Cultura Biblioteca Nacional resgata edições raras d’O Pasquim e reacende memória da ditadura

Biblioteca Nacional resgata edições raras d’O Pasquim e reacende memória da ditadura

Foto: Divulgação

Uma das marcas mais importantes da história da imprensa brasileira acaba de receber uma atualização expressiva em sua coleção virtual.

O catálogo gratuito disponibilizado na Biblioteca Nacional Digital (BNDigital), vinculada à Fundação Biblioteca Nacional (FBN), agora conta com 114 publicações de duas franquias históricas do periódico que circularam fora do eixo tradicional: as versões de São Paulo e do Rio Grande do Sul.

O acervo da instituição na internet já abrigava de forma integral as 1.072 edições nacionais do veículo de comunicação.

Os arquivos atualizados foram integrados ao portal da Hemeroteca Digital Brasileira, que reúne hoje mais de sete mil títulos de jornais históricos em formato digitalizado.

Símbolo de resistência

Criado no final da década de 1960 pelo cartunista Jaguar e pelos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, O Pasquim se consolidou como o principal símbolo do jornalismo alternativo durante o período da ditadura militar brasileira.

O semanário utilizava uma linguagem irreverente, irônica e ácida para driblar a censura oficial da época.

A publicação se destacou no mercado editorial por reunir mentes brilhantes do traço e da escrita em suas páginas.

  • Grandes nomes: o projeto concentrou o trabalho de intelectuais como Ziraldo, Henfil, Ivan Lessa, Millôr Fernandes e Ruy Castro.
  • Conteúdo marcante: as edições se tornaram célebres pelas charges provocativas, cartuns satíricos, artigos de opinião e entrevistas históricas com personalidades da cultura nacional.

A expansão do catálogo virtual ocorre em um momento comemorativo, já que o ano de 2026 marca exatamente os 40 anos do lançamento dessas iniciativas editoriais regionais fora da sede original da empresa, localizava no Rio de Janeiro.

Franquias nos estados

A interiorização do jornalismo satírico gerou experiências marcantes em outros polos culturais do país, mobilizando equipes locais de reportagem e ilustração em meados dos anos 1980.

  • Operação paulista: o projeto em São Paulo somou 56 edições semanais sob a coordenação dos jornalistas Paulo Markun e Manoel Canabarro, contando com o apoio de Dante Matiussi.
  • Operação gaúcha: no Rio Grande do Sul, o jornalista Flávio Braga liderou a equipe que produziu 60 edições da folha satírica.

“A disponibilização dessas novas edições resgata um capítulo importante da história d’O Pasquim e da mídia paulistana como um todo”, avalia Paulo Markun ao celebrar o legado desse trabalho.

Do material produzido em solo gaúcho, a plataforma disponibiliza atualmente 58 publicações, restando apenas Localizar as edições perdidas de número 18 e 39 para completar o lote.

“A possibilidade de criar a versão regional do melhor jornal satírico que o Brasil já teve colocou-se diante de mim como um sonho”, relembra Flávio Braga sobre a vivência aos 31 anos de idade.

Curadoria de memórias

A complementação do banco de dados na internet é o resultado de uma nova etapa de trabalho voluntário de curadoria liderado pelo pesquisador Fernando Coelho dos Santos. Ele já atua como o principal responsável pelo projeto de salvaguarda digital d’O Pasquim desde 2019 e, nesta rodada de buscas, contou com o auxílio técnico de Gualberto Costa e Vinicius Martins.

“Essa nova fase do trabalho complementa um esforço iniciado há mais de sete anos”, relata o curador, defendendo que o país precisa manter viva a memória desse período de contestação política.

Além das páginas dos jornais, a plataforma da Biblioteca Nacional Digital liberou uma seção exclusiva chamada Memórias. O espaço disseca bastidores da trajetória do veículo e exibe depoimentos de colaboradores de peso da cultura brasileira.

  • Colaborações ilustres: o painel traz textos assinados pelo escritor Rubem Fonseca, pelo jornalista Paulo Francis, pela atriz Odete Lara e pelo compositor Chico Buarque.
  • Acesso livre: a iniciativa comemora os 20 anos de criação da BNDigital em 2026.

“A ampliação do acervo de O Pasquim reafirma o papel da Biblioteca Nacional Digital em assegurar o acesso livre e qualificado a conteúdos fundamentais da história brasileira”, destaca o coordenador da BNDigital, Otávio Oliveira. A consulta aos arquivos pode ser feita por estudantes, pesquisadores e curiosos sem qualquer necessidade de pagamento de taxas.

 ASCOM: Carlos Souza  | João Victor Varella

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