
O avanço das organizações criminosas sobre territórios urbanos e a necessidade de reforço federal em áreas consideradas vulneráveis colocam uma questão que ultrapassa os limites da segurança pública: até que ponto a presença do crime organizado pode interferir na liberdade de circulação das campanhas, na atuação de candidatos e, sobretudo, na livre manifestação do eleitor?
No Amazonas, a preocupação ganhou contornos concretos às vésperas das Eleições Gerais de 2026. Em Manaus e no interior, a Justiça Eleitoral vem adotando medidas preventivas para preservar a normalidade do pleito, enquanto as forças de segurança mantêm operações contra organizações criminosas envolvidas com tráfico, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas.
O cenário não permite afirmar que todas as ocorrências eleitorais estejam relacionadas às facções criminosas. Mas a sucessão de medidas de segurança, investigações e denúncias revela um ambiente em que a garantia da liberdade do voto exige atenção especial do Estado.
Territórios sob pressão
Em áreas onde grupos criminosos exercem influência territorial, a realização de atividades políticas pode encontrar obstáculos que vão muito além das dificuldades logísticas de uma campanha.
A entrada de equipes, a circulação de veículos de propaganda, a realização de reuniões, carreatas e atividades de mobilização dependem, em qualquer democracia, da liberdade de circulação e da ausência de intimidação.
Quando esses pressupostos são comprometidos, o problema deixa de atingir apenas candidatos e partidos. Pode alcançar diretamente o eleitor, especialmente aquele que vive em regiões onde a presença do Estado é mais frágil.
É nesse ponto que o chamado cerceamento eleitoral ganha dimensão institucional: não se trata apenas de impedir uma campanha de chegar a determinado endereço, mas do risco de restringir o direito de o cidadão conhecer diferentes candidatos, ouvir propostas e manifestar sua preferência sem constrangimento.
Força federal na Zona Leste
A preocupação das autoridades ganhou uma expressão concreta em Manaus. O Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) aprovou, por unanimidade, a requisição de força federal para a 63ª Zona Eleitoral da capital. A área compreende os bairros São José Operário, Tancredo Neves e Gilberto Mestrinho.
Segundo a decisão eleitoral, o pedido levou em consideração o histórico de invasões, vandalismo, ameaças, agressões verbais e intimidação de mesários e servidores registrado em eleições anteriores.
A zona eleitoral possui 49 locais de votação e 363 seções. O eleitorado informado no processo supera 133 mil pessoas, com estimativa de aproximadamente 140 mil eleitores para o pleito de 2026. A decisão foi encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a quem cabe deliberar sobre a requisição da força federal.
O dado é relevante porque demonstra que a preocupação com a segurança do processo eleitoral não está restrita a denúncias de candidatos ou relatos de campanha. Ela já produziu uma providência formal da própria Justiça Eleitoral.
A medida não é isolada. Em 8 de setembro, o Pleno do TRE-AM deferiu mais de 30 requisições de força federal para as eleições em municípios do interior e também incluiu Manaus entre as localidades que terão reforço de segurança.
241 denúncias no Pardal
Outro indicador do ambiente eleitoral amazonense está no Sistema Pardal. Até 15 de setembro, o aplicativo havia recebido 241 denúncias em 11 municípios do Amazonas. Desse total, 99 registros envolviam candidaturas a deputado estadual, 60 candidaturas ao Governo do Estado e 49 candidaturas a deputado federal.
Os números, por si só, não permitem atribuir essas denúncias ao crime organizado. O próprio TRE-AM ressalta que as ocorrências serão apuradas pelas autoridades competentes e poderão resultar em medidas administrativas, cíveis ou criminais, conforme as circunstâncias de cada caso.
Ainda assim, os registros ajudam a dimensionar o volume de ocorrências que chega à Justiça Eleitoral em um momento decisivo da campanha.
O TRE-AM define crime eleitoral como a conduta capaz de comprometer a liberdade do voto, a igualdade entre candidatos ou a integridade das eleições.
Campanha sob ameaça
A própria disputa eleitoral já produziu acusações envolvendo suposta ação do crime organizado.
