Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho O desassossego de quem trabalha: do posto à fábrica fechada e a...

O desassossego de quem trabalha: do posto à fábrica fechada e a erosão de 2027

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

O Brasil real não se mede no palanque, mas na panela, na bomba, no relógio de luz e no vencimento do boleto. O que está em jogo não é um índice, é a materialidade da sobrevivência. Por essa razão, a preocupação dos brasileiros com custo de vida, inflação e combustível precisa ser compreendida como um encadeamento, e não como fatos isolados.

De acordo com o Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE), o Índices Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do país, acumulou 3,95% entre janeiro e setembro de 2026 e alcançou 4,58% em doze meses, acima do teto de 4,5%. Nessa trajetória, o combustível se revela como vetor central. Até setembro, a inflação dos combustíveis foi de 4,49%, praticamente o dobro dos 2,30% de 2025. Para conter a alta, o Governo Federal mobilizou cerca de R$ 40 bilhões em compensação, com subvenção adicional de R$ 1,40 por litro de diesel, elevando o suporte total a R$ 3,52 por litro importado, além de R$ 16 bilhões já repassados à Petrobras.

Entretanto, o subsídio não neutraliza o choque externo. A cotação do barril Brent, petróleo de referência internacional, avançou de US$ 70 para US$ 120 em razão dos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, estabilizando-se depois em US$ 105,90. Conforme a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o diesel se aproximou de R$ 7,36 na média nacional, com o diesel S10 subindo 20,85% desde o início do conflito, enquanto a gasolina comum passou de R$ 4,93 em 2022 para R$ 6,53 em 2026, alta de 32%. Assim, quando o diesel sobe, o frete sobe e, quando o frete sobe, o tomate avança 37,76%, a batata 24,07% e o arroz 4,56%. Para completar, a energia elétrica residencial subiu 7,98% em setembro com o fim do Bônus de Itaipu, desconto na conta de luz financiado pelo saldo positivo da usina de Itaipu, o maior impacto individual no IPCA do mês. Em síntese, a conta de luz e a bomba se encontram na mesma mesa.

A face regressiva

Ora, essa inflação possui face perversa, pois é regressiva. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que mede a inflação por faixa de renda, em setembro os lares com renda inferior a R$ 2.299,82 registraram 0,94%, ante 0,72% dos lares acima de R$ 22.998,22. No acumulado do ano, a baixa renda soma 4,18%, a maior entre todas. É justamente aqui que o ciclo se fecha com o elo do superendividamento. Entre julho e agosto de 2026, 82% das famílias declararam possuir dívidas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), maior patamar desde 2010, com leve recuo para 81,7% em setembro, ainda recorde.

A inadimplência com contas em atraso chegou a 29,9% e a Serasa contabilizou 83,9 milhões de pessoas com nome negativado. Dados do Banco Central do Brasil (BCB) mostram que o endividamento atingiu 50,1% da renda acumulada em doze meses e o comprometimento da renda com dívidas, percentual da renda mensal destinado a pagar dívidas, alcançou 29%, ambos recordes históricos.

Cerca de 19,2% das famílias destinam mais da metade dos rendimentos ao pagamento de dívidas. O cartão de crédito, presente em 85,3% dos casos, cobra juros rotativos, cobrados quando não se paga a fatura total, de 451,7% ao ano, com prazo médio de atraso de 65,3 dias.

Desse modo, a família usa o crédito para manter o padrão quando o diesel a R$ 7,36 encarece o frete e o tomate a 37,76% encarece a feira. A inflação empurra para o cartão e o cartão transforma inflação em superendividamento, corroendo o mínimo existencial protegido pela “Lei 14.181 de 2021”, a Lei do Superendividamento.

Por conseguinte, quem trabalha paga duas vezes. Paga na bomba, onde cerca de 35% do diesel e 45% da gasolina são tributos, paga na luz, onde Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e encargos chegam a 40%, paga no alimento, onde tributos do frete se acumulam, e paga no boleto, pois quando o governo gasta R$ 40 bilhões em subsídio sem corte de despesa, o custo retorna em juros.

