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Crise climática tem que entrar no centro da disputa pelo governo do Amazonas

Ao fundo a Zona Sul de Manaus - Foto: Célio Said

Neste outubro de 2026, o Amazonas está diante de uma emergência que não pode mais ser tratada como um episódio sazonal ou uma fatalidade da natureza.

A fumaça que recorrentemente encobre Manaus e outras regiões do estado, comprometendo a qualidade do ar e a saúde da população, tornou-se um dos sinais mais preocupantes de uma crise ambiental que exige respostas urgentes, planejamento e responsabilidade dos poderes públicos.

Neste sábado, 17 de outubro, a gravidade da situação voltou a chamar a atenção. Segundo informações divulgadas pelo UOL com base em dados da plataforma IQAir, a concentração de partículas finas PM2,5 em Manaus chegou a 404,3 microgramas por metro cúbico durante a manhã, índice extremamente elevado e associado a riscos importantes para a saúde.

A fumaça proveniente de queimadas no Amazonas e em estados vizinhos, combinada com condições meteorológicas desfavoráveis à dispersão dos poluentes, contribuiu para agravar o quadro.

É uma realidade que ultrapassa os limites da questão ambiental. Quando milhões de pessoas ficam expostas à poluição atmosférica, crianças, idosos, trabalhadores ao ar livre e pacientes com doenças respiratórias e cardiovasculares tornam-se particularmente vulneráveis.

A rotina das famílias é alterada, as atividades escolares e esportivas podem ser suspensas e os serviços de saúde passam a enfrentar uma pressão adicional.

Diante desse cenário, a crise climática e a fumaça precisam ocupar lugar de destaque na reta final da campanha ao governo do Amazonas.

Omar Aziz, do PSD, e Maria do Carmo, do PL, devem apresentar à sociedade propostas consistentes e financeiramente viáveis para enfrentar um problema que não será resolvido apenas com medidas emergenciais quando o céu já estiver tomado pela fumaça.

A população tem o direito de saber o que cada candidato pretende fazer para impedir que essa situação continue se repetindo.

Queimadas não são fatalidade

É importante estabelecer uma distinção fundamental: a crise climática e os períodos de estiagem podem agravar as condições que favorecem incêndios e dificultam o combate ao fogo, mas não explicam, isoladamente, a origem de todas as queimadas.

O uso irregular do fogo, a abertura de áreas e outras ações humanas também precisam ser investigados e enfrentados com fiscalização e responsabilização.

Em outubro de 2026, a dimensão do problema ficou evidente. Dados divulgados pela Reuters apontaram 1.679 ocorrências de incêndio no Amazonas nas duas primeiras semanas do mês, aumento de 253% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Mais de 36 municípios haviam declarado situação de emergência em meio ao avanço dos incêndios e à deterioração da qualidade do ar.

Esses números demonstram que o problema exige muito mais do que ações pontuais. O estado precisa fortalecer sua capacidade de prevenção, monitoramento e resposta, com equipes preparadas, equipamentos adequados, recursos assegurados e integração entre os órgãos responsáveis.

Também é necessário ampliar a fiscalização nas áreas mais vulneráveis, identificar os responsáveis por incêndios criminosos, aplicar as sanções previstas em lei e impedir que a impunidade estimule a repetição dessas práticas.

Planos concretos

A disputa pelo governo não pode ficar restrita a alianças, declarações políticas e promessas genéricas. A gravidade da situação exige que os candidatos expliquem como pretendem proteger o Amazonas diante do agravamento dos riscos ambientais.

Omar Aziz, que já governou o estado e atualmente exerce mandato de senador, precisa mostrar quais medidas pretende implementar para fortalecer a política ambiental, ampliar a capacidade de prevenção e combate aos incêndios e preparar a administração estadual para enfrentar eventos climáticos extremos.

