
A circulação da produção cultural nortista pelo cenário nacional marca um passo importante na descentralização da arte no país. Frequentemente vista sob um olhar distante, a produção criativa produzida na Amazônia ganha palcos estratégicos para pautar temas urgentes, como o clima e a ancestralidade. Esse movimento ganha força ao unir a vivência das comunidades tradicionais com a pesquisa acadêmica de ponta.
Criada em Manaus, a intervenção urbana “Mangará” foi selecionada para integrar a programação oficial do Congresso UFBA 80 Anos. A apresentação está marcada para esta sexta-feira, dia 10 de julho, às 17 horas, no campus da Universidade Federal da Bahia (UFBA), localizado em Salvador.
O evento, que ocorre entre os dias 6 e 10 de julho, reúne ações de ensino, ciência, extensão e cultura, promovendo debates contemporâneos que atravessam o Brasil e o mundo.
Reflexão no espaço público
A obra utiliza a performance urbana para construir uma reflexão profunda sobre a destruição florestal e as transformações drásticas enfrentadas pelo ecossistema amazônico. A presença do grupo manauara no Nordeste do país consolida o diálogo entre a academia e a preservação ambiental sob a ótica de quem sente os impactos climáticos na pele.
A idealizadora e diretora do projeto, Tainá Andes, enxerga a viagem como uma conquista política.
“Enquanto mulher indígena que atua de forma independente, é muito importante essa ocupação na universidade, sobretudo fora do Estado do Amazonas, para mostrar que podemos estar onde quisermos e que o fazer político por meio da arte me leva a desmistificar o olhar exótico que ainda existe sobre os nossos corpos amazônidas”, afirma Tainá Andes.
Histórico da pesquisa
O espetáculo possui uma base técnica construída na união de experiências entre diferentes instituições de ensino superior. A caminhada do projeto envolve dedicação e trocas de saberes:
- Origem: o projeto nasceu no ano de 2024, durante as atividades do laboratório de criação corporativa coordenado por Viviane Palandi, produtora e provocadora cênica da obra, na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
- Estreia: a primeira mostra pública aconteceu na Galeria de Artes da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), contando com a sonoplastia do artista chiCOKAboco.
- Evolução: no ano de 2025, o coletivo cresceu com a chegada de Jaú Tupinambá, artista não-binária da UEA, e Vívian di Oliveira, atriz, cantora e percussionista.
A equipe traz uma bagagem de ativismo ecológico e conhecimento ancestral. Atualmente, Tainá Andes aprofunda esses estudos como mestranda em Dança na própria UFBA. Segundo a diretora, a performance tenta traduzir visualmente uma floresta em ebulição, com raízes que fervem, águas que mudam de lugar, fogo e o sofrimento dos animais.
Ocupação e pioneirismo
A performance foi acolhida no congresso por meio da curadoria da Escola de Dança da UFBA, unidade de ensino criada em 1956 e famosa por abrigar o primeiro curso superior de Dança do Brasil. Para o grupo amazonense, ocupar esse espaço carrega um valor que ultrapassa a estética.
O coração de bananeira usado na cena simboliza a resistência e a denúncia contra o caos do clima.
“O projeto começa com os meus mais velhos que sonharam em romper fronteiras e chegar em diversos espaços. Agora, com o MANGARÁ e a equipe que o compõe, percebo esse sonho vivo: um coração de bananeira pulsante, que denuncia, atua, canta, dança e ritualiza uma travessia em meio ao caos climático em direção à sustentação do céu por meio da performance”, declara a diretora Tainá Andes.
A participação abre portas para que criadores independentes de Manaus mostrem sua capacidade de produção sem intermediários.
“É uma grande oportunidade de mostrar o trabalho de artistas potentes que existem na cidade de Manaus, que lutam diariamente pelo reconhecimento artístico. Nós falamos por nós, nós criamos sobre nós e nada mais deve ser feito sobre nós na nossa ausência”, conclui Tainá Andes.
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SERVIÇO
- MANGARÁ – Intervenção urbana na UFBA, Salvador (BA)
- Data: 10 de julho de 2026
- Horário: 17h
- Local: Vão da Biblioteca da UFBA – Praça das Artes
Fonte: ASCOM | Vívian O. da Silva










