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O espelho mágico do STF e os R$ 249 mil para vigiar o que você fala na internet

Por Estagiário De Lara

Como jornalista já vi muita coisa na vida, mas a máquina burocrática estatal sempre encontra uma forma de nos surpreender com sua formidável capacidade de torrar o dinheiro do pagador de impostos.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu abrir licitação para contratar uma empresa especializada em acompanhamento e análise de sua presença digital.

Na prática, meus caros, é uma operação de inteligência com requintes de ficção científica para vigiar o que andam falando da corte e de seus membros na internet.

A ordem é clara e não permite absolutamente nenhum descanso aos olhos do estado. O monitoramento será feito de forma ininterrupta, cobrindo 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante os 365 dias do ano. Nada escapa ao radar e o documento oficial não esconde a obsessão pelo controle narrativo.

“A contratada deverá emitir alertas de menções diários e imediatos sobre temas diretamente relacionados ao universo do Supremo Tribunal Federal incluindo seus julgamentos e ministros expressamente citados com potencial de repercussão”, diz o edital.

Preço da vaidade

Toda essa engenharia de vigilância tem o valor máximo admitido de R$ 249 mil. O certame adotará o critério de julgamento por menor preço e a sessão pública está agendada para o dia 11/05 às 14h.

O detalhe mais curioso é que a corte já havia contratado uma empresa em 2024 para realizar esse mesmo monitoramento, com término previsto apenas para julho de 2025.

A nova licitação ocorre justamente no calor de um momento de crise causado pela investigação sobre o Banco Master.

Em nota enviada à imprensa na sexta feira 24/04 a assessoria de comunicação do tribunal tentou dar ares de absoluta normalidade ao espetáculo, destacando que a iniciativa é uma prática amplamente adotada por órgãos da administração pública e por instituições de diferentes setores.

“O objetivo é ampliar o diálogo com a sociedade por meio de informações qualificadas, acessíveis e contextualizadas”, afirmou a assessoria da corte.

Raio x digital

A empresa que vencer essa corrida do ouro terá passe livre para vasculhar e levantar conteúdos em uma infinidade de plataformas digitais, incluindo o X antigo Twitter, Instagram, YouTube, Facebook, TikTok, LinkedIn, Kwai e Discord.

O serviço é um verdadeiro banquete de métricas de ego. Inclui a avaliação das citações aos temas de interesse, medindo a abrangência, a relevância e até a sentimentalização do público. Sim, o sentimento nacional será devidamente tabelado e as ações organizadas na web serão mapeadas.

Alvo nos influenciadores

A patrulha vai muito além do cidadão comum. O contrato exige o levantamento dos principais formadores de opinião que debatem os assuntos afetos ao tribunal. A empresa vai entregar uma análise rigorosa do posicionamento, da influência e da capacidade de repercussão de cada um desses atores.

Os serviços exigidos são dignos de um aparato de espionagem.

  • Envio de pelo menos 30 alertas diários, podendo chegar a 300 notificações sobre temas com potencial de repercussão via WhatsApp ou outros meios acordados.
  • Documentos diários e mensais com análises quantitativas e qualitativas, identificação de tendências, mapeamento de influenciadores e avaliação do impacto na opinião pública.
  • Acesso a painéis visuais com gráficos e tabelas atualizados recorrentemente.

Desculpa oficial

A justificativa oficial compara todo esse aparato a um simples clipping de notícias, serviço que já é realizado diariamente com matérias jornalísticas de veículos de imprensa.

A corte alega a necessidade de uma estrutura tecnológica robusta que evite falhas na comunicação estratégica com a sociedade, considerando o expressivo número de usuários e interações. O contrato terá vigência inicial de até 24 meses e pode ser prorrogado.

“O objetivo é reunir e sistematizar conteúdos de acesso público, permitindo à área de comunicação compreender demandas informacionais e orientar ações voltadas à transparência e ao esclarecimento de temas relevantes”, disse a corte à reportagem.

Equipe de plantão

Para lidar com a alta complexidade e o volume colossal de dados, estimado em uma média assustadora de 500 mil menções diárias, o edital sugere uma equipe mínima de quatro profissionais dedicados exclusivamente para garantir o atendimento ininterrupto.

As licitantes ainda precisam comprovar capacidade técnica prévia em serviços similares por no mínimo seis meses.

Em suma, o dinheiro público financia o espelho mágico que dirá a eles quem é o mais belo e quem ousa discordar no vasto reino da internet.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/stf-quer-gastar-ate-r-249-mil-para-monitorar-o-que-dizem-sobre-a-corte-nas-redes/

 

 

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