Política Candidatos ainda não deram respostas aos desafios que o Amazonas precisa encarar

Candidatos ainda não deram respostas aos desafios que o Amazonas precisa encarar

Na reta final da disputa pelo governo, infraestrutura, emprego, inclusão das pessoas com deficiência e serviços públicos essenciais exigem propostas concretas, metas e compromissos que possam ser cobrados pela população

Fotos: Divulgação

Na reta final da disputa pelo governo, infraestrutura, emprego, inclusão das pessoas com deficiência e serviços públicos essenciais exigem propostas concretas, metas e compromissos que possam ser cobrados pela população

De forma melancólica, o Amazonas chega à reta final da atual campanha eleitoral com desafios históricos que não podem ser reduzidos a slogans, disputas partidárias ou promessas genéricas.

Em um estado marcado por enormes distâncias geográficas, desigualdades sociais e dificuldades de acesso a serviços básicos, a eleição para o governo deveria representar uma oportunidade para discutir, com profundidade, os caminhos capazes de transformar a realidade de milhões de amazonenses.

Entretanto, uma questão merece atenção especial: até que ponto os debates e as agendas dos candidatos Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL) têm dado a devida prioridade aos problemas estruturais do estado?

A pergunta não é secundária. Trata-se de saber se a campanha está oferecendo à população elementos suficientes para avaliar os projetos de governo, comparar prioridades e compreender como cada candidatura pretende enfrentar as dificuldades que se acumulam há décadas.

O eleitor não precisa apenas ouvir o que os candidatos pretendem fazer. Precisa saber como, quando, com quais recursos e sob quais mecanismos de fiscalização as promessas poderão sair do papel.

Infraestrutura e desenvolvimento

No Amazonas, infraestrutura não é apenas uma questão de obras. É um fator determinante para o desenvolvimento econômico, a integração territorial e o acesso a direitos fundamentais.

A precariedade de estradas, portos, instalações públicas e sistemas de transporte interfere no custo dos alimentos, no escoamento da produção, na circulação de mercadorias e no deslocamento de pacientes e estudantes.

Em diversas localidades, as distâncias percorridas pelos rios e a dependência do transporte fluvial tornam ainda mais complexa a prestação de serviços públicos.

Por isso, é indispensável que os candidatos esclareçam quais intervenções consideram prioritárias, quais são de responsabilidade estadual e quais dependem de articulação com o governo federal e as prefeituras.

No caso das rodovias, por exemplo, não basta anunciar recuperação ou ampliação. É preciso indicar trechos prioritários, cronogramas, fontes de financiamento e critérios ambientais.

Nos municípios do interior, também é necessário discutir a modernização dos portos, a manutenção das estruturas de embarque e desembarque e as condições de transporte de passageiros e cargas.

A questão central é saber qual planejamento poderá reduzir o isolamento das comunidades e ampliar as oportunidades econômicas sem ignorar as particularidades ambientais e sociais da Amazônia.

Emprego e renda

A geração de empregos é outro tema que exige respostas objetivas de Omar Aziz e Maria do Carmo. O Amazonas possui uma base industrial concentrada em Manaus, além de recursos naturais, diversidade biológica e atividades produtivas que podem contribuir para a diversificação econômica.

O desafio consiste em transformar essas potencialidades em oportunidades permanentes de trabalho e renda, especialmente para os jovens e para quem vive distante da capital.

Nesse contexto, a bioeconomia aparece como uma possibilidade estratégica. O aproveitamento sustentável de produtos da floresta, o desenvolvimento de tecnologias, a pesquisa científica, a industrialização de matérias-primas regionais e o fortalecimento de cadeias produtivas podem ampliar as alternativas econômicas do estado.

Mas a bioeconomia não pode permanecer apenas no discurso. É necessário esclarecer como os produtores terão acesso a crédito, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento, transporte, capacitação e mercados consumidores.

Também é fundamental discutir a participação das universidades, dos institutos de pesquisa, das comunidades tradicionais e do setor privado na construção de uma economia que agregue valor à produção regional.

Quantos empregos qualificados poderão ser criados, em quais regiões e em que prazo? Sem metas verificáveis, a promessa de desenvolvimento corre o risco de permanecer distante da realidade das famílias.

Pessoas com deficiência

Um projeto de desenvolvimento também precisa ser avaliado pela maneira como trata as pessoas com deficiência.

A inclusão exige mais do que declarações de compromisso. Depende de políticas públicas permanentes, acessibilidade nos espaços públicos, transporte adequado, educação inclusiva, qualificação profissional, oportunidades de emprego e acesso aos serviços de saúde e reabilitação.

