
Brasil e Paraguai compartilham o controle da Usina Hidrelétrica de Itaipu desde 1984. Os dois países dividem a produção em partes iguais, com metade da eletricidade para cada lado. Contudo, a divisão prática do recurso sempre teve contornos diferentes. Como o território brasileiro consome 40 vezes mais energia e figura como o sexto maior consumidor mundial do setor, o mercado nacional sempre comprou quase todo o excedente paraguaio.
A fartura energética garantiu ao país vizinho uma posição privilegiada. No ano passado, a fatia paraguaia de Itaipu seria suficiente para abastecer todo o território nacional por um ano e três meses. Essa abundância ajudou a criar um ambiente com tarifas extremamente baixas.
Levantamento do Banco Mundial referente ao ano de 2022 mostrou que a eletricidade para empresas no Paraguai custava 72% menos do que a média global. Esse atrativo começou a captar indústrias, mineradoras de moedas digitais e grandes centros de processamento de dados.
Aumento do consumo
A utilização da energia gerada na usina mudou de forma expressiva ao longo das últimas duas décadas. Em 2005, o Brasil aproveitava 92% da produção de Itaipu, enquanto o Paraguai utilizava apenas 7%. Já no ano de 2025, a parcela absorvida pelo consumo brasileiro caiu para 64%, com os paraguaios retendo 36%.
O exemplo mais marcante dessa transformação está em obras na cidade de Yguazú, perto da fronteira, onde se constrói o complexo “Iguazú AI City”, voltado para o setor de Inteligência Artificial (IA).
Mega projeto tecnológico
A estrutura planejada exige volumes gigantescos de eletricidade para manter milhares de servidores operando sem interrupções.
- O objetivo final do empreendimento prevê operar com 1.300 MW de potência, volume que equivale a quase quatro vezes o consumo anual da capital Assunção.
- O início das operações está previsto para o ano de 2027, devendo alcançar 286 MW até abril de 2029, superando o maior complexo em funcionamento no Brasil, localizado em Vinhedo e operado pela Ascenty com 61 MW.
- A demanda de 286 MW prevista para 2029 corresponde a 3,4% de toda a energia produzida por Itaipu em 2025, podendo alcançar 15,6% da usina caso chegue à capacidade máxima.
- O investimento total projetado chega ao valor de US$ 12 bilhões, montante equivalente a 24% do Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio em 2025.
Aliança com americanos
A empresa paraguaia Araico, comandada pelos empresários Alejandro Zuccolillo e Nicolás Arréllaga, cofundador da fintech Nexoos, lidera o projeto.
A iniciativa recebeu suporte financeiro de investidores dos Estados Unidos (EUA), incluindo o Founders Fund, pertencente ao bilionário Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir Technologies, além do apoio da agência governamental DFC.
Em outubro, a Araico firmou contrato com a empresa norte-americana Crusoe para instalar a infraestrutura de computação. O anúncio oficial ocorreu durante a visita do vice-secretário de Estado norte-americano Christopher Landau.
A aproximação ganhou força política após o governo de Santiago Peña formalizar a adesão do Paraguai ao programa “Pax Silica”, liderado pela gestão do presidente Donald Trump para infraestrutura tecnológica.
Impacto no bolso
O avanço do consumo paraguaio afeta diretamente o planejamento do sistema elétrico nacional. Atualmente, Itaipu cobre 7% de toda a eletricidade consumida no Brasil.
A usina tem papel fundamental para manter a estabilidade no início da noite, quando a geração solar cai e a demanda das famílias aumenta.
Além da disponibilidade, o custo cobrado pela usina em 2025 ficou em R$ 221 por MWh, valor consideravelmente menor do que os R$ 307 pagos em média pelas distribuidoras brasileiras.
A perspectiva de redução no repasse de eletricidade já consta nas análises da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
“É perfeitamente possível que o Paraguai consuma integralmente sua metade da energia de Itaipu até 2035 ou mesmo antes”, disse José Rosenblatt, especialista em assuntos regulatórios da consultoria PSR.
Diante desse quadro de transição, o mercado projeta reajustes nos custos do consumidor final.
“O Brasil pode ter que contratar mais energia, mais rápido e talvez mais caro”, afirmou Luiz Barroso, CEO da PSR.
Fonte: https://investnews.com.br/negocios/brasil-esta-perdendo-energia-de-itaipu/










