
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
A contaminação dos oceanos por plástico é hoje uma das maiores crises socioambientais do planeta. Vivemos no modelo do extrair, fabricar e descartar. E essa maré sintética já atinge 88% das espécies marinhas. Não é sujeira na paisagem. É o retrato da nossa civilização.
E os números não deixam mentir. 80% de todo lixo no mar vem do continente — desce pelos rios, bueiros e esgotos. Só 20% vem de barcos. No fundo, o oceano está pagando a conta do que a cidade não soube guardar.
O mundo joga de 8 a 14 milhões de toneladas de plástico no mar por ano. Só o Brasil, segundo a Oceana Brasil, despeja 1,3 milhão de toneladas. Somos o país das águas abundantes e do descarte farto.
Tempo de decomposição
E o pior: o plástico não some. Ele se quebra. Leva de 200 a 500 anos para se desintegrar, como alerta a Marinha do Brasil. Vira micro, depois nano. O que você enterra hoje na areia, seu neto vai recolher na rede de pesca.
Não existe crise ecológica separada de crise humana. Deus nos colocou no jardim para cultivar e guardar — Gn 2,15 — não para esgotar. O estrago começa invisível, no plâncton, que é a base de toda vida no mar, e sobe até os gigantes: peixes, aves oceânicas, tartarugas e baleias. É uma ascensão tóxica.
O cavalo de Troia
Esse fragmento é um cavalo de Troia. Ele carrega veneno, transporta bactérias e patógenos e espalha espécies invasoras. O plástico nunca viaja sozinho.
E essa conta chega na nossa mesa. Contamina a pesca artesanal e industrial, entra na segurança alimentar. Microplástico já está na dieta de quem vive no litoral e de quem vive no interior. O que jogamos no mar, o mar devolve no prato. Esquecemos que do Senhor é a terra e tudo que nela existe — Sl 24,1.
E ainda tem o bolso. O lixo afasta o turista — e Santa Catarina sabe o quanto isso dói —, quebra motor de barco, entope hélice e encarece a limpeza das cidades e dos portos. Lixo no mar é dinheiro seu indo para o lixo.
É uma verdadeira via-crúcis:
Primeiro, eles comem sem querer. Tartarugas confundem sacolas com águas-vivas. Morrem famélicas, com o estômago cheio de plástico.
Depois, ficam presas. Redes-fantasmas continuam pescando sozinhas por décadas. Prendem, amputam e matam lentamente.
Por fim, sufocam o berçário. Mantos de plástico cobrem o fundo do mar, abafam recifes e pradarias. Onde era berçário, vira deserto.
Invisível em nós
E chegamos ao ponto mais assustador: o invisível agora mora dentro de nós. Pela ação do sol e das ondas, o plástico vira microplástico — de 300 micrômetros a 5 milímetros — e depois nanoplástico, invisível a olho nu.
Essa partícula atravessa barreiras biológicas. Já foi encontrada em tecido, sangue e placenta humana. A marca da nossa era é essa: o plástico já não está só no oceano. Está em nós. Como eu digo: o século XX inventou o plástico para conservar as coisas; o século XXI vai descobrir que foi conservado dentro dele.
Cultura do descarte
Isso não é desleixo. É a cultura do descarte — o avesso de uma teologia do cuidado. Quando tratamos a Criação como descartável, terminamos tratando gente como descartável. Sem mudar a indústria, o ecodesign e o nosso consumo, a vida marinha e o clima continuarão em xeque. E a Escritura já avisou: é chegado o tempo de destruir os que destroem a terra — Ap 11,18. O mar, que é batistério, não pode ser lixeira.
Transformar atitude
Não basta lamentar. É hora de transformar hábito em atitude.
Quem produz, recolhe. Precisamos de leis duras contra plástico de uso único e de logística reversa de verdade.
Nada se perde, tudo se transforma. Precisamos de economia circular e materiais que realmente se decomponham.
Limpar o rio para limpar o mar. Saneamento básico, ecobarreiras nos rios e recolhimento de redes abandonadas com nossos pescadores artesanais.
E a mudança mais profunda e mais urgente começa dentro de casa, onde todos, sem exceção, precisam levar a sério o descarte responsável. A liturgia mais profunda é a do cotidiano: não misturar o que pode ser reaproveitado com o que não pode.
Separação do lixo
O reaproveitável — plástico limpo, papel, vidro, metal — deve estar limpo e seco, separado para a coleta seletiva. É matéria-prima, é renda para o catador, é vida que volta a circular.
O não reciclável — rejeito contaminado, fralda, absorvente, papel higiênico usado, esponja, restos orgânicos sujos — vai para outro destino. Quando você mistura os dois, contamina tudo, inviabiliza a reciclagem e condena o que era útil ao aterro e, depois, ao mar.
E sobretudo: não jogue lixo nas ruas. Principalmente o que não é biodegradável. Uma casca de fruta se decompõe em dias. Mas uma bituca de cigarro leva até 10 anos, uma garrafa PET até 450 anos, um vidro mais de mil anos. Esse lixo da rua entope bueiros, provoca enchentes, desce para o rio e do rio vai para o mar. Cada papel de bala jogado na calçada vira microplástico na veia de um peixe. Rua suja é mar sujo. Não existe oceano limpo sem cozinha limpa de consciência. A transformação do mar começa na lixeira da sua casa.
“Não se limpa o oceano apenas com rede. Limpa-se com consciência. Cada plástico recusado na cidade é uma tartaruga a menos sufocada no mar.” — F. A. C. Pinho
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(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.








