
O Amazonas enfrenta um gargalo histórico que afeta diretamente a dignidade de sua população. Estimativas da Fundação João Pinheiro (FJP), calculadas com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do IBGE, apontam que o estado carrega um déficit superior a 120 mil moradias. Na prática, esse número significa que cerca de 600 mil pessoas não possuem casa própria, com a imensa maioria concentrada na capital.
O tamanho do problema social exige urgência na criação de políticas públicas focadas em reduzir o custo final dos imóveis, facilitar as linhas de financiamento habitacional e estimular a construção de novos conjuntos populares.
Avanços no acesso
Apesar de o abismo habitacional continuar acentuado, o estado registrou avanços por meio do programa “Amazonas Meu Lar”, coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb).
Entre os anos de 2019 e 2026, a iniciativa alcançou 31.184 famílias. Desse total, 21.931 receberam a regularização fundiária de seus lotes, enquanto 9.253 foram contempladas diretamente com moradias, subsídios para compra, aluguel social, auxílio-moradia ou indenizações de reassentamento.
Para o engenheiro civil Marcellus Campêlo, ex-secretário da Sedurb e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), as ações estaduais provam que barreiras históricas de moradia podem ser rompidas. No entanto, ele pondera que baratear os imóveis exige atacar fatores estruturais de custo que oneram as obras muito antes de as chaves serem entregues.
“Não existe uma solução única. É preciso reduzir custos, facilitar o financiamento e criar um ambiente que estimule a construção de mais moradias populares”, afirma Campêlo, que se desincompatibilizou dos cargos públicos em março deste ano para colocar seu nome à disposição do União Brasil Amazonas como pré-candidato a deputado estadual.
Impacto do subsídio
Um dos caminhos de maior impacto prático tem sido o Subsídio Entrada do Meu Lar, braço do programa estadual voltado a ajudar famílias de baixa renda na quitação do valor de entrada do financiamento. Até o momento, foram concedidos 2.874 subsídios, acumulando investidos de R$ 86,6 milhões.
“O subsídio reduz uma das principais barreiras para quem deseja financiar o primeiro imóvel. Com isso, mais famílias conseguem acessar o crédito, enquanto a construção civil ganha dinamismo, gera empregos e impulsiona novos empreendimentos”, destaca Campêlo.
O benefício de R$ 30 mil muda trajetórias de vida, como ocorreu com a babá Heide Luciane Costa, de 41 anos, que é mãe da jovem Letícia Leandra, de 14 anos.
“Sou muito grata pelo programa. O subsídio de R$ 30 mil foi fundamental para dar entrada no meu apartamento. Sem essa ajuda seria bem difícil conseguir minha casa própria. Já imagino cada cantinho da minha nova casa e como será essa nova fase da minha vida”, conta Heide.
A mudança também fez parte dos planos do servidor público Eric Willy Silva, de 30 anos. Ele morava com a mãe e a irmã quando encontrou no feirão habitacional de 2024 a chance de financiar o primeiro apartamento para residir com sua companheira.
“Mais do que comprar um imóvel, esse subsídio nos deu a oportunidade de começar uma nova etapa da nossa vida. Sem esse apoio, levaríamos muito mais tempo para conseguir dar entrada no apartamento”, afirma Eric.
Entraves do setor
Para Marcellus Campêlo, ampliar os programas vigentes é vital, porém insuficiente sem reformas macroeconômicas. O engenheiro aponta as principais barreiras que travam a redução dos preços imobiliários no estado:
- Carga de impostos pesada: O setor produtivo cobra ajustes urgentes na regulamentação da Reforma Tributária, evitando que as novas alíquotas encareçam a habitação de interesse social e penalizem o consumidor final.
- Burocracia excessiva nos licenciamentos: Projetos que passam meses travados em órgãos de regulação geram custos financeiros que acabam embutidos no preço de venda das unidades.
- Escassez de incentivos fiscais: Há necessidade de isenções tributárias específicas para construtoras que investem em infraestrutura urbana básica, como redes de água, esgoto, drenagem e asfalto ao redor dos novos conjuntos.
- Insegurança jurídica para investimentos: A instabilidade de regras afasta novos capitais e encarece as operações de crédito das empresas.
Reflexos na economia
O fortalecimento da habitação popular gera impactos que vão muito além do bem-estar social, funcionando como combustível para o Produto Interno Bruto (PIB) regional.
Dados divulgados em conjunto pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Amazonas (Sinduscon-AM) e pela Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Amazonas (Ademi-AM) revelam que Manaus movimentou R$ 3,4 bilhões em vendas de imóveis do programa federal “Minha Casa, Minha Vida” em 2025, registrando expansão de 24% na comparação com o período anterior.
O programa estadual “Amazonas Meu Lar” foi classificado pelas entidades como principal motor para a alta recorde de 59% no Valor Geral de Vendas (VGV) no terceiro trimestre de 2025. O resultado isolou o Amazonas como o estado com o maior volume de negócios imobiliários de toda a região norte do país.
O setor produtivo amazonense acumulou R$ 2,738 bilhões em VGV de janeiro a setembro de 2025, superando todo o desempenho do ano de 2024, que fechou em R$ 2,55 bilhões. Os números confirmam que a habitação social é chave para aliar justiça urbana com dinamismo financeiro.
Fonte: ASCOM










