
A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de autorizar um remédio experimental para o influenciador Lito Sousa levantou questionamentos sobre o acesso a tratamentos raros no Brasil. Para afastar boatos sobre suposta ajuda de políticos ou empresários, Mila Seidl, esposa do especialista em aviação, publicou um vídeo no sábado, dia 5 de setembro, detalhando como conseguiu a liberação do produto contra uma doença neurológica sem cura.
Em seu pronunciamento público, Mila Seidl negou categoricamente que tenha recorrido a facilitação política ou recursos financeiros de terceiros para obter a autorização do medicamento experimental ALN-6457. Ela enfatizou que todo o procedimento seguiu os canais institucionais e científicos cabíveis, sem atalhos ou favores excepcionais.

“Foi um processo regular. Não tem um centavo de dinheiro público. Vocês não me viram abrir vaquinha. Não teve ajudas excepcionais”, disse Mila Seidl ao detalhar os caminhos percorridos.
O mecanismo especial
A substância ALN-6457, desenvolvida pela farmacêutica Regeneron Pharmaceuticals, não possui registro comercial e nem representante legal no território brasileiro. Por essa razão, a liberação ocorreu por meio da modalidade de uso compassivo, uma norma que autoriza pacientes com enfermidades graves e sem alternativas terapêuticas disponíveis no mercado a utilizarem remédios ainda em estágio de testes.
A articulação exigiu uma mobilização complexa e direta entre a família, a equipe médica do Hospital Israelita Albert Einstein, a própria Anvisa, o Ministério da Saúde e a agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA).
A burocracia invisível
Apesar da conquista no tratamento do marido, Mila Seidl criticou a falta de informações claras para o cidadão comum que enfrenta momentos parecidos. A falta de orientação acessível torna o processo quase inviável para a maioria das famílias brasileiras sem suporte especializado.
“É um direito de qualquer pessoa que está numa situação semelhante. A dificuldade é que essas informações não são claras”, pontuou Mila Seidl.
A crítica traz um ponto importante sobre a igualdade no sistema de saúde. Embora a regra valha para todos na teoria, a complexidade dos trâmites administrativos transforma uma permissão legal em um obstáculo difícil para a maior parte da população.
Uma doença devastadora
A busca pelo remédio em fase de testes ocorre por conta do diagnóstico de Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade priônica rara, neurodegenerativa, progressiva e que não possui cura até o momento. O quadro clínico se manifesta inicialmente com perda de memória, demência e tremores, evoluindo para danos severos em múltiplas regiões do cérebro.
Dados do Ministério da Saúde mostram a raridade do problema no país. Entre os anos de 2005 e 2021, o Brasil registrou 1.576 notificações de casos suspeitos de Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Desse total, apenas 34% foram confirmados por exames, somando cerca de 547 confirmações ao longo de 16 anos. A busca por alternativas medicinais renova a cobrança por mais incentivo à pesquisa e amparo a pacientes acometidos por condições raras.










