
O município de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus) se prepara para sediar o 2º Workshop de Arqueologia Amazônica entre os dias 25 de maio e 6 de junho de 2026. Com o tema central focado na socialização de técnicas e métodos aplicados nas pesquisas em campo, o evento joga luz sobre um debate profundo, a urgência de descentralizar o investimento científico para além da capital e valorizar a preservação do patrimônio histórico regional.
O encontro recebe o apoio estratégico do Governo do Amazonas por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
A iniciativa busca consolidar um espaço de diálogo prático e teórico a respeito das metodologias utilizadas em escavações concluídas e em andamento.
Ao reunir profissionais com longa trajetória de atuação, o workshop promove uma ponte necessária entre o conhecimento acadêmico de ponta e a realidade de conservação dos sítios históricos locais, muitas vezes vulneráveis ao avanço urbano sem planejamento.
Impacto social e acadêmico
A coordenação dos trabalhos está sob a responsabilidade da doutora em antropologia Clarice Bianchezzi, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
A especialista defende que o treinamento prático e a discussão metodológica são pilares fundamentais para qualificar a formação dos estudantes do curso de Bacharelado em Arqueologia da instituição, aproximando a teoria das demandas populares.
“Espera-se, com esse evento, maior mobilização social em torno do tema do patrimônio arqueológico, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, produzindo reflexões capazes de conjugar a reflexão acadêmica e as demandas dos coletivos humanos locais”, afirmou Clarice Bianchezzi, ressaltando o papel inclusivo da ciência.
Programação em campo
O cronograma do evento prevê a realização de rodas de diálogo e minicursos voltados ao desenvolvimento de pesquisas em áreas de Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), arqueobotânica e análise de cerâmicas do estilo Kondury.
Outro ponto que desperta grande interesse acadêmico gira em torno das discussões sobre arqueologia funerária na bacia amazônica.
O diferencial prático desta edição será a execução de atividades em lócus, realizadas diretamente em um sítio arqueológico localizado no centro urbano de Parintins.
A oportunidade permite que os estudantes inscritos acompanhem dinâmicas reais de escavação, identificación de artefatos e mapeamento de solo.
O público-alvo atinge de 150 a 200 participantes, envolvendo alunos de Arqueologia, História, Física, Biologia, Pedagogia e Geografia da UEA, além de professores da rede de educação básica e moradores da comunidade em geral.
Grandes nomes confirmados
Para qualificar o nível dos debates técnicos, a organização confirmou a presença de cientistas de expressão nacional. Um dos grandes destaques da programação é Eduardo Góes Neves, arqueólogo e coordenador do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE/USP), que acumula mais de 30 anos de estudos de campo na região e colaborou na criação da própria graduação em Arqueologia no estado do Amazonas.
A lista de convidados inclui ainda outros pesquisadores de destaque no cenário nacional.
- Anne Py-Daniel: Professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e especialista em Arqueologia Funerária.
- Eduardo Kazuo Tamanaha: Pesquisador colaborador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).
- Laura Furquim: Pós-doutoranda do MAE/USP com investigações na área de arqueobotânica amazônica.
- Helena Lima: Arqueóloga vinculada ao Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).
- Marcony Alves: Especialista em tipologias de cerâmica Kondury.
- Carlos Augusto da Silva: Arqueólogo aposentado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Incentivo à pesquisa regional
O financiamento do workshop ocorre por meio do Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos e Tecnológicos (PAREV), uma linha de fomento mantida pela FAPEAM. O programa visa descentralizar os recursos, estimulando o intercâmbio de dados científicos através de congressos, simpósios e oficinas sediados em diferentes calhas de rios do estado.
Embora o apoio governamental mereça reconhecimento, o cenário atual da arqueologia no interior ainda enfrenta o desafio histórico de obter verbas contínuas para a manutenção de laboratórios e a salvaguarda de acervos após o encerramento dos eventos.
O workshop em Parintins cumpre um papel pedagógico excelente, mas também serve de alerta para a necessidade de políticas públicas permanentes que protejam o subsolo amazônico da degradação e do esquecimento.