Maria do Carmo, por sua vez, precisa apresentar uma estratégia igualmente consistente, esclarecendo quais serão suas prioridades, como pretende organizar a estrutura de resposta do governo e de que maneira financiará as medidas necessárias.

A cobrança deve ser igual para ambos. Não basta declarar preocupação com a Amazônia, defender o desenvolvimento sustentável ou prometer mais investimentos. É necessário apresentar um programa com metas, prazos, orçamento, responsabilidades institucionais e mecanismos de fiscalização dos resultados.

Entre as medidas que merecem ser debatidas estão a ampliação das brigadas de combate a incêndios, a capacitação de comunidades para a prevenção, o monitoramento contínuo dos focos de calor e da qualidade do ar, o fortalecimento da fiscalização ambiental e a criação de protocolos de emergência para proteger a população.

Os candidatos também precisam explicar como pretendem integrar a política ambiental às áreas da saúde, educação, defesa civil, infraestrutura e desenvolvimento econômico. A crise climática não respeita as divisões administrativas do governo e, por isso, não pode ser enfrentada de maneira fragmentada.

Parceria com Brasília 

Pelas dimensões territoriais do Amazonas e pelas dificuldades de acesso a inúmeras localidades, nenhum governo estadual conseguirá enfrentar sozinho uma emergência dessa magnitude.

A cooperação com o governo federal é indispensável para ampliar a capacidade de combate aos incêndios, fortalecer a fiscalização e garantir recursos técnicos, humanos e financeiros.

Essa parceria não deve depender de afinidades partidárias, disputas eleitorais ou conveniências políticas. O que está em jogo é a proteção da população e do patrimônio ambiental brasileiro.

A atuação federal já inclui medidas que podem servir de base para uma estratégia mais ampla. Em 12 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente informou a mobilização de 11 aeronaves e 290 brigadistas para reforçar o combate aos incêndios florestais no Amazonas.

O governo federal também informou a existência de apoio financeiro, por meio do projeto ProAmazon, destinado ao fortalecimento da estrutura do Corpo de Bombeiros estadual e das ações de prevenção e combate ao fogo.

O desafio, portanto, é assegurar que a cooperação se traduza em capacidade permanente de resposta, e não apenas em mobilizações extraordinárias durante os períodos mais críticos.

O próximo governador deverá manter diálogo institucional com o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama, o ICMBio, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, a Defesa Civil Nacional e demais órgãos competentes. Também precisará articular ações com os municípios, universidades, instituições de pesquisa e organizações que atuam na proteção ambiental.

É necessário estabelecer protocolos para o compartilhamento de informações, a mobilização rápida de brigadas, o emprego de aeronaves, o financiamento de equipamentos e a atuação conjunta em áreas de difícil acesso.

Ao mesmo tempo, o estado deve apresentar projetos tecnicamente consistentes para captar recursos federais, fortalecer sua estrutura de prevenção e ampliar a capacidade de fiscalização.

A cooperação entre os governos estadual e federal precisa ser permanente, transparente e orientada por resultados, independentemente de quem esteja no comando de cada esfera administrativa.

Monitorar e proteger vidas

Outro ponto essencial é a ampliação da rede de monitoramento da qualidade do ar. Sem informações confiáveis e distribuídas territorialmente, as autoridades têm dificuldade para dimensionar os riscos, orientar a população e definir medidas proporcionais à gravidade de cada episódio.

Em 14 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente informou a ampliação do monitoramento na Amazônia por meio de uma parceria com a Fiocruz, com cinco estações instaladas em Manaus, Rio Branco, Porto Velho, Belém e Santarém.

A iniciativa acompanha a concentração de partículas finas e disponibiliza informações que podem apoiar a proteção da saúde pública.

Esse é um avanço importante, mas a dimensão do território amazônico exige que o monitoramento seja ampliado e integrado a uma política pública de prevenção.

O Amazonas precisa de dados acessíveis sobre a qualidade do ar na capital e no interior, boletins regulares, alertas compreensíveis e protocolos de atendimento para períodos de poluição extrema.

