
Quem percorre hoje as estradas do Amazonas, desviando de crateras na AM-010, AM-352 ou atolando na lama da AM-454, pode não saber, mas o caos rodoviário atual tem uma data de nascimento. Foi em um dia de julho de 1995 que uma decisão administrativa mudou o rumo da infraestrutura do estado. Agora, diante de pontes caindo e municípios isolados, um exército de especialistas, ex-diretores e engenheiros se levanta com uma única bandeira, a urgente recriação do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM).
O movimento ganhou força nas últimas semanas com adesões de peso e uma análise técnica irrefutável. Sem um órgão especializado, o Amazonas perdeu a capacidade de planejar, executar e, principalmente, manter seus caminhos abertos.
A linha de frente da batalha pela infraestrutura
Nessa trincheira, o papel do engenheiro civil, professor Marcos Maurício, tem sido fundamental. Conhecido por sua luta incansável pela BR-319, ele foi o responsável por resgatar a memória técnica do estado e conectar os pontos que explicam o desastre atual. Foi através de sua articulação que vieram à tona os detalhes sobre os últimos dias da autarquia, mobilizando antigos diretores e a nova geração de engenheiros para provar que a gestão rodoviária do Amazonas precisa de um “cérebro” técnico novamente.
O documento que selou o destino das estradas amazonenses

A imagem de um Diário Oficial amarelado pelo tempo, datado de 12 de julho de 1995, traz a prova do desmonte. Naquele dia, foi publicada a exoneração da diretoria técnica, marcando o início do fim da autarquia. O engenheiro civil Jerocilio Roberto Alves Simões, que dirigia o órgão naquele momento derradeiro, rompeu o silêncio. Ele era o diretor-geral quando as luzes se apagaram para a engenharia pública estadual e hoje é uma das vozes mais ativas pelo retorno do órgão.
Para Jerocilio, não se trata de saudosismo, mas de necessidade técnica vital. Segundo ele, o estado precisa retomar o controle através de estruturas descentralizadas.
“A criação de Residências de Conservação garantiriam uma atuação mais presente nas rodovias, de modo a dar melhor qualidade, garantia da trafegabilidade e segurança do trânsito rodoviário”, explica o engenheiro Jerocilio Roberto.
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A engenharia nacional nasceu em Manaus e foi esquecida
Um fato curioso e pouco conhecido reforça a importância histórica do estado no cenário nacional. Em 1976, foi justamente em Manaus, durante uma reunião de gestores, que nasceu a Associação Brasileira dos Departamentos de Estradas de Rodagem (ABDER).
Quem traz essa memória é o engenheiro civil Francisco Paiva, que foi diretor-geral do DER-AM naquele ano e agora também entra na “guerra” pela recuperação da malha viária. É uma ironia cruel que o estado que foi o berço da organização rodoviária nacional hoje sofra com a gestão improvisada de suas estradas. A entrada de Paiva no debate mostra que a velha guarda da engenharia e os novos profissionais estão alinhados no mesmo diagnóstico.
Por que a terceirização total falhou
O modelo atual, focado apenas em contratos pontuais e terceirização sem a fiscalização de um corpo técnico estatal robusto, mostra sinais de exaustão. Os relatórios recentes sobre a AM-010 e a situação crítica da estrada de Novo Airão (AM-352) são provas visuais do problema.
Jerocilio Roberto detalha que a volta da autarquia traria de volta o cérebro da operação, incluindo o suporte científico que hoje faz falta.
“Os trabalhos contariam com o apoio de um laboratório de solos, que indicaria a escolha dos materiais a serem empregados, de modo a garantir a estrutura do corpo estradal”, alerta o ex-diretor.
Sem esse laboratório e sem o planejamento de um “Plano Rodoviário” atualizado, o dinheiro público muitas vezes é enterrado em asfalto de baixa qualidade que se desfaz com a primeira chuva amazônica.
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A conta do descaso chegou para a população
Enquanto o debate técnico acontece, a realidade nas vicinais e rodovias estaduais é dramática. Especialistas e entidades como a Associação Brasileira de Engenheiros Civis (Abenc-AM) e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-AM), através de figuras como Afonso Lins, têm alertado que obras como a da BR-319 e das pontes na estrada do Curuçá sofrem com a falta de transparência e rigor técnico.
A recriação da autarquia não é apenas uma questão burocrática, é a única saída para garantir o direito de ir e vir do amazonense e o escoamento da produção agrícola que apodrece nos ramais intransitáveis.
“Diante da situação em que se encontram nossas rodovias, somente um órgão específico como foi o DER-AM, seremos capazes de recuperar o Sistema de Rodovias do nosso Estado”, finaliza Jerocilio Roberto.