Nesse sentido, para adensar a leitura, convém trazer vozes autorais. Celso Furtado lembra a dependência estrutural das commodities. Maria da Conceição Tavares alerta que não há controle duradouro de inflação sem enfrentar preços administrados. Claudia Cavalcante e Leonardo Marques distinguem endividamento de inadimplência.

Sérgio Abranches e Bolívar Lamounier explicam o presidencialismo de coalizão e a legitimidade fracionada. Monica de Bolle e Armínio Fraga evidenciam o dilema fiscal-monetário, com Focus projetando 5,01% ao fim de 2026.

O impasse fiscal

Chegamos, portanto, ao ponto central. O governo reeleito não disporá de margem para honrar integralmente as promessas de campanha e a população amargará o custo. Primeiro, por exaustão fiscal, pois pacote de R$ 5,2 bilhões em trinta dias apenas para diesel, gasolina e etanol não se sustenta com meta já estourada. Segundo, por persistência externa, já que a Agência Internacional de Energia (AIE) projeta escassez de diesel até 2027. Terceiro, por corrosão social e financeira, visto que a prévia de outubro mostrou combustíveis subindo 1,20% mesmo com subsídio.

Ademais, é preciso considerar o que esperar do Novo Congresso de 2027 e como governar com metade da população desiludida e 82% endividada. O Congresso será ambivalente, freio fiscal e acelerador de alívios populares. Três cenários são plausíveis: o Ajustador, que corta subsídio geral e focaliza nos pobres; o Gastador, que prorroga benefício sem fonte e empurra a conta para câmbio e juros; e o Corporativo, o mais provável, em que cada bancada defende seu combustível e o resultado é um retalho sem política única.

Além disso, não se pode esquecer o fenômeno da judicialização da política, que ocorre quando partidos recorrem ao Supremo Tribunal Federal (STF) para decidir temas políticos, desenho criado após a ditadura para evitar concentração de poder, mas cujo efeito colateral foi transformar o Judiciário em árbitro que por vezes vira jogador, e do Centrão, bloco suprapartidário que, como explica Abranches, não é acidente, mas sintoma de um presidencialismo forte com Congresso hiperfragmentado.

 É aqui que se revela a frouxidão de uma casta parlamentar que se fez sanguessuga do orçamento. Enquanto o trabalhador paga 35% de tributo no diesel e 40% na luz, o Parlamento garante para si emendas bilionárias sem transparência, aposentadoria integral, auxílio-moradia, verba de gabinete e reajustes acima da inflação.

Não legislam para cortar o Custo Brasil, legislam para preservá-lo. Defendem a própria maquila, seu combustível, sua emenda, seu fundo eleitoral de R$ 5 bilhões. O povo empresta o voto, eles transformam em renda permanente.

O êxodo produtivo

Por fim, chegamos aos pontos que mais têm gerado sobressalto quanto ao futuro: o alinhamento externo, a segurança e o fechamento de empresas. Quanto ao alinhamento com o Partido Comunista Chinês e com ditaduras, é preciso distinguir comércio de adesão política. Desde 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, absorvendo cerca de 30% das exportações, dado estrutural que nenhum governo desfez.

O desconforto decorre de sinais políticos, como participação no BRICS expandido, que inclui Rússia e Irã, discursos de reconfiguração da ordem monetária e acordos tecnológicos com estatais chinesas sem salvaguardas nítidas sobre dados. A tradição brasileira pauta-se por universalismo e pragmatismo sem alinhamento automático.

Quanto à soma entre crime organizado e “Bolsa Família”, programa de transferência de renda criado em 2003 e hoje com cerca de 20,8 milhões de famílias, com custo de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e condicionalidades de escola e vacina, impõe-se igual rigor. “Bolsa Família” é política de Estado mantida por todos os governos, sendo justamente a transferência focalizada que a literatura recomenda como mais barata que subsídio geral de combustível.

