens trans existem e têm um futuro possível. Muitas pessoas sequer conhecem essa realidade. As rodas de conversa criam um espaço de acolhimento, escuta e troca, especialmente para estudantes trans que muitas vezes não encontram esse lugar dentro da escola”, ressalta o artista Daniel Esteves.

Ficha técnica

  • Criação, direção e dramaturgia: Daniel Esteves
  • Direção e dramaturgia: Nicka
  • Provocação corporal: Francis Baiardi
  • Trilha sonora autoral: Noologia
  • Filmografia: Leandra Christine
  • Iluminação: Nicka
  • Cenografia: Juca di Souza
  • Designer: Lua Crescenty
  • Assessoria de acessibilidade: Ananda Guimarães
  • Interpretação de Libras: Ainã Palheta
  • Assessoria de imprensa: Maria Fernanda Carmim

Serviço do espetáculo

  • Espetáculo: “Matrioska”
  • Estreia: 15 de agosto
  • Local: Teatro da Instalação
  • Entrada: Gratuita
  • Realização: Companhia Transversal de Artes Integradas

ASCOM: Maria Fernanda Carmim

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