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Salas vazias e sessões fantasma forçam mudança radical nas regras do cinema brasileiro

"O Agente Secreto", filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura - Foto: MK Productions/Vitrine Filmes

A tentativa de impulsionar o cinema nacional por meio de decretos esbarrou em uma realidade incômoda que mistura estratégia comercial agressiva e falta de interesse do público.

A Agência Nacional do Cinema (Ancine), vinculada ao Ministério da Cultura, publicou nesta semana a Instrução Normativa nº 175 para tentar corrigir distorções graves na “Cota de Tela”.

O mecanismo, que obriga os cinemas a exibirem produções brasileiras, vinha sendo cumprido de forma protocolar, mas sem efetividade prática.

A autarquia constatou que a simples presença de filmes nacionais na grade não garante audiência. O descompasso entre o número de sessões e o público real sugere que as redes de cinema estavam “escondendo” os títulos brasileiros em horários de baixíssima procura, como manhãs de dias úteis, para liberar o horário nobre para os grandes blockbusters estrangeiros.

Salas vazias

Um levantamento recente expôs o tamanho do problema ao analisar o desempenho da animação “Zuzubalândia: o Filme”. A obra teve mais de 17 mil sessões programadas por uma grande rede neste ano, mas atraiu menos de 2 mil espectadores em todo o país.

A média de 0,1 pessoa por exibição revela situações absurdas, como funcionários fazendo a limpeza das salas enquanto o filme rodava para ninguém.

Essa estratégia permitia que as empresas cumprissem a cota anual exigida pela Lei nº 14.814/2024 sem prejudicar a bilheteria dos filmes de Hollywood. Até agora, qualquer sessão em qualquer horário contava igualmente para o cumprimento da lei.

Com a nova regra, a Ancine pretende acabar com as sessões fantasma e forçar a exibição de filmes brasileiros nos períodos em que o público realmente frequenta o cinema.

Novas regras

A nova lógica de contabilização da “Cota de Tela” para 2026 abandona a contagem simples e adota um sistema de incentivos. A ideia é fazer com que uma sessão em horário de pico valha mais do que uma exibição esvaziada.

O objetivo central é aumentar a visibilidade e a competitividade das obras nacionais.

  • Horário nobre: sessões programadas a partir das 17h passam a receber um acréscimo de 0,10 na contagem oficial da cota. Isso incentiva os exibidores a colocarem o cinema brasileiro em disputa direta com os grandes lançamentos mundiais.
  • Permanência: filmes que conseguirem se manter em cartaz por mais tempo no mesmo complexo ganham um bônus adicional de 0,025. Esse bônus vale para obras que ficarem entre a segunda e a quinta semana de exibição, desde que respeitem o horário das 17h.
  • Premiações: obras premiadas em festivais reconhecidos pela agência terão um peso ainda maior. Agora, bônus para melhor direção, roteiro ou atuação somam um acréscimo de 0,15 nas sessões noturnas.

Desafio global

Mesmo com as novas regras, o desafio cultural e econômico permanece imenso. Em 2024 e 2025, o cinema nacional ocupou cerca de 15% das sessões, mas não conseguiu segurar nem 10% do público total.

Em 2026, os dados preliminares mostram uma queda ainda maior, com a participação brasileira recuando para 6,5%.

Nem mesmo o sucesso crítico de “O Agente Secreto” (2025), de Kléber Mendonça, foi capaz de frear a hegemonia estrangeira. Embora tenha alcançado 2,4 milhões de espectadores e faturado R$ 51,1 milhões, o longa já perdeu espaço para lançamentos recentes como “Michael” (2026) e “O Diabo Veste Prada 2” (2026), que arrecadaram R$ 85 milhões e R$ 74,4 milhões respectivamente em períodos menores.

Lei e mercado

A intervenção da Ancine levanta um debate profundo sobre a liberdade econômica e o fomento cultural. Por um lado, as redes de cinema argumentam que precisam priorizar o que dá lucro para manter a operação saudável.

Por outro, o governo defende que, sem a proteção das cotas e o estímulo aos horários nobres, a indústria cinematográfica brasileira corre o risco de sufocamento total diante do poder de marketing das produções globais.

A nova normativa tenta equilibrar esses pratos ao não proibir as sessões matinais, mas torná-las menos vantajosas para o cumprimento das obrigações legais.

O sucesso dessa medida dependerá não apenas das planilhas das exibidoras, mas da capacidade das produções brasileiras de atraírem o interesse genuíno de um público que hoje parece cada vez mais voltado para o entretenimento internacional de grande escala.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/fracasso-de-filmes-nacionais-faz-cinemas-criarem-jeitinho-para-driblar-cota-de-tela/

 

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