As secretarias de Saúde e Educação devem trabalhar em conjunto para orientar escolas, unidades de atendimento e famílias sobre os riscos da exposição à fumaça. Em episódios críticos, é necessário definir critérios técnicos para a suspensão ou adaptação de atividades ao ar livre, proteger trabalhadores expostos e assegurar atendimento adequado às pessoas mais vulneráveis.

A população não pode depender apenas das imagens de um céu encoberto ou do cheiro de queimado para descobrir que está respirando ar potencialmente perigoso.

Prevenção, fiscalização e alternativas

Uma política ambiental consistente também precisa enfrentar as causas econômicas e sociais que contribuem para o uso inadequado do fogo.

Pequenos produtores rurais necessitam de orientação técnica, acesso a tecnologias e alternativas que reduzam a dependência de práticas que podem provocar incêndios descontrolados. Comunidades tradicionais e populações que vivem em regiões remotas precisam participar da elaboração das políticas, com respeito aos seus conhecimentos e às suas necessidades.

Isso não significa relativizar crimes ambientais. Significa combinar fiscalização rigorosa com prevenção, educação ambiental e alternativas produtivas sustentáveis.

A bioeconomia pode desempenhar papel importante nesse processo, desde que deixe de ser apenas um conceito presente nos discursos e se transforme em oportunidades reais de renda, pesquisa, inovação e valorização dos produtos da floresta.

O governo estadual deve estimular atividades econômicas compatíveis com a conservação ambiental, apoiar cadeias produtivas sustentáveis e ampliar o acesso dos produtores a financiamento, assistência técnica e mercados consumidores.

Como alertam os especialistas, preservar a floresta não pode ser uma responsabilidade atribuída exclusivamente às comunidades locais. É necessário criar condições para que a conservação ambiental também represente oportunidades econômicas e melhoria das condições de vida.

Um plano climático

A crise atual também reforça a necessidade de uma política estadual de adaptação às mudanças climáticas, capaz de preparar o Amazonas para secas severas, ondas de calor, incêndios florestais, alterações no regime de chuvas e dificuldades de abastecimento.

Esse planejamento precisa incluir a proteção de mananciais, a segurança hídrica, a preparação das unidades de saúde, a infraestrutura de comunidades isoladas e a continuidade dos serviços públicos durante eventos extremos.

É fundamental estabelecer metas anuais de prevenção e redução de incêndios, indicadores de qualidade do ar, prazos para a estruturação de brigadas e mecanismos públicos de prestação de contas.

Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM), órgãos de controle, Ministério Público e sociedade civil também devem ter condições de acompanhar os resultados e cobrar o cumprimento dos compromissos assumidos.

Um plano climático sério não pode ser elaborado apenas para responder à emergência do momento. Deve orientar decisões orçamentárias, investimentos públicos e políticas de desenvolvimento durante todo o mandato.

Cobrança antes de votar

A fumaça que sufoca Manaus é um alerta que não pode ser ignorado. Seus efeitos ultrapassam a questão ambiental e atingem a saúde, a economia, a educação e a qualidade de vida da população.

O Amazonas não pode continuar preso a um ciclo em que a fumaça toma conta das cidades, os serviços públicos tentam responder à emergência e, depois que a situação melhora temporariamente, a prevenção perde espaço até a chegada de uma nova temporada de incêndios.

O próximo governador terá a responsabilidade de romper esse ciclo, fortalecendo a estrutura estadual, garantindo recursos, ampliando a fiscalização e construindo uma parceria efetiva com o governo federal. Omar Aziz e Maria do Carmo precisam demonstrar como pretendem enfrentar esse desafio.

O Amazonas precisa de um governo que não espere a fumaça encobrir o céu para agir. Precisa de planejamento, prevenção, fiscalização e cooperação institucional para que a população não continue pagando, com a própria saúde, o preço da falta de respostas duradouras.

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