Em decisão publicada em 16 de setembro, o TRE-AM analisou representação de uma coligação majoritária que questionou propaganda eleitoral na qual uma campanha relatava ter sofrido um atentado a tiros e afirmava receber ameaças provenientes do crime organizado.
A decisão judicial, entretanto, tratou o episódio como alegação apresentada pela campanha e não estabeleceu, naquele julgamento, que o atentado tenha sido praticado por uma organização criminosa ou que determinada candidatura tivesse qualquer participação no episódio. O cuidado é necessário porque a ação analisada era de direito de resposta e a decisão examinou, em caráter preliminar, os limites da propaganda eleitoral.
O episódio, porém, evidencia como a violência e a atuação de organizações criminosas passaram a integrar o discurso e o debate eleitoral no Amazonas.
O dinheiro do crime
A ameaça não está apenas na ocupação física de territórios. O poder econômico das organizações criminosas também representa preocupação para as instituições.
Em julho, a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Amazonas (FICCO/AM) deflagrou a Operação Torre 8, em Manaus, para investigar lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
Segundo a Polícia Federal (PF), a investigação identificou empresas de fachada utilizadas para movimentar e dissimular recursos associados a uma organização criminosa voltada ao tráfico internacional de drogas.
Em agosto, outra operação da FICCO/AM, denominada Umbra, teve como objetivo desarticular uma organização criminosa investigada por tráfico interestadual de drogas e lavagem de capitais, com atuação em Manaus e Tabatinga. Foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão e oito mandados de prisão preventiva.
Também em julho, a Operação Conexão Amazônia investigou uma organização criminosa com atuação no Amazonas, Pará e Ceará, com suspeitas envolvendo tráfico interestadual, financiamento ao tráfico e lavagem de dinheiro.
A ação resultou no bloqueio de aproximadamente R$ 15 milhões em bens e valores vinculados aos investigados.
Essas operações não estabelecem, por si mesmas, ligação entre organizações criminosas e financiamento de campanhas eleitorais. Mas demonstram a existência de estruturas financeiras e logísticas que estão no radar das forças de investigação e que justificam atenção redobrada durante o processo eleitoral.
Desafio da Justiça Eleitoral
O TRE-AM intensificou as ações de fiscalização em Manaus. Equipes realizaram patrulhamento preventivo em diferentes zonas da capital para orientar candidatos, cabos eleitorais e eleitores e verificar o cumprimento das regras de propaganda.
A Justiça Eleitoral também mantém o Pardal como canal de recebimento de denúncias, encaminhando as supostas irregularidades aos juízes eleitorais responsáveis pela fiscalização da propaganda.
O objetivo institucional é assegurar que a disputa ocorra dentro das regras e que o eleitor possa exercer seu direito sem constrangimento.
Eleição além das urnas
O problema colocado pelo avanço do crime organizado sobre determinados territórios é maior que a segurança dos locais de votação.
Uma eleição democrática pressupõe que candidatos possam circular, apresentar suas propostas e disputar votos; que eleitores possam receber informações de diferentes campanhas; e que ninguém precise de autorização de grupos criminosos para manifestar sua preferência política.
Especialistas ouvidos pelo Portal O Povo Amazonense foram unânimes em afirmar que “quando a violência passa a determinar quem pode entrar em determinado território, onde uma equipe pode fazer campanha ou quais candidatos podem ser apresentados à população, a fronteira entre segurança pública e liberdade eleitoral começa a desaparecer”.
É por isso que a presença de força federal em zonas eleitorais consideradas vulneráveis, a fiscalização permanente do TRE-AM, as investigações da Polícia Federal e o acompanhamento do Ministério Público Eleitoral assumem importância que vai além do calendário eleitoral.
“No Amazonas, a questão central das eleições de 2026 não é apenas garantir que as urnas funcionem no dia 4 de outubro, mas assegurar que, até chegar à urna, o eleitor tenha tido liberdade para ouvir, comparar e escolher sem medo”, dizem os especialistas.










