
É com profundo respeito e um senso de dever histórico que nos debruçamos sobre a trajetória de um homem que, com a mesma maestria, regia sons e moldava madeiras. Resgatar a memória de Bento Jacinto da Silva é entender um capítulo fundamental da formação cultural de Barreiras nas décadas iniciais do século XX. Sua história não é apenas sobre música, mas sobre a capacidade humana de construir beleza e comunidade em meio aos desafios do trabalho árduo.
A narrativa de Bento Jacinto começa longe do oeste baiano. Nascido em 21 de março de 1902, nas terras pernambucanas de Belém do São Francisco, ele teve seu despertar musical muito cedo. Aos 12 anos, já iniciava seus estudos sob a tutela de um gigante da época, o imortal maestro Dionon Pires de Carvalho, fundador da histórica Filarmônica local que existe desde 1894.
Foi nesse ambiente rico em tradição que Bento floresceu. Ele não apenas integrou a entidade por muitos anos, mas se destacou como um grande clarinetista e um admirável compositor de música instrumental. Sua genialidade musical ficava evidente na sua habilidade de escrita e adaptação de partituras, transcrevendo obras complexas para diferentes instrumentos com facilidade. Tal era sua competência que o próprio mestre Dionon, em momentos de grande relevância civil e religiosa, confiava a Bento a batuta para reger a Filarmônica, um sinal claro de reconhecimento e confiança.
A chegada à Bahia e a arte da carpintaria naval
O ano de 1933 marcou uma virada na vida do maestro. Acompanhado de sua esposa, Maria Teresa, e de seus quatro filhos pequenos, Bento Jacinto embarcou em um vapor. Deixou para trás o sertão pernambucano e navegou rumo a uma nova vida em Barreiras, na Bahia.
Na nova terra, Bento mostrou a versatilidade de seu talento. Além das notas musicais, ele dominava o trabalho manual. Estabeleceu residência e dedicou-se com afinco aos ofícios da carpintaria e marcenaria. Destacou-se particularmente na carpintaria naval, fabricando embarcações que navegariam pelas águas dos rios Grande e São Francisco. Suas mãos, tão delicadas para o clarinete, eram igualmente firmes para construir os barcos que moviam a economia e o transporte da região.
O nascimento da “Filarmônica 8 de Dezembro”
Mesmo imerso no intenso trabalho braçal que sustentava sua família, a chama da música nunca se apagou em Bento Jacinto. Sua paixão era maior que o cansaço. Em um ato de generosidade e visão comunitária, ele passou a ensinar música gratuitamente. Operários e jovens interessados recebiam dele lições de solfejo e manejo de instrumentos musicais, formando uma nova geração de músicos na cidade.
Esse esforço não demorou a dar frutos. Em pouco tempo, o maestro organizou um grupo coeso que se transformaria na “Filarmônica 8 de Dezembro”, batizada em honra a Nossa Senhora da Conceição.
Uma estreia inesquecível
A data de 8 de dezembro de 1935 ficou marcada na memória cultural de Barreiras. Foi o dia da estreia triunfal da nova Filarmônica, que percorreu as ruas da cidade espalhando melodias e enchendo a população de alegria. Durante anos, o Mestre Bento e sua banda foram presença constante e marcante na vida cultural do município, animando festas, celebrações religiosas e eventos cívicos.
A jornada de Bento Jacinto em Barreiras encerrou-se em 1943, quando a família se mudou para Goiás. Consigo, o maestro levou o instrumental da Filarmônica 8 de Dezembro, que lhe pertencia por direito. No entanto, o legado de dedicação, arte e ensino gratuito que ele deixou em solo barreirense permanece como um testemunho eterno de como um único homem pode transformar a alma de uma comunidade através da música e do trabalho.

A ascensão de Nico Inocêncio
Entre os talentos moldados pelo mestre Bento Jacinto, Nico Inocêncio trilhou um caminho de especial relevância. Após sua transferência para Anápolis, no estado de Goiás, seu desenvolvimento técnico o levou a representar o estado em grandes centros. O ápice de sua carreira ocorreu no Rio de Janeiro, quando foi selecionado para participar do programa “Um Instante Maestro”, exibido pela Televisão Tupi e apresentado pelo renomado Flávio Cavalcanti.
O reconhecimento nacional
A competição promovida pela Televisão Tupi era de alto nível, reunindo representantes de diversos estados da Federação. Nico Inocêncio avançou em todas as etapas até chegar à grande final, onde enfrentou o representante do Rio de Janeiro. A banca examinadora, formada por críticos exigentes como Zé Fernandes, Aracy de Almeida e Sérgio Bitencourt, reconheceu a técnica impecável do músico goiano.
Em 1960, Nico foi classificado como o segundo melhor músico solista do Brasil. O título não apenas trouxe prestígio nacional, mas transformou sua realidade profissional, tornando-o o músico mais valorizado de Goiás. Sua trajetória serve como prova do potencial artístico que floresceu sob a batuta de mestres como Bento Jacinto.
- Este texto baseia-se nos registros de Terezinha Jacinto de Lima, filha do maestro, datados de setembro de 2025.










