
É fascinante e ao mesmo tempo perturbador observar como a geopolítica moderna se apropria de tragédias morais para travar guerras de narrativas. O caso Jeffrey Epstein, que expôs as entranhas mais sombrias da elite norte-americana, deixou de ser apenas um dossiê criminal sobre abuso sexual. Agora, ele se transformou em munição pesada nas mãos do Irã e de seus aliados no eixo da resistência.
Para quem acompanha o xadrez do Oriente Médio, o movimento é calculado. Teerã encontrou na sujeira deixada por Epstein o pretexto ideal para acusar os Estados Unidos (EUA) e o Ocidente de hipocrisia. A lógica aplicada pelos iranianos é simples e eficaz para sua base: como o Ocidente pode pregar sobre direitos humanos e democracia quando suas próprias elites estão atoladas em escândalos de exploração de menores?
O uso político da crise moral
A chancelaria do Irã não perdeu tempo em capitalizar sobre o assunto. O porta-voz Esmail Baghaei foi cirúrgico ao descrever o episódio como “um sinal de uma crise moral muito profunda no sistema de governo dos países ocidentais, especialmente diante do envolvimento de muitas figuras políticas de alto escalão”.
Ao colocar figuras do poder na mira, o regime teocrático tenta nivelar o jogo moral. O objetivo é claro: desviar os holofotes da repressão interna e apontar o dedo para a decadência moral dos rivais. Baghaei ainda insere o componente conspiratório ao sugerir que o episódio seria “um projeto de longo prazo para promover os objetivos políticos de certos atores, especialmente o regime sionista”, vinculando Israel diretamente aos crimes de Epstein.
A fogueira das vaidades em Teerã
Um dos pontos mais surreais dessa ofensiva propagandística foi a confusão simbólica ocorrida na capital iraniana. Durante manifestações que marcaram o aniversário da Revolução Islâmica, uma estátua foi incendiada na praça da Revolução.
A agência Tasnim correu para afirmar que a imagem representava Epstein. No entanto, análises mais detalhadas indicaram que se tratava de Baal, uma divindade de mitologias antigas do Oriente Médio, contendo inclusive uma estrela de Davi. Mesmo com o erro de identidade, a narrativa foi mantida.
A emissora Press TV, ligada ao governo, declarou que a destruição da estátua ocorreu “como um ato simbólico motivado pela indignação com o escândalo Epstein e o sacrifício de crianças”. O canal chegou a alegar, segundo o portal ynet, que Epstein teria batizado uma conta bancária com o nome da divindade Baal.
Enquanto a mídia estatal foca nos crimes sexuais do Ocidente, os números da violência interna no Irã são alarmantes. Segundo a organização Iran Human Rights, o número de mortos pela repressão do governo às manifestações no país, apenas em janeiro, pode ter chegado a 25 mil. Essa disparidade de foco é o coração da estratégia: gritar sobre os pecados alheios para abafar os gritos das próprias vítimas.
A rede de apoio terrorista
O movimento não se restringe a Teerã. Os aliados regionais adotaram o mesmo manual. No Iêmen, o movimento terrorista Houthi incorporou o tema à sua propaganda. Meios de comunicação ligados ao grupo divulgaram amplamente uma imagem de Epstein ao lado do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, aproveitando para atacar a Arábia Saudita.
O líder do grupo, Abdul-Malik al-Houthi, afirmou em discurso que “Trump, o criminoso descrente, e os líderes da América, da Grã-Bretanha e dos judeus sionistas” cometem crimes graves, sugerindo que documentos do caso provariam a corrupção ocidental.
Outras figuras do grupo também se manifestaram:
- Hazam al-Assad: O dirigente questionou nas redes sociais se a pressão dos EUA contra o Irã seria apenas uma cortina de fumaça para desviar a atenção do escândalo, criticando o Ocidente por atacar o Islã em temas como casamento infantil enquanto esconde seus próprios abusos.
- Mohammed al-Farah: Afirmou ser impossível um país se apresentar como modelo de democracia sem ter valores morais.
- Mustafa al-Momari: O comediante pró-houthi criticou a imprensa árabe por focar no recrutamento de menores pelo grupo terrorista enquanto ignora “crianças recrutadas para a ilha de Epstein”.
Até o cartunista iemenita Kamal Sharaf entrou na guerra cultural, divulgando charges e vídeos sobre o tema, incluindo material considerado antissemita sobre o episódio da estátua.
Reflexos na cultura e mídia árabe
No Líbano, a emissora Al-Manar exibiu a reportagem “Os escândalos de Epstein: o Ocidente como ele realmente é”. O programa trouxe especialistas afirmando que o caso revela as contradições de sistemas que defendem a liberdade na teoria, mas a violam na prática.
Mas a repercussão chegou a níveis inusitados no Egito. O Ministério do Interior precisou cancelar uma festa em uma casa noturna do Cairo ironicamente batizada de “Um Dia na Ilha de Epstein”. O evento, que ofereceria entrada gratuita para mulheres, gerou revolta pública e resultou na prisão do organizador por falta de autorização.
No fim das contas, a exploração do caso Epstein pelo Irã e seus aliados, como o Hezbollah, não busca justiça pelas vítimas. É uma tática de sobrevivência política para pintar o Ocidente como moralmente falido e justificar seus próprios regimes autoritários.
Fonte: https://revistaoeste.com/mundo/ira-usa-caso-epstein-para-liderar-campanha-contra-os-eua/










