
A Avenida Epaminondas já possui sua teatralidade viva e cotidiana quando o espetáculo chega. Pessoas trabalham, passam, vendem, esperam o ônibus, conversam e circulam. Diferentemente de uma sala de teatro convencional, onde o público sabe que está diante de uma apresentação e o espaço é organizado para recebê-la, o teatro de rua encontra uma cidade que não para para assistir.
Foi nesse território vivo e imprevisível que o grupo apresentou a montagem “Ajuricaba-Me” no dia 31 de agosto, em um percurso pelas ruas do Centro de Manaus. Partindo do ponto de ônibus em frente ao Colégio Militar e seguindo até a Praça da Matriz, a encenação colocou a história de Ajuricaba, liderança do povo Manaú que enfrentou a colonização portuguesa no século XVIII, em contato direto com o cotidiano da cidade.
Tensão e arte

A experiência fez com que acontecimentos não previstos também atravessassem a encenação. Logo no início da apresentação, na região do Colégio Militar, a equipe foi orientada a interromper a ação e retirar faixas que haviam sido colocadas no local. Pouco antes, os artistas haviam reproduzido um áudio com falas de lideranças indígenas e amazônicas, entre elas Chico Mendes e Davi Kopenawa, sobre a destruição da Amazônia.
A interrupção acabou criando uma situação que dialogava diretamente com a própria dramaturgia do espetáculo. Enquanto a obra contava a história de Ajuricaba e sua resistência diante da colonização, a apresentação se deparava, no presente, com uma intervenção externa. Pessoas que acompanhavam a ação chegaram a se manifestar diante da interrupção.

Mensagens e encontros
Como parte da proposta itinerante, o grupo desmontou a estrutura e continuou o percurso. No caminho entre uma estação e outra, os artistas seguiram pelas ruas carregando faixas com frases de reflexão:
- “Nada está separado”
- “Sorrir. Brincar. Dançar”
- “Você já viu o que está à sua volta?”
- “Somos parte do mesmo corpo”
O ator Chico Kaboco também distribuiu as chamadas “Cartas de Ajuricaba” ao povo manauara. Os impressos reuniam pequenos textos que apresentam reflexões relacionadas ao bem comum, à liberdade e à valorização das diferentes formas de vida.
Emoção no ponto
Na segunda estação, em frente à parada de ônibus do Colégio Dom Bosco, vendedores ambulantes e passageiros ajudaram a reorganizar as faixas no espaço. Os artistas Elizete Tikuna e André Cavalcante buscavam a atenção das pessoas que aguardavam o transporte, provocando a interação com a apresentação.
Foi nesse momento que surgiu um dos encontros mais simbólicos da experiência. Uma mulher chamada Dona Etelvina pediu a palavra para falar sobre seu orgulho de ser manauara e amazonense. Ela contou que conhecia a história de Ajuricaba e que havia estudado no Instituto de Educação do Amazonas. A participação espontânea atravessou a encenação e se tornou parte daquele momento.

Arte contra o medo
Para o idealizador do espetáculo, Dimas Mendonça, a imprevisibilidade é a essência da criação no espaço público.
“As pessoas não estão esperando por aquilo. Às vezes, nem sabem que querem ver, ouvir ou participar. É tudo uma surpresa. A rua já está acontecendo quando a arte chega”, afirmou Dimas Mendonça.
Segundo o idealizador, durante o processo de construção da obra, o grupo percebeu que a experiência cotidiana das ruas de Manaus é frequentemente marcada por situações associadas ao medo e à violência. A criação buscou interferir nessa paisagem por meio de outros estímulos, propondo a alegria, o encontro e a percepção do que existe ao redor como possibilidades de experiência.
Conexão com a terra
Para o ator Chico Kaboco, a escolha pelo teatro de rua está relacionada ao desejo de romper limitações de acesso existentes no teatro tradicional.
“Quando a proposta de um espetáculo é pensada para o palco, o espetáculo é condicionado a um público. O sistema limita vagas e idades para as pessoas prestigiarem o espetáculo. Ajuricaba-Me virou as costas para o palco porque gostaríamos de encontrar o sentido da vida”, destacou Chico Kaboco.
O ator reforça que a obra busca provocar uma reflexão sobre cidadania e sobre a relação do indivíduo com o meio ambiente.
“Ajuricaba fala do amor próprio consigo e com os outros. E os outros não são só pessoas, é algo muito maior. Estou me referindo à terra, árvore, rio, aves, animais e todos os tipos de seres vivos que habitam este planeta. Porque nada está separado: tudo é um corpo, e um precisa do outro”, declarou Chico Kaboco.
Por conta disso, o espetáculo é atravessado pela presença e referência à cultura indígena. Para a artesã e multiartista do povo Ticuna, Elizete Tikuna, que integra o elenco, a relação com o personagem desperta uma conexão importante entre corpo, território e ancestralidade.
“As pessoas na rua respeitaram a gente como corpo-território e ancestrais”, afirmou Elizete Tikuna.
Origem e trajetória
A montagem “Ajuricaba-Me” integra uma pesquisa do grupo “Processo Natimorto” iniciada em 2018 com a trilogia “ABAPORUTUS”. A trajetória artística se desenvolveu nas seguintes etapas:
- Início com a peça “Tartufo-Me”, inspirada na obra de Molière;
- Continuidade com “Hamlet-Me”, a partir da obra de Shakespeare, em 2025;
- Chegada à figura histórica amazonense com “Ajuricaba-Me”.
Inspirado também na peça “A Paixão de Ajuricaba”, do escritor e dramaturgo amazonense Márcio Souza, o espetáculo não pretende apenas recontar a história de seu protagonista. A proposta é colocar Ajuricaba em contato com a cidade atual e investigar quais memórias permanecem, quais foram apagadas e o que pode surgir quando uma história do território volta a ocupar as ruas.
Depois dessa primeira incursão pelas ruas do Centro de Manaus, fica uma pergunta que atravessa a criação: como fazer da cidade novamente um lugar de encontro, presença, alegria e liberdade? A resposta, para o grupo “Processo Natimorto”, passa pela percepção de que é preciso voltar a olhar para o vento, o sol, as águas, as árvores, os bichos e as outras pessoas, lembrando sempre de que nada está separado.
Ficha técnica completa
- Espetáculo: “Ajuricaba-Me”
- Idealização e apoio técnico: Dimas Mendonça
- Atuação: Chico Kaboco, André Cavalcante e Elizete Tikuna
- Apoio: Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Estado do Amazonas (SINTTEL) e Cia. de Teatro Vitória Régia
- Realização: “Processo Natimorto”
- Fotos: André Cavalcante
ASCOM: Maria Fernanda Carmim










