
Por João Prada (*)
A corrida global pela inteligência artificial está impulsionando uma transformação profunda na infraestrutura digital. Empresas de tecnologia, provedores de nuvem e governos investem bilhões de dólares na construção de data centers capazes de processar volumes cada vez maiores de dados. Nesse cenário, a atenção costuma se concentrar em servidores, chips de última geração, consumo de energia e capacidade computacional. Todos esses elementos são essenciais, mas existe um fator que recebe menos destaque e que será determinante para sustentar essa expansão: a logística.
Na minha visão, o crescimento do mercado de data centers não será definido apenas pela disponibilidade de tecnologia. Ele dependerá da capacidade de construir cadeias logísticas compatíveis com a velocidade e a complexidade desse setor. Sem essa estrutura, a expansão dos investimentos encontra limites operacionais difíceis de superar.
Segundo a McKinsey (MCKINSEY), a demanda global por capacidade de data centers pode crescer entre 19% e 22% ao ano até 2030, impulsionada principalmente pelas aplicações de inteligência artificial generativa. A consultoria estima que os investimentos globais em infraestrutura de data centers poderão ultrapassar $6 trilhões até o final da década. Esse crescimento exige muito mais do que novas instalações, ele demanda uma estrutura capaz de movimentar equipamentos de alto valor agregado, coordenar fornecedores globais e garantir a disponibilidade de componentes críticos.
O que mais percebo é que o desafio começa antes mesmo de um data center entrar em operação, pois a implantação de uma única instalação envolve o transporte de milhares de equipamentos vindos de diferentes países e fornecedores. Servidores, racks, sistemas de armazenamento, componentes de rede e infraestrutura elétrica precisam chegar no momento certo para evitar atrasos em projetos que frequentemente envolvem investimentos bilionários.
Depois da inauguração, a logística ganha uma nova dimensão. Como os data centers operam continuamente e sustentam serviços essenciais para empresas e consumidores, qualquer falha pode gerar impactos relevantes. Por esse motivo, o tempo de resposta deixa de ser apenas um indicador operacional e passa a ser um requisito do negócio.
Quando uma peça precisa ser substituída, a reposição muitas vezes ocorre em questão de horas. Isso exige estoques estrategicamente posicionados, processos rigorosos de controle e total visibilidade sobre os ativos armazenados. Em muitos projetos, os centros de distribuição são instalados próximos ao data center para reduzir o tempo de atendimento.
A complexidade aumenta com o ritmo de evolução tecnológica, pois equipamentos utilizados nesse segmento passam por ciclos de atualização cada vez mais curtos. Componentes que hoje atendem aos requisitos de desempenho podem se tornar insuficientes em poucos meses. Essa dinâmica exige uma gestão de estoque baseada em rastreabilidade, controle de números seriais e capacidade de adaptação constante.
Esse cenário já influencia decisões de investimento em toda a cadeia logística, por exemplo, a recente é a ampliação da estrutura da DHL (DHL) na América do Norte para atender à crescente demanda por serviços voltados a esse mercado. O movimento reflete uma mudança importante: a logística passou a ocupar um papel central na viabilidade operacional dos data centers.
O Brasil já concentra uma parcela significativa da capacidade instalada de data centers na América Latina e tem atraído a atenção de grandes empresas globais. A expansão da demanda por serviços digitais, os investimentos em conectividade e os incentivos voltados à infraestrutura tecnológica criam um ambiente promissor para novos projetos.
No entanto, a competitividade brasileira não será medida apenas pela capacidade de atrair investimentos. Ela também dependerá da construção de um ecossistema capaz de atender às exigências desse mercado. Afinal, a infraestrutura digital não termina na porta do data center. Ela depende de uma cadeia de suprimentos eficiente e preparada para responder rapidamente a qualquer necessidade operacional.
Quanto mais o mercado de data centers cresce, mais evidente se torna a importância da logística para garantir a continuidade dessas operações. Em um setor onde uma interrupção pode gerar impactos significativos, a eficiência logística deixa de ser apenas um diferencial e se torna uma condição necessária para sustentar o avanço da economia digital.
(*) é Diretor de Operações do setor de Tecnologia na DHL Supply Chain.










