
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, determinou o prazo de cinco dias úteis, contados a partir desta sexta-feira, 4 de setembro, para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre as acusações do ministro Alexandre de Moraes contra o ministro André Mendonça.
Após essa etapa, Mendonça terá um período idêntico de cinco dias úteis para apresentar sua resposta. Nos bastidores da corte, informações apuradas apontam que o julgamento em plenário só deve ocorrer em novembro, após o período eleitoral. Enquanto o calendário avança, Fachin atua internamente para conter os ânimos entre os integrantes do tribunal.
Os novos ritos
A medida do presidente retira o embate do âmbito do “Inquérito das fake news” e abre uma petição própria sob sua relatoria direta. A movimentação cumpre o anúncio feito por Fachin logo no início da crise, quando declarou que “sérios elementos de fato” e a “atuação processual” exigiam “serenidade, responsabilidade e firmeza”, prometendo providências “no tempo devido e sem precipitação”.
O despacho atual complementa a decisão de quinta-feira, 3 de setembro, que analisou a fase inicial do impasse centrada nos relatos sobre a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e familiares de Moraes. O documento reuniu as suspeitas lançadas sobre a conduta de Alexandre de Moraes e a tese do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de que haveria uma “dupla nulidade”, sob o argumento de que Mendonça ultrapassou suas atribuições ao investigar colegas, tarefa restrita ao plenário. Fachin fixou prazo de cinco dias para manifestação de Gonet, Mendonça, Moraes e do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.
“Cabe à Presidência do tribunal zelar para que a possível apreciação colegiada seja feita, a tempo e modo, com o elevado senso de responsabilidade que os fatos reclamam, sempre assegurando o respeito às garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório”, afirmou Edson Fachin em seu despacho.
Reações nas redes
O desdobramento do caso desencadeou repercussões no cenário nacional e internacional. Veículos da imprensa estrangeira destacam a instabilidade no tribunal após as revelações envolvendo Moraes e Vorcaro. No Congresso Nacional, parlamentares da oposição reforçam a convocação de manifestantes para os atos do 7 de Setembro.
Dentro da própria corte, o clima permanece tenso. André Mendonça declarou publicamente buscar “honrar a confiança do povo”, enquanto o ministro Flávio Dino reconheceu a existência da crise, mas defendeu que o tribunal precisa “seguir julgando”. Paralelamente, a Ordem dos Advogados do Brasil Seção Paraná (OAB PR) aprovou nota enviada a Fachin na qual defende o afastamento de Moraes e a suspeição de Gonet.
Guerra de relatórios
Também na quinta-feira, Moraes encaminhou acusações contra Mendonça à Presidência do STF “para as providências que entender necessárias”. O despacho revelou que na terça-feira, 1 de setembro, data em que Mendonça apresentou o relatório, Moraes ordenou que a PF enviasse ao seu gabinete todos os relatórios de inteligência com citações a ministros da corte.
Moraes recebeu documentos referentes a ele próprio, a Mendonça e aos ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques. Contudo, direcionou suas questionamentos apenas ao relator da “Operação Compliance Zero”, relacionada ao Banco Master, e da “Operação Sem Desconto”, que apura fraudes no INSS.
O relatório de inteligência citado aponta “indícios crescentes de enviesamento da condução da supervisão judicial”, incluindo avanço indevido sobre atribuições policiais, condução de delações premiadas, interferência em atos administrativos e acesso direto ao material bruto de investigações sem o filtro de delegados, com o objetivo de escolher alvos por razões pessoais e políticas.
A PF registrou a importância do trabalho técnico da autoridade policial na condução das provas.
“A revisão do delegado é a etapa em que se verifica a cadeia demonstrativa, se afastam conclusões não amparadas nos elementos e se ajusta o grau de assertividade ao lastro disponível. Suprimi-la faz com que a inferência bruta do analista ingresse nos autos sem filtro e sem validação da autoridade que, por lei, preside a investigação”, aponta o documento da corporação.
Moraes rebate as acusações alegando que o acesso antecipado ao conteúdo de celulares e computadores compromete a cadeia de custódia das provas, prejudica os trabalhos investigativos e abre margem para vazamentos, acusando Mendonça de atuar com “total ausência de imparcialidade”.
Diálogos sob suspeita
As apurações envolvem conversas atribuídas a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro com menções a Paulo Gonet. Em mensagem enviada em 30 de novembro de 2025, Vorcaro relata ter recebido dados sigilosos do Banco Central (BC) sobre pressões exercidas pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o Banco Master, citando o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e outros diretores.
Na ocasião, o banqueiro fez um pedido direto ao ministro.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco. […] Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”, afirmou Daniel Vorcaro.
Dez minutos após o texto, Vorcaro enviou uma lista contendo nomes de integrantes da PF e do MPF. Sete nomes foram identificados no levantamento.
- Dennis Cali, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF;
- Janaína Palazzo, delegada que tomou o depoimento de Vorcaro;
- Ubiratan Cazetta, procurador da República;
- Gabriel Pimenta Alves, procurador da República atuante no caso do Banco Master;
- Wilker Goulart, agente da PF;
- Guilherme Alves, delegado da PF;
- Daniel de Brito, procurador da República.










