
A atuação no topo do Judiciário brasileiro carrega uma visibilidade constante e cobranças que vão além dos autos dos processos. Ao avaliar a própria trajetória no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça classificou o posto como o “máximo do poder humano em termos jurídicos”. No entanto, o magistrado fez uma ponderação crítica ao ressaltar que os dois primeiros anos na Corte foram marcados por “muita infelicidade”, argumentando que a função impõe muito mais ônus, responsabilidade e pressão do que propriamente poder ou privilégios.
As declarações ocorreram durante o Seminário Nacional da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado na última sexta-feira (21/8). Na ocasião, André Mendonça abordou temas sensíveis como padrão de vida, remuneração e as exigências diárias do cargo.
Durante o evento, o integrante da Corte fez um aviso direto aos colegas da magistratura presentes na plateia.
“Não coloque seu coração no poder, não coloque seu coração no dinheiro, porque você vai se frustrar”, alertou o ministro André Mendonça.
O histórico do magistrado inclui sua nomeação para o cargo em dezembro de 2021, feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Antes de chegar ao tribunal, ele atuou como advogado-geral da União (AGU) e ministro da Justiça e Segurança Pública. A aprovação do seu nome pelo Senado foi comemorada de forma ostensiva pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
Bastidores das investigações
A rotina de julgamentos do magistrado inclui processos de forte impacto político e econômico no país. Em fevereiro de 2026, André Mendonça assumiu a relatoria do caso “Master” após o ministro Dias Toffoli solicitar a redistribuição dos processos, em razão de revelações sobre suas ligações com Daniel Vorcaro.
Na ocasião, o STF afirmou não haver motivo para reconhecer suspeição ou impedimento de Toffoli e validou todos os atos praticados por ele antes da troca de comando.
Já na condução dos autos em março, André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, atendendo a um pedido formulado pela Polícia Federal (PF) devido ao risco de interferência nas investigações.
Além disso, o ministro é relator de procedimentos derivados da “Operação Sem Desconto”, ação que desdobrou investigações autônomas sobre suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Principais frentes de atuação recente do ministro:
- Condução do caso “Master” após redistribuição requerida por Dias Toffoli.
- Decretação da prisão preventiva de Daniel Vorcaro a pedido da Polícia Federal (PF).
- Relatoria dos desdobramentos da “Operação Sem Desconto” sobre investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva.
Finanças e vencimentos
A questão financeira também entrou em pauta na reflexão sobre o cotidiano da magistratura. Atualmente, o salário-base de um ministro do STF é de R$ 46.366,19.
Em julho, o rendimento líquido recebido por André Mendonça foi de R$ 30,4 mil, mas oscilações nos contracheques já registraram o valor de R$ 18,8 mil líquidos em maio, sendo o menor montante pago entre os integrantes da Corte naquele mês.
Ao detalhar a realidade orçamentária de um magistrado, ele rebateu a ideia de enriquecimento por meio da função pública.
“Um ministro do tribunal, um juiz em geral, ele não pode ter a pretensão de ficar rico, porque o salário, ainda que seja um bom salário, ele é um salário que não te dá condições de ter uma vida, eu diria, sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia”, declarou o ministro.
As ponderações lançam luz sobre o contraste entre a percepção pública em relação aos cargos de cúpula do Judiciário e o desgaste pessoal relatado por quem ocupa a cadeira.
A fala contrapõe o peso institucional das decisões tomaras no STF com as limitações e pressões enfrentadas no dia a dia da magistratura.










