
A convenção do Partido dos Trabalhadores (PT) realizada neste domingo (2/8) no Expo Center Norte em São Paulo oficializou o que os bastidores já antecipavam. O presidente Lula lançou sua candidatura à reeleição para o pleito de 2026.
Aos 80 anos de idade e caminhando para a sua sétima disputa presidencial, o atual mandatário discursou por uma hora e dez minutos sem o auxílio de teleprompter e deixou claro que a versão conciliadora do passado ficou para trás. A promessa agora é encarnar um governante mais enérgico frente ao congresso.
“Prometo ser um Lulinha porreta em vez do Lulinha paz e amor“, afirmou o presidente da República.
Essa guinada discursiva revela um candidato que não quer ser lembrado exclusivamente pelas políticas de transferência de renda e que exige propostas mais ousadas de sua equipe. O alvo principal desse novo tom é o atual modelo de emendas parlamentares que drena a capacidade de investimento do poder executivo.
“Eu não quero ser apenas o presidente do Bolsa Família”, cobrou Lula.
“Vai ter briga com emenda parlamentar. Vai ter briga com o papel que tem o Poder Legislativo”, declarou o petista.
Defesa e minérios
A pauta da soberania nacional ganhou contornos pragmáticos no discurso presidencial. Lula surpreendeu ao exigir que a esquerda supere os traumas do regime ditatorial e apoie maiores investimentos nas Forças Armadas.
Como justificativa, o petista usou o exemplo da Venezuela e as investidas externas promovidas por tropas americanas contra o então mandatário Nicolás Maduro.
“Eu quero pedir para a esquerda parar com essa bobagem de achar que a gente não quer ter preocupação com a defesa. Eu sei que tem gente que tem trauma da ditadura militar. Mas, gente, o tempo passa”, disparou o candidato.
“Eu quero estar preparado para que ninguém invada esse país para levar o presidente”, justificou Lula.
A preocupação com a segurança se estende às riquezas naturais. O Brasil abriga imensas reservas de minerais críticos indispensáveis para o mercado global de baterias elétricas de alto desempenho. O líder do executivo mandou um recado direto aos interesses estrangeiros que cobiçam esses recursos em meio à disputa entre os Estados Unidos e a China.
“Essas terras raras, nem chinês, nem americano, nem francês vão meter o dedo nas nossas terras raras. Tem muita gente metendo o dedo no nosso nariz”, cravou o presidente.
Eleições e contradições
O cenário eleitoral de 2026 coloca Lula novamente frente a frente com o clã Bolsonaro. Após recuar da promessa de que não tentaria a reeleição devido à idade avançada, o petista agora enfrenta o senador Flávio Bolsonaro do Partido Liberal (PL). O clima de rivalidade rendeu até comparações futebolísticas com os grandes craques mundiais Cristiano Ronaldo e Lionel Messi que disputaram seis copas cada um.
“O Pelé, que foi o grande astro do futebol do século 20, considerado o atleta do século, só disputou quatro Copas. O que eles não sabem é que essa Copa minha é a sétima”, ironizou o atual mandatário.
Os números da última pesquisa Datafolha mostram um cenário inicial competitivo. Lula aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno contra 32% de Flávio Bolsonaro. Em um cenário mais provável de segundo turno, o petista lidera com 48% contra 43% do adversário, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.
No entanto, a convenção foi marcada por silêncios estratégicos sobre assuntos espinhosos. Não houve menção ao desgaste gerado pelas investigações da Polícia Federal (PF) contra Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente. O partido também ignorou as investigações envolvendo o senador Jaques Wagner e o Banco Master.
Wagner não compareceu ao evento em São Paulo após receber pedidos de voto de Lula no sábado durante convenção na Bahia. A atitude rendeu uma autocrítica sobre a propaganda eleitoral antecipada já que a legislação só permite o ato após 16 de agosto.
“Eu falei na Bahia, pedi voto e vou ser multado”, admitiu Lula.
Curiosamente, a militância poupou as denúncias contra o próprio Flávio Bolsonaro, que pediu e recebeu recursos financeiros do empresário Vorcaro para a produção do filme Dark Horse sobre a trajetória de seu pai.
Mulheres no palanque
A organização do evento cometeu um erro político expressivo ao escalar inicialmente apenas homens para discursar. Lula quebrou o protocolo e chamou sua esposa Janja da Silva ao microfone para corrigir a falha na programação. Ela usava uma camiseta com a impressão do rosto do marido na infância e fez uma fala breve sobre as mulheres precisarem sempre se afirmar em todos os espaços.
“Não é possível que a gente tenha esquecido, no principal evento da nossa campanha, de ter colocado uma mulher para falar”, lamentou Lula.
O aceno ao eleitorado feminino incluiu ataques diretos aos agressores.
“O cara vai ter que escolher ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se ele bater na mulher, não precisa votar em mim”, exigiu o petista.
Aliados e discursos
A estratégia do partido priorizou encurtar a convenção para focar as energias no primeiro grande ato de campanha marcado para 16 de agosto no Estádio Primeiro de Maio na Vila Euclides, berço político do petista em São Bernardo do Campo.
Mesmo assim, os discursos dos aliados ditaram o tom da campanha com forte apelo ao resgate das cores verde e amarelo pela militância, o uso de um imenso bandeirão do Brasil nas arquibancadas e o repúdio à influência do presidente americano Donald Trump e do presidente argentino Javier Milei.
O vice Geraldo Alckmin do Partido Socialista Brasileiro (PSB) criticou a tentativa de golpe após as eleições passadas e a descrença no sistema eleitoral promovida pela oposição.
“Quem não acredita no voto popular não deveria nem ser candidato a presidente. A descrença das urnas é cheiro de fumaça de derrota. A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”, provocou Geraldo Alckmin, que arrancou gritos da plateia ao brincar que o país repetiria a receita do lula com chuchu.
O presidente nacional do partido, Edinho Silva, ressaltou que rechaçar o entreguismo e enfrentar o fascismo representa uma escolha de legado para as próximas gerações que terá impactos em todo o mundo democrático e na América do Sul.
O antigo ministro e atual candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, incluído de última hora na lista de oradores, exaltou a independência diplomática do governo ao afirmar que o presidente governa sem botar boné de nenhum outro país.
A fala mais emblemática sobre o futuro do grupo político partiu do próprio Lula ao sugerir que Haddad é o seu sucessor natural para as próximas disputas.
“Qual é o país do futuro que eu vou entregar, quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, estiver sendo presidente da República?”, questionou o presidente.










