
A euforia de Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB) em torno da BR-319 tem um fundamento: a rodovia voltou a receber investimentos e há, de fato, várias frentes de serviços entre Manaus e Humaitá.
Pavimentação, terraplanagem, recuperação de segmentos e outras intervenções representam uma mudança importante em relação ao abandono de anos anteriores.
Mas é preciso separar avanço de conclusão. A existência de seis frentes de obras não significa que a BR-319 esteja totalmente recuperada, muito menos que o chamado Trecho do Meio esteja integralmente asfaltado.
O segmento mais problemático da rodovia continua sendo uma obra de grande complexidade ambiental, técnica e logística.
Há motivos para comemorar o avanço, mas ainda não dá para ninguém anunciar missão cumprida.
Trecho do Meio exige cautela

É no chamado Trecho do Meio da BR-319 que a cautela precisa prevalecer. O segmento, historicamente marcado por atoleiros, interrupções e dificuldades de trafegabilidade, ainda não pode ser apresentado como uma extensão de centenas de quilômetros completamente asfaltada e pronta para o tráfego permanente.
Houve avanços importantes no processo. Em 2026, o DNIT recebeu licença de instalação do Ibama para a construção de três pontes no Trecho do Meio, um passo concreto dentro de um processo que durante anos enfrentou obstáculos ambientais, técnicos e administrativos.
A licença para determinadas obras, entretanto, não equivale à conclusão da pavimentação de todo o trecho. São etapas diferentes. E é essa diferença que precisa ser respeitada para que a discussão sobre a BR-319 não seja reduzida a uma fotografia eleitoral.
Falta transformar promessa em estrada
O discurso de que o governo Lula finalmente colocou dinheiro na BR-319 também tem fundamento. Recursos federais estão sendo empregados e existem contratos e serviços em execução. O próprio Governo Federal anunciou investimentos expressivos na rodovia.
Mas a pergunta que interessa ao amazonense é outra: quando toda a estrada estará efetivamente reconstruída e em condições seguras de tráfego durante o ano inteiro? Essa resposta ainda não foi dada.
Para o Amazonas, a BR-319 não pode ser apenas uma bandeira eleitoral de ocasião. Precisa ser uma obra acompanhada quilômetro por quilômetro, com cronograma, licenciamento, execução física, fiscalização e transparência sobre os recursos empregados.
A estrada está avançando? Sim. Está resolvida? Ainda não. E entre uma coisa e outra existe o trecho que há décadas desafia governos, empreiteiras, órgãos ambientais e a própria capacidade de planejamento do Estado brasileiro.
Flávio e Cury furam fila no segundo turno

A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira trouxe um ingrediente novo para a corrida presidencial: Flávio Bolsonaro e Augusto Cury aparecem numericamente à frente de Lula em simulações de segundo turno.
Flávio marca 46% contra 45% de Lula, enquanto Cury aparece com 45% contra 43% do presidente. Nos dois casos, porém, a diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, o que caracteriza empate técnico.
O dado mais curioso está em Augusto Cury, que estreia nas simulações de segundo turno da pesquisa já colocando Lula em situação de empate, e numericamente atrás.
Comendo pelas beiradas
Augusto Cury, que avançou para a terceira posição na pesquisa de intenção de voto da semana passada, começa a ganhar espaço no tabuleiro da oposição.
Flávio, por sua vez, consolida um cenário competitivo contra Lula. A inversão em relação ao levantamento anterior também chama atenção: em 31 de agosto, Lula tinha 46% contra 45% do senador. Agora, os números se inverteram.
A pesquisa BTG/Nexus não aponta vencedor, mas mostra que a eleição está longe de ter dono. E, pelo menos desta vez, Flávio e Cury chegaram ao segundo turno da pesquisa antes mesmo de chegar ao segundo turno das urnas.
Hospital dá voto, prevenção dá trabalho
Na temporada eleitoral, hospital parece ser o equipamento público preferido dos candidatos.
Prometer prédio novo, ampliar unidade, inaugurar leito e anunciar centro cirúrgico rende fotografia, discurso e, naturalmente, placa. Já falar em vacinação, acompanhamento de doenças crônicas, saneamento, atenção básica e prevenção parece não ter o mesmo apelo eleitoral.
O problema é que a conta chega depois.
Ironia indigesta

Dados de 2024 mostram que 19,53% das internações no Amazonas ocorreram por condições sensíveis à atenção primária, índice acima da média nacional de 15,4%. São casos que, em boa parte, podem ser reduzidos com prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento adequado na rede básica.
E há uma ironia ainda maior: enquanto se promete construir mais hospitais para atender uma demanda crescente, 85,8% da população do Amazonas não tinha acesso à coleta de esgoto, segundo levantamento citado pelo Instituto Trata Brasil.
Talvez esteja aí um detalhe que as campanhas preferem não colocar no santinho: hospital trata a doença; saneamento e atenção básica ajudam a impedir que ela chegue até lá.
Mas prevenção não corta fita, não rende foto de inauguração e dificilmente ganha placa de bronze. É menos interessante para a campanha eleitoral e não interessa se é importante para o cidadão.










