
O presidente Lula desembarca em Assunção para a cúpula do Mercosul enfrentando o cenário regional mais complexo desde o início do seu terceiro mandato. A consolidação de governos de direita em países vizinhos reduziu drasticamente o espaço de manobra do Palácio do Planalto.
Para complicar o xadrez diplomático, a reação internacional aos terremotos que castigaram a Venezuela abriu um debate profundo sobre quem realmente exerce a liderança na América do Sul.
Bloco sob nova direção
A mudança no mapa político da região encurtou o alcance das propostas brasileiras. O consenso, regra de ouro para o funcionamento do bloco, virou um obstáculo para a agenda tradicional de Brasília.
“Lula chegou ao terceiro mandato em 2023 com uma maioria regional. Três anos depois, esse cenário se inverteu completamente. O Brasil deixa de falar em nome de uma maioria e passa a operar como exceção dentro do próprio Mercosul”, afirma a analista política Yolanda Tolentino, especialista em política e gestão estratégica internacional pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Com as vitórias de líderes conservadores na Argentina, Chile, Equador e Peru, o Mercosul se afasta do projeto de integração política idealizado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e assume um caráter essencialmente comercial. Temas caros ao governo brasileiro, como pautas ambientais e direitos humanos, encontram forte resistência dos novos parceiros.
Ajuda humanitária como poder
A tragédia provocada pelos terremotos na Venezuela acabou virando um teste prático de influência internacional. Especialistas apontam que o socorro aos necessitados funciona como uma vitrine de eficiência e peso diplomático.
“Atualmente, a ajuda humanitária integra o conjunto de instrumentos do chamado soft power. Embora tenha como objetivo principal salvar vidas e reduzir o sofrimento, ela também comunica capacidade logística, liderança política e compromisso internacional”, explica Cezar Roedel, consultor de relações internacionais.
Sob essa ótica, a resposta do Brasil foi considerada demorada e tímida diante do real tamanho do país. Embora a contribuição material seja importante, analistas defendem que o governo perdeu uma chance de ouro para se firmar como o grande protetor da região.
Respostas em ritmos diferentes
A mobilização internacional para socorrer os venezuelanos expõe o abismo de agilidade e volume de recursos entre as nações americanas.
- O Brasil enviou três voos da Força Aérea Brasileira (FAB) transportando 71 bombeiros e um hospital de campanha da Marinha capaz de atender 1.500 pessoas.
- Os Estados Unidos liberaram US$ 150 milhões e acionaram o Comando Sul dos EUA (Southcom) com o envio de navios anfíbios, helicópteros e equipes especializadas.
- El Salvador mandou 300 resgatistas da força de Busca e Salvamento Urbano (USAR) e 50 toneladas de suprimentos em seis voos coordenados.
- A Argentina enviou equipes médicas e técnicos para recuperar o aeroporto de Caracas, destruído pelos tremores de terra.
O cientista político Elton Gomes pondera que o governo brasileiro demonstrou intenção de ajudar rápido.
“Mas, diante da gravidade da circunstância e do ambiente politico, acabou não sendo tão célere nem enviando tantos recursos quanto poderia”, analisa o especialista.
Retorno apressado e pouca articulação
A agenda de Lula em Assunção reflete o pragmatismo frio que tomou conta das relações do bloco. O presidente programou sua volta ao Brasil para o mesmo dia da cúpula, priorizando o lançamento do Plano Safra em Brasília, e não reservou espaço para encontros bilaterais com outros chefes de Estado.
Enquanto o Planalto reduz sua presença ao mínimo necessário, a oposição brasileira se movimenta no sentido contrário. O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), aproveitou o momento para se reunir em Buenos Aires com o presidente argentino Javier Milei, que sinalizou apoio público aos conservadores brasileiros.
Esse distanciamento dos vizinhos esvazia o discurso oficial de retomada do protagonismo global do país.
“Lula está longe de qualquer protagonismo. O PT sempre vendeu a ideia de que tem uma política externa proeminente, mas não passa de uma fórmula vencida, que colocou a diplomacia em seu pior momento histórico”, avalia Cezar Roedel.
O Brasil que atua nos escombros da Venezuela parece não encontrar o mesmo eco para ditar as regras no Mercosul, revelando as dificuldades de uma diplomacia que tenta liderar um continente que já mudou de rumo.










