
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) desempenha um papel social indispensável ao acolher cidadãos que foram privados do direito ao estudo na idade regular. Atualmente, a rede mantida pela Prefeitura de Manaus atende 7.380 estudantes distribuídos em 66 unidades de ensino. Para tentar reduzir os índices de evasão e elevar a qualidade do aprendizado, a Secretaria Municipal de Educação (SEMED) aposta no projeto “Círculo de Leitura e Escrita na EJA”. A iniciativa busca transformar a bagagem de vida dos matriculados em combustível para o domínio da língua escrita.
Embora o projeto pedagógico apresente resultados louváveis no resgate da autoestima de homens e mulheres, o cenário geral da modalidade impõe uma reflexão crítica sobre as políticas públicas de inclusão. O volume de alunos atendidos expõe a necessidade de um financiamento contínuo e de estratégias que evitem o abandono escolar no turno noturno. A jornada dupla enfrentada por grande parte desse público exige que a estrutura de ensino ofereça atrativos metodológicos reais para mantê-los motivados dentro de sala de aula.
Mecânica do projeto pedagógico
A metodologia aplicada nas escolas municipais foca na participação ativa dos alunos, dividindo os trabalhos em etapas estruturadas para garantir o desenvolvimento gradual das competências.
- Pesquisa temática: Os estudantes escolhem assuntos ligados ao cotidiano e coletam dados usando recortes de jornais, revistas, músicas e arquivos de vídeo.
- Rodas de diálogo: Os participantes debatem o material coletado, momento em que os professores introduzem as estruturas de diferentes gêneros textuais.
- Produção e revisão: Os textos autorais passam por correções conjuntas e reescritas, aprimorando a ortografia e a capacidade de argumentação.
- Publicação final: As crônicas e memórias selecionadas são reunidas nos Cadernos do Círculo de Leitura e Escrita na EJA, gerando um registro físico do aprendizado.
Vozes e resgate da identidade
O grande diferencial apontado na ação educativa é a quebra do modelo tradicional de ensino infantilizado, muitas vezes aplicado erroneamente para adultos. Ao valorizar a história comunitária de cada estudante, o ambiente escolar ganha relevância prática para os matriculados.
A gerência da modalidade defende que o sentimento de pertencimento funciona como a principal barreira contra a desistência dos alunos ao longo do ano letivo.
“O principal aspecto que torna essa iniciativa significativa é que toda a construção das atividades acontece a partir da realidade de vida dos nossos alunos”, afirmou Alina Bindá, gestora da área na secretaria municipal.
Impacto na vida dos alunos
Na Escola Municipal Vicente de Paula, localizada na zona sul da capital, os relatos dos matriculados comprovam a eficiência prática da metodologia baseada na memória afetiva. A estudante Maria do Perpétuo Socorro, de 66 anos, utilizou a atividade para documentar as transformações urbanas que testemunhou no bairro Japiim. Da mesma forma, Francisca Araújo Dantas, de 45 anos, relata que o retorno aos livros superou barreiras emocionais profundas provocadas por décadas de afastamento das salas de aula.
As narrativas locais ganham força com o acompanhamento do corpo docente, que atesta o avanço na autonomia e na segurança dos estudantes ao redigirem os próprios textos. A evolução na escrita se reflete diretamente na segurança para exercer atos simples do cotidiano civil, como assinar documentos e interpretar informações no ambiente de trabalho.
Necessidade de ampliação permanente
A existência de premiações correlatas, como o Concurso Escola Leitora na EJA, demonstra um esforço técnico da comunidade escolar para premiar as melhores práticas pedagógicas. Contudo, para que o impacto desse projeto não fique restrito às 66 unidades atuais, o planejamento urbano de Manaus precisa assegurar transporte público eficiente no horário de saída e merenda escolar reforçada para o turno da noite.
O fortalecimento da educação de adultos é um indicador crucial para o desenvolvimento humano da capital. Os resultados mostram que o potencial de transformação existe, cabendo ao poder público assegurar que as metas de alfabetização sejam acompanhadas por suporte estrutural amplo, assegurando a permanência do estudante até a conclusão do ciclo de ensino.
Fonte: ASCOM | Alexandre Abreu/Semed











