
A disputa política entre os principais grupos ideológicos do Brasil ultrapassou as fronteiras nacionais e alcançou os corredores do poder nos Estados Unidos. Uma delegação de parlamentares alinhados ao Palácio do Planalto desembarcou em Washington esta semana com uma agenda clara de confrontação.
O objetivo declarado é solicitar que autoridades americanas deem início a investigações sobre supostas transações financeiras irregulares da família do ex-presidente Jair Bolsonaro em solo estrangeiro, evidenciando como a arena externa virou peça estratégica no xadrez político nacional.
A comitiva
O grupo de viagem reúne os deputados federais Jandira Feghali (PCdoB-RJ), André Janones (Avante-MG), Pedro Uczai (PT-SC), e Pedro Campos (PSB-PE).
A estratégia central foca em estreitar canais de diálogo com representantes do Partido Democrata no Congresso americano.
O movimento serve como contrapeso às articulações recentes do senador Flávio Bolsonaro e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos do Partido Liberal (PL) de São Paulo, junto à bancada do Partido Republicano.
O cinema
Como ponto de partida para as denúncias, os governistas apresentaram questionamentos sobre o pedido de aporte financeiro feito por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
O montante serviria para viabilizar o projeto do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica que narra a história política e pessoal de Jair Bolsonaro.
A negociação foi revelada pelo veículo The Intercept Brasil no dia 13 de maio, apontando que o pedido inicial somava R$ 134 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados pelo banqueiro.
Diante da repercussão do caso, o senador confirmou publicamente a busca pelo investimento, embora tenha rechaçado qualquer suspeita de ilegalidade.
A pressão ganhou novos contornos em um vídeo publicado nas redes sociais nesta quinta-feira, dia 4 de junho, no qual Pedro Campos declarou que a congressista democrata Sydney Kamlager-Dove se comprometeu a formalizar um pedido de investigação sobre as operações do Banco Master e os recursos remetidos sob o argumento de produção cultural.
Os embates
A atuação dos parlamentares em solo americano assumiu um tom de embate direto e contundente. André Janones relatou que a comitiva percorreu gabinetes legislativos de forma intensa para exigir respostas institucionais e pressionar contra sanções econômicas. O deputado utilizou as redes sociais para ironizar o cenário com uma declaração direcionada.
“Flávio amarra as calças que agora além do Xandão, o FBI também vai para cima de você e não adianta desmaiar agora não, que não vai ter a Jandira para te segurar igual ela te segurou lá no debate não” afirmou o deputado Janones, fazendo menção direta FBI.
A provocação resgata um episódio do ano de 2016, ocorrido durante o debate eleitoral da TV Band para a prefeitura do Rio de Janeiro. Naquela ocasião, Flávio Bolsonaro sofreu uma indisposição física e recebeu os primeiros socorros de Jandira Feghali, que possui formação médica e também disputava o pleito, antes de o atendimento ser interrompido pela equipe do ex-presidente.
As tarifas
Para além das frentes investigativas, a comitiva brasileira foca em reverter medidas econômicas prejudiciais ao mercado nacional. O principal alvo é o parecer do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) emitido na segunda-feira, dia 1 de junho, que sugere a imposição de tarifas alfandegárias de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil.
Em entrevista concedida à emissora (CNN Brasil), a deputada Jandira Feghali revelou a entrega de um dossiê com 44 páginas aos legisladores americanos, argumentando que a taxação é abusiva e tende a inflacionar os custos de vida em ambos os territórios.
Os aliados do governo também manifestaram forte contrariedade contra supostas movimentações estrangeiras para desestabilizar o sistema de pagamentos eletrônicos “Pix”, alegando interferência na autonomia financeira do país para favorecer plataformas de pagamento americanas.
“O Pix é dos brasileiros, é do Brasil”, declarou o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai.
O contraponto
A reação da oposição demonstra uma articulação paralela de grande alcance diplomático. Na semana passada, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo participaram de reuniões estratégicas com Donald Trump e com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Apenas dois dias após o encontro, o governo dos Estados Unidos anunciou a inclusão das organizações criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de entidades terroristas internacionais.
O senador admitiu ter solicitado pessoalmente essa alteração na classificação de segurança. O governo federal brasileiro avalia que o enquadramento abre precedentes perigosos para uma eventual intervenção externa em assuntos de soberania nacional.
Flávio Bolsonaro negou ter sugerido qualquer sanção comercial a Trump e encaminhou uma correspondência a Marco Rubio solicitando o veto às tarifas de 25%. O parlamentar do PL ressaltou na carta que, caso seu grupo vença o próximo pleito presidencial, colocará sua equipe de assessores de forma imediata à disposição para estruturar um amplo acordo comercial entre as nações.
O desenrolar dessas agendas opostas em Washington evidencia que o debate público nacional se internacionalizou em definitivo.










