
Por Raimundo Fabricio Paixão (*)
Os debates estão marcados menos pelo que se diz e mais pelos ausentes. Boa parte dos líderes das pesquisas estaduais e nacionais não estão indo. E, claro, a lei permite. O artigo 46 da Lei das Eleições obriga as emissoras a convidar os candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso, mas não obriga ninguém a comparecer. Não há multa nem qualquer outra sanção. Prevalece, nesse cenário, o cálculo do risco de imagem. Substitui-se o espaço que deveria ser de confronto de ideias e apresentação de projetos.
O Brasil conhece o peso de um debate. Em 1989, na primeira eleição direta depois da ditadura, o país parou para ver Collor e Lula frente a frente, uma lição amarga sobre o poder da televisão. Kennedy e Nixon, ainda na década de 60, já tinham inaugurado o debate televisivo e provado que a imagem decidiria eleições. Em 2018, Jair Bolsonaro não compareceu a nenhum debate do segundo turno e venceu a eleição. O que era visto como suicídio político revelou-se atalho eficiente, e a cadeira vazia já não assustava os faltantes. O que estamos vendo em 2026 é a consolidação de uma aprendizagem.
Não podemos esquecer o declínio da audiência da televisão. Nos Estados Unidos, o formato tradicional ruiu em 2024. Os candidatos falam agora com suas bolhas, por algoritmo, sem contraditório.
Risco de imagem
As ausências são explicáveis do ponto de vista do marketing e da política. O raciocínio das campanhas aponta que o líder nas pesquisas não tem o que ganhar num palco onde todos atiram contra ele. Debater é expor-se, e expor-se é arriscar o capital acumulado nas pesquisas. O problema dessa racionalidade estratégica seria a sua consequência, a eleição de mascarados. A eleição se esvazia como experiência pública e se converte, exageradamente, em disputas de imagem. Vence quem possui a melhor imagem projetada num espelho ilusório.
Democracia não trilha o caminho das sombras. O debate eleitoral é um bom momento de expor a naturalidade. Sem filtros, pois ali não se escolhe a pergunta, não se pede corte na edição e não se controla o ângulo da câmera. Aliás, precisamos do poder visível de que falava Norberto Bobbio. O rei precisa estar nu, desnudo. As indumentárias podem esconder intenções nada republicanas.
Obrigatoriedade e lições
Até que surgiu no Congresso a proposta de tornar o comparecimento obrigatório, com corte de tempo de propaganda e de recursos do fundo para quem faltar. A intenção é compreensível. Mas é possível legislar coragem? A obrigação garante corpos no estúdio, mas não garante debate. Um candidato pressionado comparece, responde com evasivas por noventa minutos, cumpre a letra da lei e frustra o espírito dela.
A Argentina tentou o caminho da obrigação. Desde 2016, uma lei impõe a presença dos presidenciáveis em debates oficiais, sob sanções. Os candidatos passaram a comparecer, é verdade. Comparecem, leem respostas ensaiadas dentro de blocos cronometrados e vão embora sem que ninguém tenha sido realmente confrontado. A experiência vizinha sugere que a lei consegue produzir rito sem substância. Guy Debord já havia avisado que o espetáculo é uma relação social mediada por imagens. Um debate obrigatório e sem risco apenas acrescenta corpos presentes-ausentes a um cenário falseado.
Papel do eleitor
Talvez o debate autêntico pertença àquela categoria de coisas que só existem quando são voluntárias. Talvez o caminho esteja para além da sanção, em algum tipo de custo político. Cadeira vazia precisa doer no voto, precisa ser vista como feiura pelo eleitor. Enquanto o eleitor tratar a ausência como esperteza e não como desrespeito, os favoritos continuarão faltando e achando-se bonitos em suas imagens marqueteadas.
O espelho, espelho meu, quando consultado pelo candidato, tem respondido pela nossa voz, “oh, não existe candidato melhor do que você”.
(*) é advogado, psicólogo e filósofo, mestre em sociedade e cultura, doutorando (UFAM) e professor de direito na Wyden.










