
A operação “Sucata”, executada pela Prefeitura de Manaus por meio do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) nesta quarta-feira, dia 22 de abril, traz à tona um problema que vai muito além de latas velhas ocupando asfalto. A remoção de veículos na avenida Constantino Nery e no bairro Alvorada ataca um sintoma crônico da nossa capital, o uso do espaço público como depósito privado. Embora a apreensão de três veículos pareça um número tímido diante da frota da cidade, a ação carrega um peso simbólico e técnico necessário para a ordem urbana.
Ordem e fluidez
A presença de carcaças e veículos deteriorados em vias arteriais como a Constantino Nery compromete o que os especialistas chamam de “visibilidade geométrica” das vias. Um carro abandonado não ocupa apenas alguns metros quadrados, ele altera o comportamento de todo o fluxo ao redor.
- Redução da largura útil das faixas de rolagem
- Obstrução da visão de pedestres em travessias críticas
- Estímulo ao estacionamento irregular de outros veículos por efeito de imitação
Como pontuou o diretor de Operações de Trânsito do IMMU, Stanley Ventilari, a ação foca na fluidez. No entanto, é preciso questionar se a periodicidade das operações é suficiente para vencer a velocidade do abandono, especialmente em bairros periféricos onde a fiscalização é menos frequente.
Saúde e segurança
O argumento da segurança pública e da saúde é, talvez, o ponto mais sensível desta operação. Em uma Manaus que luta sazonalmente contra surtos de arboviroses, um veículo abandonado é, na prática, um incubador de doenças a céu aberto. O acúmulo de lixo e água parada transforma o entulho metálico em um problema sanitário de difícil controle para as equipes de endemias.
Do ponto de vista da segurança, o carro abandonado se torna um ponto cego no urbanismo. Esses veículos servem frequentemente como esconderijo para atividades ilícitas ou descarte de materiais perigosos, degradando a percepção de segurança dos moradores e desvalorizando o entorno imediato.
Responsabilidade e denúncia
Um detalhe crucial da operação é o processo legal que antecede o guincho. O proprietário identificado recebe um prazo de 48 horas para a retirada voluntária. Essa etapa é fundamental para garantir que o poder público não atue de forma arbitrária, mas também expõe a falta de responsabilidade civil de muitos proprietários que preferem o abandono ao descarte correto.
A prefeitura aposta na colaboração da população por meio do disque-denúncia no número 0800 092 11 88. Essa estratégia de “zeladoria colaborativa” é eficiente, mas revela que o IMMU ainda depende muito do olhar do cidadão para mapear o problema. Em uma cidade inteligente, o monitoramento por câmeras e a integração de dados deveriam antecipar essas denúncias.
“Ao retirar esses veículos, contribuímos diretamente para uma cidade mais limpa e segura”, afirmou Stanley Ventilari.
O sucesso da operação “Sucata” não deve ser medido apenas pelo número de guinchos realizados hoje, mas pela capacidade da gestão municipal em desestimular o abandono por meio de multas severas e educação para o trânsito. O espaço público é um bem coletivo e caro demais para ser tratado como ferro-velho.
ASCOM: Naira Nascimento/IMMU










