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Fim do “imposto automático” prometido por equipe de Flávio pode mudar rotina financeira das empresas

Flávio Bolsonaro - Foto: André Borges/EFE

A discussão sobre a reforma tributária ganha novos rumos no debate econômico e político do país. A equipe econômica da campanha do candidato Flávio Bolsonaro, filiado ao Partido Liberal (PL), prometeu extinguir o “split payment”, mecanismo que recolhe e separa os tributos de forma automática no exato instante de cada operação financeira. O anúncio foi feito pela coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, em entrevista concedida ao jornalista Cláudio Dantas. A proposta contrapõe o esforço de arrecadação do fisco aos riscos de estrangulamento financeiro das empresas.

Daniella Marques afirmou que a retenção imediata dos impostos prejudica o capital de giro dos pequenos empresários. Ao retirar o imposto no momento da venda, a Receita Federal elimina o intervalo em que a empresa mantinha recursos em caixa para financiar estoques, salários e operações diárias. A economista criticou a falta de clareza sobre o impacto da mudança, alertando que a união do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) resultará no maior Imposto sobre Valor Agregado (IVA) do mundo.

A crítica ao modelo automático encontra sustentação em análises do setor jurídico. A advogada Cintia Ladoani Bertolo, sócia do Bergamini Advogados, avalia que a retenção automática transfere um peso indevido aos contribuintes pontuais. Ela lembra que o poder público já dispõe de ferramentas de controle como a Nota Fiscal Eletrônica, o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) e o cruzamento de dados.

“Ao retirar automaticamente do caixa valores que hoje permanecem disponíveis até o momento do recolhimento, o split payment acabaria por transferir às empresas parte do custo de um problema que cabe à administração tributária combater”, aponta a advogada Cintia Ladoani Bertolo.

Na visão do consultor tributário Felipe Peralta, do escritório Miguel Neto Advogados, a revogação do mecanismo traria alívio importante para o caixa corporativo em um período marcado por juros elevados no mercado.

Caminho no Congresso Nacional

A revogação do sistema de recolhimento automático é juridicamente viável, mas exige articulação política. O advogado tributarista Luís Garcia, sócio do Tax Group, esclarece que a mudança depende de aprovação no Congresso Nacional e não pode ser decidida isoladamente pelo Poder Executivo.

Os caminhos legislativos para alterar a regra dividem os especialistas:

  • O consultor Felipe Peralta defende que uma lei complementar seria suficiente para revogar o mecanismo;
  • O advogado Luís Garcia argumenta que é necessária a aprovação de uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC);
  • A exigência de nova alteração constitucional ocorre porque o formato do recolhimento foi fixado no texto da reforma tributária.

Cronograma de testes adiado

A complexidade técnica do novo sistema forçou ajustes nos prazos de implementação. A Receita Federal inicia os primeiros testes do modelo no dia 15 de outubro, em ambiente controlado e sem movimentação de valores reais.

A previsão inicial de aplicação ampla em janeiro de 2027 deu lugar a uma adoção em etapas:

  • O uso do sistema de recolhimento automático será facultativo ao longo de todo o ano de 2027;
  • A obrigatoriedade para operações entre empresas na modalidade “Business to Business” (B2B) foi adiada para 2028;
  • A implementação nas vendas ao consumidor final ocorrerá gradualmente até o encerramento em 2033.

Para o tributarista Luís Garcia, os sucessivos adiamentos confirmam que o sistema exige alto custo operacional, justificando as propostas de revisão para evitar a sobrecarga das empresas.

Endividamento e crédito caro

Enquanto o Ministério da Fazenda defende o mecanismo para combater fraudes e coibir a concorrência desleal, os indicadores financeiros do setor produtivo acendem o sinal de alerta. A retirada de recursos do caixa antes do vencimento fiscal atinge empresas pressionadas por crédito caro e endividamento.

Dados de órgãos oficiais e consultorias detalham as dificuldades do mercado:

  • O Banco Central registrou em agosto a maior taxa de juros do crédito livre para empresas para o mês desde 2017;
  • A taxa de inadimplência empresarial alcançou 4,3% da carteira, representando alta de 0,5 ponto percentual em 12 meses;
  • Os atrasos superiores a 90 dias entre micro, pequenas e médias empresas atingiram 5,9% em julho, maior índice desde março de 2018;
  • O saldo de crédito de maior risco para empresas desse porte chegou a 9,54% em agosto, recorde da série iniciada em janeiro de 2025 quando marcava 7,80%;
  • Levantamento da Serasa contabilizou 9,2 milhões de empresas negativadas em julho, sendo 8,7 milhões de micro e pequeno porte com dívidas somadas em R$ 206 bilhões;
  • A consultoria RGF Associados apontou 6.341 empresas em recuperação judicial no encerramento do primeiro semestre, equivalente a 2,3 por mil empresas ativas;
  • No mercado de capitais, 24 companhias listadas na Bolsa de Valores estavam em recuperação judicial e 8 em recuperação extrajudicial, maior nível da série iniciada em 2023.

O debate em torno do recolhimento automático expõe a necessidade de equilibrar a eficiência no combate à sonegação com a garantia de liquidez para a sobrevivência das empresas no país.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/flavio-bolsonaro-fim-split-payment-reforma-tributaria/

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