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AM-454 afunda na lama e revela falência da gestão rodoviária no interior do Amazonas

A promessa de desenvolvimento para a região do Médio Solimões, que custou aos cofres públicos quase R$ 150 milhões, transformou-se em um símbolo de abandono e desperdício. A rodovia AM-454, projetada para interligar os municípios de Anori, Codajás e Anamã, deveria ser um corredor de progresso, mas hoje é um atoleiro que humilha quem precisa dela para sobreviver.

O cenário, denunciado recentemente pelo influenciador Matheus Garcia e analisado por especialistas em infraestrutura, expõe uma ferida aberta na gestão rodoviária do Amazonas. Onde deveria haver asfalto, há barro. Onde deveria haver máquinas trabalhando, há placas enferrujadas tombadas à beira do caminho.

Uma estrada que não existe na prática

O vídeo gravado por Matheus mostra um trecho conhecido como Ramal do Mato Grosso, na zona rural de Anamã, a cerca de 24 quilômetros de Anori. Se a estrada estivesse pavimentada, o percurso poderia ser feito em aproximadamente 30 minutos. Hoje, quando o veículo não atola, a viagem pode ultrapassar 3 horas.

A dificuldade vai além do desconforto. O problema afeta diretamente o custo do açaí, a renda de agricultores, o transporte escolar e o acesso a hospitais em situações de emergência. Infraestrutura, nesse contexto, deixa de ser apenas obra pública e passa a ser uma questão de dignidade humana.

“Isso não é só sobre lama. É sobre o aumento do custo do açaí, a qualidade de vida de quem trabalha no campo e a dificuldade de chegar a um hospital em uma emergência”, pontua Matheus

Impacto direto na vida de mais de 56 mil pessoas

Três municípios dependem da AM-454 para praticamente tudo. São mais de 56 mil moradores que utilizam a rodovia para trabalhar, estudar, escoar a produção agrícola e buscar atendimento médico.

Produtores rurais relatam perdas constantes durante o inverno amazônico, quando o alto volume de chuvas torna a estrada quase intransitável. O sofrimento começa ainda de madrugada, com longas horas de viagem em condições precárias, muitas vezes colocando vidas em risco.

O contrato milionário e os prazos estourados

Ao longo dos últimos anos, diferentes anúncios reforçaram a expectativa de pavimentação da estrada. O governo do Amazonas chegou a divulgar investimentos de R$ 100 milhões para a rodovia Anori Codajás, com previsão de início das obras ainda em 2022.

Mais tarde, um contrato no valor de aproximadamente R$ 150 milhões foi firmado para serviços de terraplenagem e pavimentação da AM-454 e do Ramal do Mato Grosso. O prazo previsto para conclusão era maio de 2025. O cronograma não foi cumprido.

Em outubro de 2025, vídeos e fotos passaram a circular nas redes sociais mostrando a retirada de máquinas do local, o que gerou indignação entre moradores e especialistas da área de infraestrutura.

Entidades técnicas cobram explicações

A Associação Brasileira de Engenheiros Civis no Amazonas (ABENC-AM) manifestou preocupação pública com a situação da rodovia. A entidade destacou que, mesmo considerando o período de chuvas intensas, o abandono das obras sem transparência levanta questionamentos sobre fiscalização, planejamento e gestão do contrato.

Com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), a associação anunciou que solicitou à Secretaria de Infraestrutura do Amazonas esclarecimentos sobre o andamento do contrato, eventuais aditivos e justificativas para o atraso.

A falência do modelo de gestão rodoviária

Para o analista e professor Marcos Maurício, o caso da AM-454 não é um acidente isolado, mas o sintoma de uma “doença crônica” na administração pública estadual. Ele reforça que a falta de planejamento e compromisso transformou o interior do Amazonas em um cemitério de obras inacabadas.

O professor lista outras rodovias que sofrem do mesmo mal, evidenciando um padrão sistêmico de abandono:

  • AM-364: o crítico Ramal de Democracia, em Manicoré.
  • AM-363: a esquecida Rodovia da Várzea.
  • AM-240: a precária Estrada de Balbina.
  • AM-329 e AM-254: vias vitais para Envira e Autazes, respectivamente.

A solução apontada por especialistas passa pela recriação de órgãos técnicos competentes, como o antigo Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM), para tirar a gestão rodoviária do amadorismo político e devolvê-la à engenharia séria.

Infraestrutura também é dignidade

A denúncia reacende uma pergunta simples e direta que ecoa entre os moradores do interior. Onde está o asfalto? Onde está o dinheiro? Onde está a fiscalização?

Enquanto as respostas não chegam, quem vive e produz no interior do Amazonas continua pagando o preço mais alto. A lama não impede apenas o tráfego. Ela trava o desenvolvimento, encarece alimentos, dificulta o acesso à saúde e reforça desigualdades históricas.

O vídeo que impulsionou o debate foi publicado nas redes sociais pelo influenciador Matheus Garcia, que pode ser acompanhado pelo perfil @matheusgarciaam. A expectativa agora é que a visibilidade do caso pressione autoridades a transformar promessas antigas em soluções reais.

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