O crime organizado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, expandiu-se para roubo de cargas, adulteração de combustíveis e controle de postos, justamente nos setores que encarecem o frete e a bomba. Não há comprovação institucional de aliança entre Governo Federal e facções. O que há é Estado ausente onde o benefício chega sem escola integral e policiamento de proximidade, e aí quem manda no território é a facção.

E é exatamente aqui que se encaixam os dois dados que fecham a conta do Brasil real. Primeiro, muitas empresas em recuperação judicial, processo legal para empresas em crise renegociarem dívidas e evitarem falência, outras encerrando atividades e outras migrating para o Paraguai.

A Serasa Experian apontou em 2026 recorde de pedidos de recuperação judicial, puxado por pequenas e médias empresas do varejo, transportes e agroindústria, que não suportam a combinação de diesel a R$ 7,36, energia 7,98% mais cara, juros de capital de giro acima de 25% ao ano e carga tributária de 34% embutida no consumo. Esse é o chamado Custo Brasil. O Paraguai oferece o regime de maquila, com imposto efetivo de 10% sobre lucro, energia de Itaipu 60% mais barata que no Brasil e tributação simplificada. Não é falta de patriotismo do empresário, é excesso de custo Brasil.

Segundo, faz duas décadas que se fala em combate à pobreza e inclusão social, mas o número de dependentes só aumenta. De 2003 a 2026, o “Bolsa Família” saiu de 3,6 milhões para cerca de 20,8 milhões de famílias, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) segue em expansão e os benefícios por incapacidade cresceram mais de 40%. Não se trata de negar a necessidade da rede de proteção, que é vital quando 82% das famílias estão endividadas e 38,8% das famílias que ganham até três salários estão inadimplentes. Trata-se de constatar que o modelo não gerou porta de saída.

Quando se subsidia diesel a R$ 3,52 por litro sem ferrovia e sem escola técnica, mantém-se o trabalhador preso ao preço administrado e ao benefício na véspera da eleição, e não ao emprego. A inclusão que não emancipa, perpetua. Como lembrava Roberto Campos, mantida por duas décadas a mesma política assistencial sem produtividade, o que era para ser rede vira armadilha.

Em última análise, é neste ponto que se revela a transição que marca o país: o Brasil que se apresentou como o Brasil da Esperança foi sendo sepultado pelo Brasil do Engodo. Não por falta de recursos ou de afeto do povo, mas por excesso de artifício.

A esperança prometia emancipar pelo trabalho, pela escola integral e pela produtividade. O engodo contentou-se em administrar a escassez, trocando emprego por auxílio, ferrovia por subsídio, indústria por maquila no país vizinho e segurança por território cedido à facção. O desassossego, portanto, sobra para quem trabalha e paga impostos escorchantes, porque o país insiste em socializar custos e privatizar benefícios.

Subsídio concedido para conter preço no período eleitoral converte-se em tributo e juros para quem produz no período pós-eleitoral, a taxa invisível do medo cobrada por facções ocupa o vácuo do Estado, a empresa que deveria gerar emprego fecha ou atravessa a fronteira, e o Estado que prometeu inclusão há vinte anos entrega dependência em vez de emancipação.

Por conseguinte, a crise de 2027 não se apresentará como explosão, mas como erosão. Erosão do poder de compra, da confiança e da base prodututiva. Erosão que não aparece no palanque, mas se revela no tanque, no carrinho, no boleto com juros de 452% ao ano, na porta de casa trancada duas vezes e no portão da fábrica com placa de aluga-se.

Quem suporta essa erosão não é o ministro, não é o parlamentar sanguessuga que vive de emenda e nunca cortou um privilégio próprio, não é o magistrado. É o brasileiro que labora diariamente, abastece com diesel a R$ 7,36, comercializa tomate com alta de 37,76%, destina 29% de sua remuneração ao sistema financeiro e ainda vê o emprego do vizinho ir para o Paraguai.

Como dizia Ulysses Guimarães, o povo tem paciência, mas tem memória de bolso, e bolso endividado, tributado, inseguro e desempregado não se engana por muito tempo.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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