
Existe uma evidente contradição na decisão do governo americano em punir a indústria manufatureira brasileira de valor agregado com sobretaxas acumuladas de 37,5% enquanto isenta matérias primas e alimentos que podem provocar inflação no mercado americano como café petróleo suco de laranja e minérios.
O peso das tarifas
O acúmulo de cobranças poupa uma parcela mínima das exportações brasileiras atingidas pelas novas barreiras comerciais.
A taxação de 12,5% anunciada na quinta feira alcança o equivalente a US$ 12,5 bilhões em vendas anuais do Brasil.
Segundo a Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham) a estimativa é que 85,3% desse total o que representa US$ 10,7 bilhões em produtos já estavam na sobretaxa de 25% editada um dia antes.
A sobretaxa acumulada de 37,5% abarca 3.985 produtos brasileiros somando US$ 10,8 bilhões de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Apenas US$ 1,8 bilhão em mercadorias recolhe exclusivamente a nova alíquota de 12,5% conforme aponta a Amcham.
“A tarifa de 12,5% foi aplicada de forma mais linear ao Brasil”, explica o especialista em comércio exterior Jackson Campos.
“Cada exportador terá de cruzar os códigos aduaneiros das duas medidas porque estar isento de uma tarifa não significa estar isento da outra”, alerta Jackson Campos sobre a complexidade da dupla taxação.
Blindagem contra a inflação
A sobreposição de tarifas evidencia uma tentativa de blindar a economia americana contra a alta de preços.
“A gestão dos EUA calibrou as tarifas para punir a indústria brasileira de valor agregado mas isentou produtos e insumos essenciais para preservar a própria economia de uma nova escalada inflacionária”, avalia o economista e professor de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Jorge Ferreira dos Santos Filho.
Embora não tenham publicado uma lista oficial de isenções os Estados Unidos explicaram seus critérios no comunicado sobre a taxação de 12,5%.
A primeira justificativa afirma que foram isentas matérias primas que poderiam levar à indisponibilidade do fornecimento interno caso fossem tarifadas.
Produtos que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidades suficientes em solo americano e que causariam perturbações em toda a economia também escaparam da barreira.
A lista de isenções
- Petróleo bruto e gás natural ficam fora das duas listas pois o setor de refino e energia dos Estados Unidos depende dessas matérias primas para evitar a disparada nos preços dos combustíveis;
- Minério de ferro e ferro gusa escapam das taxações porque a indústria siderúrgica americana precisa desses insumos para alimentar suas usinas;
- Café permanece isento nas duas listas já que taxar o produto geraria inflação imediata em um item de consumo diário para a população e essencial para a rede de cafeterias do país;
- Suco de laranja também fica isento nas duas listas pois a Flórida sofre há anos com quebras de safra devido a pragas e furacões e punir a bebida brasileira desestruturaria o mercado de café da manhã americano.
O primeiro aumento de impostos promovido por Donald Trump causou inflação no país. Produtos como café petróleo suco de laranja e minérios sofreram taxação no ano de 2025.
O preço do café saltou quase 40% no mercado interno em poucos meses.
A gestão precisou recuar da medida ao longo do ano isentando esses itens para tentar frear a alta de preços.
Indústria nacional sob ataque
Diversos segmentos brasileiros sofreram impactos severos. Açúcar etanol e calçados já haviam sido taxados em 25% na quarta feira e agora foram tarifados em mais 12,5%.
O setor têxtil e a indústria química sofreram cobrança combinada de forma semelhante. No caso dos pescados cerca de 93,6% ficaram isentos do imposto de 25% mas não escaparam da sobretaxa de 12,5%.
Com a dupla taxação a projeção de queda nas exportações de calçados saltou de 3,6% para 7,1%.
“A aplicação da tarifa adicional reduz a competitividade do calçado brasileiro nos EUA e inviabiliza operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40% em fevereiro deste ano”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) Haroldo Ferreira.
O impacto deve se repetir na indústria química onde cerca de 58% dos produtos foram duplamente sobretaxados. O setor cumpre rigorosamente os padrões de direitos humanos e já havia apresentado essas informações ao governo americano que ignorou os dados.
“Nossas exportações para os EUA caíram de cerca de US$ 2,2 bilhões para US$ 1,8 bilhão”, relata o presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) André Passos Cordeiro.
Motivação política em Washington
A entidade que representa o setor industrial de máquinas e equipamentos no Brasil prevê queda de até 11% nas exportações aos Estados Unidos.
“Foi uma resposta da Suprema Corte norte americana que em fevereiro proibiu o governo americano de taxar produtos sem uma motivação clara. Agora tem a motivação que é o trabalho forçado”, aponta o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) José Velloso.
Os Estados Unidos também utilizariam as barreiras comerciais para interferir na política interna de outras nações.
“Faz pressão em cima do Pix dos canais digitais e do direito à propriedade intelectual”, acrescenta o professor Jorge Ferreira dos Santos Filho sobre as estratégias do presidente Donald Trump.
As justificativas do governo
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) aplicou a nova alíquota a 60 economias.
Diferentemente da tarifa de 25% focada em práticas desleais o órgão diz que a taxação de 12,5% resulta da falha em proibir e fiscalizar a importação de produtos feitos total ou parcialmente com trabalho forçado em outros países.
A nova tarifa de 12,5% foi imposta à maior parte das economias incluídas na investigação entre elas o Brasil.
Outros parceiros comerciais receberam uma alíquota menor de 10% em razão dos critérios estabelecidos pelo governo americano. A medida encerrou uma ampla investigação conduzida por Washington com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.










