
Por Estagiário De Lara
Como observador da política nacional, percebo que o Brasil se consolidou como o país das duas medidas. De um lado, acompanhamos o silêncio complacente quando uma escola de samba transforma Luiz Inácio Lula da Silva em estrela máxima do carnaval. Do outro, vemos a superprodução “Dark Horse”, que narra a trajetória de Jair Bolsonaro, virar alvo de uma devassa judicial e política antes mesmo de estrear. A guerra de narrativas expõe a hipocrisia de todos os lados envolvidos.
Silêncio cultural
A esquerda sabe usar a cultura popular com maestria. Quando o lulismo desfila na avenida com patrocínios milionários, ninguém no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou na Procuradoria-Geral da República (PGR) fala em abuso de poder econômico ou em propaganda eleitoral antecipada. Tudo é tratado como mera manifestação artística livre. Essa aceitação cultural garante um salvo conduto perfeito para fazer política partidária no meio do carnaval.
Aposta no cinema
Tentando ocupar esse mesmo espaço de influência, a direita resolveu investir na sétima arte com a obra “Dark Horse”. A produção tem o custo estratosférico de R$ 134 milhões e o lançamento está marcado para 11 de setembro de 2026. O objetivo claro é influenciar o eleitorado a poucos dias da eleição nacional marcada para 4 de outubro. A ideia de criar um épico político esbarrou na própria desorganização e em polêmicas graves nos bastidores da produção.
Áudios vazados
O projeto virou munição para os opositores após o vazamento de áudios do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), que tenta viabilizar o seu nome para a Presidência da República. Nas gravações, ele cobra repasses financeiros de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. O grande desgaste na imagem do senador ocorre porque Vorcaro está preso sob suspeita de fraude bancária. As visitas e reuniões mantidas em segredo após a prisão preventiva deram aos adversários o pretexto perfeito para atacar o filme.
Investidor de todos
O detalhe que escancara a hipocrisia do cenário político é que o mesmo Daniel Vorcaro não é um mecenas exclusivo da direita. O empresário também despejou investimentos pesados nas produções cinematográficas do ex-presidente Michel Temer (MDB), e do atual presidente Lula, (PT). O fato de o mesmo bolso financiar filmes de líderes de espectros políticos totalmente opostos mostra que, no fundo, a indignação atual da oposição é puramente seletiva e o capital financeiro flui livremente para quem está ou pode chegar ao poder.
Ofensiva judicial
Aproveitando a fragilidade e a exposição, a máquina política adversária foi acionada de forma fulminante. O deputado federal Rogério Correia (PT), junto com o grupo Prerrogativas, correu ao TSE e à PGR pedindo a proibição sumária da exibição da obra cinematográfica. Ao mesmo tempo, o STF analisa uma investigação preliminar provocada pela deputada Tabata Amaral (PSB). A parlamentar questiona o possível desvio de emendas parlamentares para a produção do filme.
Lista de acusações
A oposição levanta a hipótese de diversos crimes para tentar barrar a estreia do filme nos cinemas. As representações apresentadas aos órgãos de controle incluem as seguintes infrações graves apontadas pelos parlamentares
- Lavagem de dinheiro: ocultação da origem real dos valores investidos na obra
- Fraude cambial: irregularidades em transações financeiras internacionais
- Falsidade documental: manipulação de registros formais e contratos da produção
- Evasão de divisas: envio ilegal de recursos financeiros para o exterior
Defesa e contradições
Os responsáveis pela produção negam todas as irregularidades de forma categórica. O deputado federal Mário Frias (PL), que atua como produtor executivo e roteirista, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), ligado à gestão financeira, garantem que não existe dinheiro público no projeto e que a obra não tem contexto eleitoral direto. A defesa cita pareceres da Advocacia da Câmara que atestam a legalidade dos atos.
O problema prático é que a produção enfrenta diversas queixas trabalhistas, com denúncias de atrasos salariais, assédio e agressões contra profissionais da equipe, revelando uma gestão no mínimo tumultuada.
O eleitor no meio
Para mim, o episódio ilustra perfeitamente a balança desregulada da nossa república.
Enquanto a esquerda blinda suas campanhas carnavalescas sob o manto intocável da cultura, a direita tenta criar sua própria narrativa cinematográfica, mas tropeça em alianças questionáveis e em uma gestão amadora.
E, nos bastidores, o mesmo banqueiros investigados financia o cinema de Lula, Temer e Bolsonaro sem qualquer distinção ideológica.
No final das contas, quem perde é o cidadão, que se torna refém de um sistema onde a justiça e a indignação moral agem com rigores muito diferentes dependendo de qual lado do espectro assina a obra.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal O Povo Amazonense.










