Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho Geoecologia econômica da ribeirinidade

Geoecologia econômica da ribeirinidade

O Recado Amazônico para Não Repetir a Tragédia da Borracha

“Da Vila Produtiva das Águas à Bolsa Florestal: quando a água volta a ser fábrica e não apenas estrada”

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho

Evandro Carreira dizia que Manaus cresceu manca. Virou metrópole bilionária com o Polo de 1967, mas esqueceu de alimentar o próprio interior. Andamos com uma perna só.

A pergunta que fica é simples. Por que, com tanta água e tanta várzea fértil, ainda trazemos tambaqui de Rondônia e tomate murcho que rodou 3.000 quilômetros?

Porque trocamos a vocação da água por uma cópia do Centro-Sul. Em vez de transformar a várzea, que é adubada de graça todo ano pelos Andes, como o Nilo, em fábrica de alimentos, abrimos pasto em terra firme que empobrece em três anos.

O mundo já mostrou o caminho. Na China, no Delta do Rio das Pérolas, o mesmo espelho d’água cria peixe, pato e horta ao mesmo tempo. O resíduo de um vira alimento do outro. Foi assim que tiraram 800 milhões de pessoas da pobreza. Nós fizemos da água apenas estrada.

O exemplo mais dolorido está na castanha. Temos 90% das florestas de castanheiras do planeta. A Bolívia tem uma fração. E mesmo assim nos superou desde 1998. Eles se organizaram em cooperativas e laboratórios. Nós não. Como diz o historiador Moisés Almeida, só temos uma fazenda plantada de destaque, a Aruanã, em Itacoatiara. É exceção, não política.

E o que aconteceu com a borracha em 1876, quando levaram nossas sementes para a Ásia, está se repetindo. O Vietnã já domina o caju, o cacau, e ensaia o açaí. O açaí do Pará, que gera R$ 8,7 bilhões, já é estudado na Malásia e na Tailândia. Se não plantarmos com tecnologia, eles vão plantar e nos vender o que é nosso.

No fundo, tudo isso empurra o mesmo problema: o esvaziamento do interior. Mais de 52% do Amazonas mora em Manaus. Com a Região Metropolitana, mais de 60%. É inchaço, não desenvolvimento. Como dizia Thiago de Mello, a Amazônia não precisa ser saqueada, precisa ser compreendida.

A virada é leve e está ao alcance da mão. Começa pelo peixe. O tambaqui, nosso boi aquático, como lembra o agrônomo Rogério de Oliveira, não desmata e não precisa de pasto. O manejo do pirarucu em Mamirauá mostra que uma comunidade sai de dez para dois mil peixes sem derrubar uma árvore.

Peixe é soberania. Horta também é. A várzea nos dá seis a oito meses de solo exposto na vazante para plantar couve, tomate e melancia. E na cheia, a horta não para: sobe em jiraus, os canteiros suspensos que não afogam, e em balsas flutuantes com caroço de açaí. Como diz a agrônoma Sônia Alfaia, do INPA, estamos sobre o solo mais fértil do Brasil e passando fome.

Feche o ciclo com a galinha caipira. Pouco investimento, retorno rápido. O esterco vira adubo e ração para o tambaqui. E coroe com frutas em Sistemas Agroflorestais que imitam a floresta, com açaí, cupuaçu e pupunha, que dão até cinco vezes mais renda que o pasto e ainda capturam carbono.

Enquanto a fruta cresce, o ribeirinho precisa de renda hoje. Por isso defendo o garimpo legal e cooperativado, sem mercúrio, fora de terras indígenas, com tecnologia limpa do CETEM. O ouro certificado, mais valorizado, com parte do imposto voltando em tanque de peixe e pomar de açaí. É o ouro virando peixe.

E chegamos ao ponto central. O caboclo não precisa de esmola, precisa de ferramenta. O Bolsa Família foi vital para não deixar ninguém com fome, mas virou armadilha. Hoje temos mais famílias no Bolsa do que com carteira assinada no Amazonas. Isso não é justiça, é falência do modelo.

Ele não é preguiçoso, é abandonado. Falta TAUS para morar na várzea, falta PLG para garimpar legal, falta assistência e um barco-frigorífico para escoar.

Por isso proponho que o Bolsa Família evolua, na Amazônia, para Bolsa Florestal produtivo. O original, de 2007, da Lei 3.135 e da Fundação Amazônia Sustentável, pagava R$ 50 para conservar e reduziu desmatamento em até 54%. Deu certo. Agora precisamos do segundo salto: pagar para produzir conservando. Tanque de peixe, jirau de horta, SAF de açaí e galinheiro, com metas simples, monitoradas pela Embrapa e IDAM e com compra garantida na merenda escolar.

Nada disso tem valor se não ouvirmos quem sempre cuidou do rio. Toda proposta precisa nascer com as populações autóctones, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, como sujeitos. É direito garantido pela Convenção 169 da OIT e pela Constituição, nos artigos 231 e 232. É a consulta livre, prévia e informada, feita do jeito que a comunidade definir em seu protocolo. Sem escuta, vira colonialismo.

O que falta para o recado de Carreira virar política? Cinco coisas leves e práticas: barcos-frigoríficos com energia solar ligando as calhas dos rios a Manaus, zoneamento da várzea que preserve os chavascais, berçários de peixes, biocombustível de andiroba e biogás para substituir o diesel da rabela, crédito pela TAUS e não por escritura, como lembra a cientista Ana Maria Vasconcelos, e pequenas agroindústrias para transformar fruta em polpa e ouro em joia.

Quando fixamos o homem na sua vila produtiva, com peixe no tanque, horta no jirau e fruta no SAF, não estamos só produzindo alimento. Estamos esvaziando as palafitas de Manaus e garantindo soberania.

Como ensinava Samuel Benchimol, a Amazônia só será desenvolvida quando o amazônida for sujeito do desenvolvimento, e não objeto. É dar ferramenta, não favor. Só assim não vamos, daqui a poucos anos, importar da Ásia a preço de ouro o açaí e a castanha que nasceram aqui.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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