
A produção de soja ampliou a sua presença nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal entre os anos de 2017 e 2024, enquanto culturas agrícolas tradicionais voltadas à alimentação da população local perderam espaço produtivo. Nesse período de sete anos, a área plantada com soja cresceu 71%, enquanto a área destinada ao cultivo de mandioca sofreu uma queda de 28%.
Com essa expansão contínua, a soja passou a ocupar 62% de toda a área plantada nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal em 2024. Em contrapartida, o cultivo de mandioca passou a ocupar apenas 3% desse total. Se no ano de 2017 a extensão usada para a soja já era dez vezes maior do que a área destinada à mandioca, em 2024 a diferença saltou para 23 vezes mais espaço ocupado pela monocultura de grãos.
Impacto nas culturas agrícolas
Os dados oficiais foram divulgados pelo Instituto Escolhas nesta quarta-feira, dia 5 de agosto, por meio do estudo intitulado “Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal”. Além da redução drástica no cultivo da mandioca, outras culturas amplamente consumidas e produzidas nessas regiões metropolitanas registraram quedas expressivas na área de plantio.
- Melancia: Redução de 51% da área plantada.
- Banana: Redução de 11% da área plantada.
- Arroz: Queda de 1% na extensão de cultivo.
O levantamento analisou detalhadamente a produção agrícola e os indicadores de segurança alimentar nas 15 regiões metropolitanas da Amazônia Legal, áreas que somadas abrigam mais de 12 milhões de moradores.
A diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas, Juliana Luiz, destacou a mudança no perfil produtivo da região.
“Nosso estudo mostra que essas regiões estão reduzindo a produção de alimentos tradicionalmente destinados ao consumo da população local e aumentando a produção de soja, voltada majoritariamente à exportação”, afirma a diretora Juliana Luiz.
Concentração de terras
O relatório aponta que as áreas destinadas às atividades agropecuárias nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal cresceram de 11,1 milhões de hectares em 2017 para 12 milhões de hectares em 2022, representando um avanço de 8%.
Apesar dessa expansão territorial, o movimento foi acompanhado por um aumento na concentração fundiária. O número de estabelecimentos agropecuários ativos despencou 26% no mesmo período, caindo de 142 mil propriedades em 2017 para 105 mil unidades em 2022, ano mais recente com dados consolidados.
Dependência de outros estados
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) analisados no levantamento indicam uma participação reduzida dos alimentos produzidos na própria região dentro das Centrais de Abastecimento (Ceasas) espalhadas pelo Brasil. Em 2024, apenas 161 mil toneladas de frutas e hortaliças comercializadas nesses entrepostos tinham origem na Amazônia Legal, o que corresponde a 1,4% do total nacional movimentado naquele período.
A dependência externa é tão expressiva que os Ceasas do país comercializaram mais hortaliças e frutas importadas do exterior, somando 184 mil toneladas, do que produtos vindos da Amazônia Legal brasileira.
Dentro da própria região o cenário de abastecimento gera preocupação. No caso específico do Ceasa de Belém, no Estado do Pará, 80% de todos os alimentos comercializados na central de abastecimento são trazidos de outros estados da federação.
Queda nos orçamentos públicos
Na análise das contas públicas, o estudo revela que a pauta do abastecimento alimentar perdeu espaço prioritário nas políticas agrícolas estaduais e municipais. Nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal, a fatia das despesas destinadas ao abastecimento dentro do orçamento agrícola caiu de 61% para 41% entre os anos de 2017 e 2024.
Ao analisar isoladamente os governos estaduais, essa participação financeira desabou de 5% para apenas 2%, evidenciando o descompasso do setor nas agendas políticas regionais.
A diretora Juliana Luiz pontuou a falta de estrutura administrativa nos municípios para enfrentar o problema.
“Quando analisamos os instrumentos de gestão da agenda de segurança alimentar nas regiões metropolitanas, vemos um número muito baixo de municípios com planos e recursos para a agenda, 11% e 9%, respectivamente”, afirma a diretora Juliana Luiz.
A pesquisadora reforçou a necessidade de uma atuação conjunta entre as diferentes instâncias de poder.
“É preciso que essas prefeituras, mas também os estados e o Governo Federal, melhorem de fato seus compromissos e ações para garantir o acesso das pessoas que vivem nessas cidades encravadas na floresta à alimentação regional e saudável”, defende a especialista.
Propostas para o setor
O relatório do Instituto Escolhas apresenta caminhos e propostas para fortalecer a segurança alimentar em todas as esferas administrativas do país.
- Âmbito municipal: Ampliação da adesão das prefeituras ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN).
- Âmbito estadual: Requalificação das centrais de abastecimento e entrepostos comerciais, alinhando as operações ao Plano Nacional de Abastecimento Alimentar.
- Âmbito federal: Fortalecimento do tema do abastecimento e da segurança alimentar no escopo da política urbana nacional.
Clique aqui para acessar o estudo “Muita soja e pouca mandioca: a alimentação nas regiões metropolitanas da Amazônia Legal”, do Instituto Escolhas.










