
Por Lison Bindá
A identidade da maior floresta tropical do planeta não está escrita apenas nos livros de geografia, mas pulsa na ponta dos pincéis de quem vive a realidade da região. O panorama artístico local funciona como um documento vivo que resiste ao avanço da modernidade e das ameaças ambientais.
Para compreender a real profundidade desse cenário, conversamos com o artista Augusto Simões, integrante da Associação dos Artistas Plásticos do Estado do Amazonas (AAPAM) e morador de Parintins. O artista analisa o papel da criação visual como um ciclo de preservação que une o passado ancestral ao futuro da floresta.
Herança ancestral
A produção artística local carrega uma bagagem que ultrapassa as fronteiras geográficas tradicionais da Região Norte. O fluxo cultural acompanha o próprio desenho das águas, trazendo influências que se estendem por milhares de quilômetros e conectam diferentes povos.
“O ato de executar a arte traz, desde o Peru, nos contrafortes dos Andes, até o Maranhão, a cultura e a identidade de onde nossos ancestrais vieram”, afirma Augusto Simões.
Essa bagagem histórica cria um diferencial competitivo e estético para a região. Os elementos visuais não servem como meros adornos decorativos, pois carregam significados profundos sobre a vida cotidiana e as crenças locais.
Geometria e mitos
A relação do morador da floresta com o ambiente ao seu redor envolve uma leitura atenta das formas naturais. O conhecimento tradicional transforma elementos do cotidiano em guias complexos de navegação e espiritualidade, assemelhando-se aos sistemas de crenças de civilizações antigas.
- A batida dos tambores funciona como evocação das divindades das águas e do ar.
- As lendas locais como a figura da Iara ganham o mesmo peso de divindades clássicas europeias como Poseidon.
- O formato das folhas e a geometria da natureza servem como constelações guias para as comunidades tradicionais.
Toda essa riqueza visual se transforma em matéria-prima para quem precisa documentar a realidade amazônica. A vastidão desses saberes mostra que o mercado da arte local ainda tem um universo inteiro de temas a serem explorados e divulgados para o mundo.
Arte e resistência
Em um cenário global onde os debates sobre o clima ganham urgência, o papel de quem cria a arte ganha contornos de registro histórico e político. A atuação desses profissionais vai muito além da busca pela beleza estética em suas telas.
“O artista plástico atua como um verdadeiro cronista visual da floresta”, destaca Augusto Simões.
A sensibilidade visual consegue atingir o público de uma forma que relatórios técnicos e planilhas muitas vezes não alcançam. Ao traduzir mitos, fauna e flora em imagens impactantes, o setor artístico constrói uma barreira de proteção cultural, provando que derrubar a floresta significa apagar a memória de todo um povo.