No Amazonas, as dificuldades de deslocamento e a concentração de serviços especializados na capital podem ampliar os obstáculos enfrentados por pessoas com deficiência que vivem nos municípios do interior.

É necessário, portanto, que Omar e Maria do Carmo esclareçam quais medidas pretendem adotar para ampliar a acessibilidade, apoiar as famílias, fortalecer os serviços especializados e fiscalizar o cumprimento das normas de inclusão.

Também cabe discutir a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho, com qualificação profissional, parcerias com empresas e políticas de combate à discriminação.

A inclusão não pode ser tratada como um apêndice da agenda social. Ela deve integrar o planejamento das obras, da mobilidade, da educação, da saúde e do desenvolvimento econômico.

Drama da educação

A educação pública amazonense enfrenta desafios que exigem atenção muito além dos indicadores de matrícula e aprovação.

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em outubro de 2026 relatou que o Ministério Público Federal (MPF) identificou problemas na oferta de aulas em terras indígenas e reservas de diferentes municípios do estado, incluindo falta de professores, transporte, merenda e estrutura escolar.

O levantamento também apontou situações em que estudantes teriam sido aprovados sem a oferta regular de aulas.

O quadro relatado reforça a necessidade de discutir a qualidade efetiva do ensino e as condições de aprendizagem, sobretudo nas comunidades mais isoladas.

É preciso assegurar professores, material didático, transporte escolar, alimentação adequada e instalações compatíveis com as necessidades dos estudantes. Também é necessário investir na formação profissional, na conectividade e na ampliação das oportunidades de ensino técnico e superior no interior.

Os candidatos devem apresentar metas claras para reduzir desigualdades educacionais entre Manaus e os demais municípios, além de explicar como pretendem acompanhar os resultados das políticas implementadas.

A educação não pode ser vista somente como uma despesa administrativa. É uma das principais condições para ampliar a produtividade, reduzir desigualdades e preparar os jovens para as transformações do mercado de trabalho.

Saúde sem promessas

Na saúde, o debate deve ultrapassar anúncios de novas unidades e ampliação de programas. O que importa é saber se o cidadão conseguirá atendimento no momento em que precisar.

A população necessita de acesso oportuno a consultas especializadas, exames, cirurgias, medicamentos, atendimento de urgência e acompanhamento contínuo. No interior, as distâncias e as limitações de transporte podem transformar um problema de saúde em uma situação ainda mais difícil.

Por isso, são necessárias propostas para reduzir filas, melhorar a regulação de consultas e procedimentos, fortalecer a atenção básica e ampliar a presença de profissionais de saúde fora da capital.

Também é fundamental esclarecer como o governo pretende organizar os recursos financeiros e humanos, melhorar a gestão das unidades e estabelecer mecanismos de transparência sobre os resultados.

O eleitor precisa saber quais metas serão adotadas, quais indicadores permitirão avaliar o desempenho e como as comunidades poderão cobrar melhorias.

Compromissos sérios

A reta final da campanha no Amazonas deveria ser um momento de esclarecimento, não apenas de intensificação da propaganda política.

Os eleitores precisam ter condições de comparar propostas e cobrar respostas para questões que afetam diretamente seu cotidiano: como reduzir o isolamento do interior? Como ampliar a oferta de empregos? Como garantir educação de qualidade? Como melhorar o acesso à saúde? Como assegurar a inclusão das pessoas com deficiência? Como transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável e oportunidades para a população local?

Essas perguntas não pertencem a um partido ou a uma candidatura. São questões de interesse público que deveriam ocupar posição central na discussão sobre o futuro do Amazonas.

O próximo governo encontrará desafios que exigem planejamento, capacidade de articulação institucional, responsabilidade na aplicação dos recursos e mecanismos transparentes de prestação de contas.

Por isso, a população tem o direito de exigir compromissos objetivos, com metas, prazos e indicadores que permitam acompanhar os resultados ao longo do mandato.

A campanha eleitoral não deve ser medida apenas pela força dos discursos ou pela capacidade de mobilização dos candidatos. Deve ser examinada também pela qualidade das respostas que oferece aos problemas concretos do estado.

O Amazonas precisa de uma discussão pública à altura de sua dimensão territorial, de sua riqueza natural e das necessidades de seus habitantes. Mais do que promessas, a população espera projetos consistentes, prioridades bem definidas e resultados que possam ser cobrados.

É esse o debate que precisa ganhar espaço antes de o eleitor decidir, no próximo dia 25 de outubro, quem receberá a responsabilidade de governar o estado.

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