
Por José Werneck (*)
Em anos eleitorais, a economia costuma operar sob um ruído adicional: a incerteza política. Esse ambiente afeta expectativas e decisões de alocação de capital. Nesse cenário, o mercado de precatórios não fica imune. Para o credor, a dúvida prática é direta: confiar no calendário público de pagamentos ou agir para ter dinheiro mais rápido e antecipar o recebimento com deságio? A experiência mostra que o calendário oficial é um ponto de partida, não uma garantia. Em contextos de disputa eleitoral, governos podem revisar cronogramas, postergar desembolsos ou reordenar prioridades fiscais. Confiar cegamente nesses prazos equivale a assumir um risco relevante de postergação.
Análise de riscos
É preciso considerar o custo de oportunidade do dinheiro parado, o risco de atraso e sua própria necessidade de liquidez. Esse olhar mais racional costuma produzir escolhas mais alinhadas com o interesse econômico individual. Do lado do mercado, o comportamento também é relativamente previsível. Investidores tendem a precificar a incerteza, o que pode elevar o deságio oferecido na compra de precatórios.
Dinâmica do mercado
Para quem vende, isso significa aceitar um valor um pouco menor em troca de liquidez imediata. Para quem compra, abre-se uma janela de retornos potencialmente mais atrativos. Não por acaso, operadores experientes relatam que o volume de operações não diminui em anos eleitorais e, em alguns casos, até cresce, justamente porque mais credores preferem sair da esfera de risco político. Isso não transforma o ano eleitoral nem no melhor, nem no pior momento para vender um precatório. Trata-se, antes, de um período que exige maior atenção e análise.
Credores com urgência financeira ou avessos à volatilidade institucional tendem a encontrar na antecipação uma solução pragmática: trocam incerteza por previsibilidade. Por outro lado, quem detém precatórios federais de alto valor e possui margem para esperar pode se beneficiar de uma avaliação mais detalhada, ponderando se o deságio exigido compensa a antecipação.
Decisão racional
A meu ver, a decisão não deve ser guiada por slogans ou pelo calendário político, mas por critérios econômicos claros. Ano eleitoral amplifica riscos e, como todo risco, ele tem preço. Cabe ao credor decidir se prefere carregá-lo até o vencimento, apostando na regularidade dos pagamentos, ou transferi-lo ao mercado, aceitando um deságio em troca de liquidez.
Em ambos os casos, informação qualificada e assessoria especializada deixam de ser um diferencial e passam a ser condição mínima para uma escolha consciente, porque em ano de urna, quem tem a liquidez na mão é quem realmente governa o próprio futuro financeiro.
(*) é sócio-fundador da Adianta Jus, empresa focada na negociação de créditos judiciais complexos. Administrador formado pela IE Business School em Madri, possui 10 anos de experiência em Special Situations e liderou a plataforma de ativos pulverizados do BTG Pactual.










