
A desilusão manifestada recentemente por figuras do espectro político ao constatarem o fraco desempenho de campanhas focadas em cadernos detalhados de propostas expôs uma ferida aberta na democracia brasileira.
Quando a elaboração de soluções técnicas para a máquina pública passa a ser encarada como algo “ultrapassado” e ineficiente para a captação de votos, fica evidente que o ecossistema eleitoral atingiu um ponto crítico de exaustão estrutural.
O diagnóstico é amargo, mas incontestável: o debate político contemporâneo abandonou a formulação de projetos de país para se concentrar quase exclusivamente na validação de bolhas ideológicas, na caça ao engajamento digital e na lacração performática.
Surge, então, a urgência inevitável: como reestruturar o modelo de campanhas e os debates de televisão para que o cidadão volte a ter ferramentas reais de aferição e comparação das propostas dos candidatos?
Economia e interesse público
A dinâmica eleitoral recente foi engolida pela lógica dos algoritmos. O tempo e os recursos que deveriam ser investidos no planejamento de políticas públicas sustentáveis (como reforma tributária, gestão fiscal e metas de aprendizagem) foram substituídos pela urgência do “corte” focado em redes sociais.
O incentivo das campanhas deixou de ser o convencimento do eleitor indeciso por meio da razão. O foco passou a ser a alimentação permanente do eleitorado já convertido com ataques ad hominem e pautas identitárias ou morais, que geram reações viscerais e rápido engajamento.
O registro obrigatório de propostas nos Tribunais Eleitorais tornou-se uma mera formalidade burocrática, com diretrizes genéricas que raramente são cobradas ou aprofundadas durante a propaganda eleitoral.
Os debates na TV
Os debates televisivos, criados no século passado para expor e confrontar ideias de forma transparente, transformaram-se em arenas de entretenimento e produção de memes.
Com blocos engessados, tempos de resposta curtíssimos (geralmente entre 1 e 2 minutos) e direito de resposta focado apenas em ofensas pessoais, o formato atual pune o candidato que tenta explicar uma política pública complexa e premia aquele que domina a arte da provocação.
Sem tempo para o contraditório embasado e sem a exigência de dados concretos, os debates viraram palcos para a lacração, onde o microfone serve como arma de confronto, e não como instrumento de esclarecimento ao eleitor.
Caminhos para a mudança
Para que a população possa bem analisar o que cada postulante pretende fazer caso eleito, especialistas em ciência política e gestão pública apontam que a reformulação precisa ocorrer em duas frentes fundamentais.
Eles pregam a reformulação nos debates televisivos e nas mídias, com a realização de sabatinas temáticas setoriais. Ou seja, substituir o confronto genérico entre candidatos por debates focados em eixos específicos (Economia, Saúde, Educação, Segurança Pública), com mediação rígida.
Eles chamam a atenção para a inclusão de especialistas isentos, garantindo que bancadas de economistas, educadores e juristas façam perguntas técnicas com tempo hábil para réplicas detalhadas, testando a viabilidade orçamentária e operacional das promessas.
Defendem a checagem de fatos em tempo real, a integração de agências de checagem na transmissão, alertando o espectador sobre dados falsos ou distorcidos ditos pelos candidatos no momento em que ocorrem.
Defendem punições efetivas por ataques pessoais, observando-se regras mais severas para corte de microfone e perda de tempo de fala para candidatos que utilizarem o espaço prioritariamente para ofensas em vez de respostas programáticas.
As reformas nas normas de campanha incluiriam a exigência de viabilidade orçamentária, tornando obrigatório que qualquer proposta apresentada em horário eleitoral ou plano de governo venha acompanhada da indicação da fonte de custeio.
Os especialistas também destacam a necessidade de uma auditoria dos planos de governo, criando-se mecanismos institucionais ou acadêmicos que pontuem a exequibilidade das propostas registradas na Justiça Eleitoral.
Destacam, ainda, a valorização da prestação de contas, reduzindo o tempo focado em ataques e ampliando o espaço dedicado ao histórico de votos, entregas passadas e diretrizes de gestão dos postulantes.
Papel ativo do eleitor
Nenhuma reformulação das regras do jogo será suficiente se não houver uma mudança correspondente na postura do próprio eleitorado. Conscientizar a sociedade de que a política não é uma disputa de torcidas organizadas é o primeiro passo para resgatar a função primordial do voto.
Enquanto a escolha do voto for guiada pelo ressentimento ou pelo entretenimento digital, propostas sérias continuarão sendo tratadas como um “esforço inútil”.
Exigir debates profundos e campanhas transparentes não é um privilégio técnico, mas a única garantia de que o próximo governo terá legitimidade e compromisso com o futuro do país.










