
A presença de produções nortistas nos grandes centros de decisão do cinema brasileiro ainda enfrenta desafios de descentralização. Quando uma obra nascida nas periferias amazonenses alcança destaque em premiações nacionais, o feito expõe o potencial criativo da região. O roteiro de longa-metragem “O Bagre, a Menina e o Rio”, assinado pelo diretor e roteirista Marcos Tupinambá, conquistou uma vaga entre os cinco finalistas do Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (FRAPA), considerado o maior evento do setor na América Latina. O resultado oficial da seleção foi divulgado na quinta-feira, dia 10 de setembro.
Seleção entre centenas
O projeto iniciou a trajetória disputando espaço contra 323 obras inscritas de todas as regiões do país. Na primeira etapa, a narrativa garantiu presença na lista dos 15 semifinalistas como a única representante da Região Norte. Com o avanço das avaliações, a criação amazonense ingressou no grupo restrito dos cinco finalistas da edição de 2026. A divulgação do grande vencedor do concurso ocorrerá no dia 6 de novembro, durante a Cerimônia de Premiação do festival.

“Essa é uma história que foi amadurecendo e ganhando novas camadas. É uma satisfação perceber que ela também desperta o interesse de pessoas com experiências tão diversas, inclusive dentro do mercado”, afirmou o cineasta Marcos Tupinambá.
Oportunidades no mercado
A classificação para a fase final garante ao autor o acesso direto a agentes econômicos e produtores do audiovisual brasileiro.
- Vaga garantida para participação no 8º FRAPA[LAB]
- Credencial oficial para integrar a programação da 14ª edição do FRAPA
- Oportunidade de apresentar a proposta no formato de pitching para o mercado
- Encontro presencial em dupla com executivos da TV Globo
- Reunião presencial coletiva com representantes da empresa Amazon durante o evento
- Bolsa integral de estudos em um dos cursos da plataforma b_arco on
- Assinatura gratuita de 90 dias com plano essencial de um ano na plataforma MUBI
- Mentoria especializada oferecida pela empresa Transforma
Trajetória e financiamento
A construção de “O Bagre, a Menina e o Rio” reflete um processo longo de maturidade artística. A ideia original foi concebida para o formato de curta-metragem e evoluiu até se transformar em um projeto de longa-metragem. A reestruturação da obra contou com o apoio da Lei Paulo Gustavo (LPG), por meio do Edital número 01/2023 de Fomento às Artes na categoria Audiovisual, financiado pelo Ministério da Cultura (MinC) e executado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM).
“Em 2023, surgiu a oportunidade de transformar aquela ideia em um roteiro de longa-metragem. Depois de alguns anos de desenvolvimento, finalmente concluí o projeto no final de 2025 e decidi submetê-lo a festivais e concursos nacionais de roteiro, como uma maneira de colocar a história em contato com outros olhares e entender como ela poderia reverberar para além de mim”, explicou o diretor Marcos Tupinambá.
Antes da conquista no festival de Porto Alegre, a obra já havia obtido o segundo lugar na categoria Argumento do Grande Prêmio de Roteiro.
Realismo mágico urbano
A trama se passa no ano de 1995, tendo como cenário as palafitas do bairro Educandos, na zona sul de Manaus. A história acompanha Jennyffer, uma jovem de 12 anos que enfrenta a realidade da violência doméstica em sua casa, e Piraíba, um garoto isolado com características físicas associadas a peixes, cuja figura alimenta lendas e preconceitos na comunidade.
Enquanto a amizade entre os dois se consolida, Piraíba é perturbado por visões e vozes vindas das águas, ao mesmo tempo em que o bairro enfrenta a ameaça de remoção das moradias. A narrativa combina aspectos de realismo mágico latino-americano com denúncias sociais da periferia.
“Isso não apenas enriquece a cultura local, mas também contribui para a preservação de histórias e tradições que, de outra forma, poderiam ser esquecidas. Essa valorização da cultura regional tem o potencial de fortalecer o senso de identidade da população local”, pontuou o autor.
O ambiente fluvial atua como elemento central no desenvolvimento dos personagens.
“O filme apresenta um olhar autêntico sobre a vida nas margens do Rio Negro, destacando desafios e lutas cotidianas. Isso ajuda a quebrar estereótipos e promover a inclusão social, lembrando que histórias poderosas podem surgir de qualquer lugar”, ressaltou Marcos.
“É um projeto cinematográfico que não apenas conta uma história envolvente de amizade e amor, mas também resgata e preserva elementos importantes da cultura da Amazônia, aumenta a conscientização sobre questões sociais relevantes e dá voz a comunidades sub-representadas”, acrescentou o cineasta.
Estrutura do festival
Fundado em Porto Alegre, o FRAPA chega à sua 14ª edição consolidado como o principal espaço de debate e negócios focado em roteiros de cinema e televisão na América Latina. O evento será realizado entre os dias 2 e 6 de novembro de 2026, ocupando a Casa de Cultura Mario Quintana, na capital gaúcha.
A programação reúne roteiristas, diretores, distribuidores e executivos de plataformas de streaming em uma agenda diversa de atividades.
- Mesas de debate e oficinas temáticas.
- Aulas masterclasses com profissionais do setor.
- Rodadas de negócios e dinâmicas de speed matching.
- Estudos de caso e exibições comentadas.
- Concursos de Roteiros e Argumentos com sessões de pitching.
- Mostras de curtas e longas-metragens.
ASCOM: Manuella Barros










