
Na próxima quarta feira, 29 de abril, a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) presenciará um marco histórico. A atriz e pesquisadora Correnteza Braba se tornará a primeira pessoa trans, em mais de três décadas de existência do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), a defender uma dissertação e conquistar o grau de mestra pelo curso.
A defesa ocorre às 14h, no miniauditório do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), com as portas abertas para quem desejar acompanhar.
“Sou uma pessoa trans não-binária, que produz e acredita no Teatro, na Educação e na Ciência produzida na Amazônia”, declarou Correnteza Braba.
Para ela, ocupar este espaço é uma forma de provocar transformações em uma estrutura institucional que, em sua visão, precisa ser renovada.
Quebra de paradigmas
A trajetória de Correnteza na vida acadêmica é vista como um gesto político de reparação histórica. A pesquisadora acredita que sua presença ajuda a promover mudanças necessárias para que o ambiente universitário seja mais inclusivo.
“Que eu seja a primeira de muitas e que, cada vez mais, estejamos ocupando espaços e cargos em nossa sociedade. Que estejamos nas salas de aula, como estudantes e professoras e, quiçá, ocupemos a reitoria de grandes universidades”, enfatizou Correnteza Braba.
Foco da pesquisa
Com o título “Terreiro-Escola na cidade de Manaus: processos afro-educacionais no Recanto de Preta Mina Ilê de Iansã”, o projeto de pesquisa mergulha nos processos de aprendizado dentro de um terreiro de Omolokô.
O estudo analisa como as artes e as práticas espirituais de vertentes afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, contribuem para a formação dos indivíduos em rituais iniciáticos.
Escrevivência e método
O trabalho foi desenvolvido por meio do método etnográfico, que exige a convivência direta com o ambiente estudado. Correnteza acompanhou de perto os rituais para transformar a observação em conhecimento científico.
Além disso, ela utilizou o conceito de escrevivências, criado pela escritora Conceição Evaristo. Essa abordagem valoriza a história de vida de quem pesquisa, reconhecendo a trajetória pessoal como uma fonte legítima de saber, rompendo com a ideia de uma ciência neutra.
Raízes urbanas
A dissertação também resgata a história de Manaus, analisando os conflitos entre a elite e as populações negras, indígenas e migrantes. Segundo a pesquisa, esses embates deram origem às primeiras favelas da capital amazonense.
Nesses territórios, as culturas afro-diaspóricas se consolidaram através da religiosidade, apesar da marginalização e da estigmatização registradas em arquivos policiais da época.
Resistência no terreiro
O foco central é o Recanto de Preta Mina Ilê de Iansã, fundado em 1974 no bairro do Educandos por Tatazazi Adalberto Nunes de Xangô. O local é apresentado como um espaço de resistência e produção de saber afrocentrado.
O estudo reforça a importância de uma educação que valorize as culturas africanas e brasileiras, em conformidade com a Lei nº 10.639/03, que torna obrigatório esse ensino nas escolas do país.
Trajetória artística
Correnteza Braba é graduada em Licenciatura em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e possui uma carreira premiada. Ela foi eleita Melhor Atriz no “Festival de Teatro da Amazônia” em 2024 e 2025 pelos espetáculos “Lágrimas Negras” e “Mojubá”. Além de pesquisadora, ela é yawô de Oxum, cofundadora da “Café Preto Produções Artísticas” e crítica de artes cênicas.
“Ser uma filha de santo do terreiro Recanto de Preta Mina e ter a oportunidade de ocupar a pós-graduação em uma universidade pública no Amazonas, escrevendo sobre nossos modos de vida, que apontam para uma Educação igualitária, libertadora e afro-centrada na Amazônia, é uma oportunidade grandiosa”, afirmou a pesquisadora.
Detalhes do evento
- O quê: Defesa de mestrado de Correnteza Braba.
- Onde: Miniauditório do PPGE no IFCHS, dentro do campus da UFAM.
- Quando: 29 de abril de 2026.
- Horário: 14h (horário de Manaus).
- Acesso: Aberto ao público.
ASCOM: Vívian di Oliveira










